Não sabia que não poderia fazer tudo quanto quisesse. Pensava que a vida
apresentada seria sempre igual, comigo ganhando. Lucrando com a
vantagem de ser sempre superior, caminhando pelos "s" tortuosos por
onde só eu conseguia andar. As palavras que tentavam me convencer não
surtiam efeito, como se estivessem vencidas, ou como se fossem placebos.
Mais inutilidade, apenas no modo como me descrevem agora. Me
transformei naquilo que eu ignorava: inúteis eram aquelas palavras
comigo... Me resta apenas - e sempre o que resta é a inutilidade que
sobra -, falar comigo mesmo sobre uma vida que não aconteceu.
Traduzindo a vida
Meu ponto de vista
domingo, 22 de abril de 2012
domingo, 8 de abril de 2012
Porta aberta
O portão estava aberto. O portão do prédio estava aberto. E eu entrei. E eu fechei o portão quando entrei. Suava frio, um tanto nervoso, com medo, ansioso. Subi as escadas. Térreo. Um lance de escadas. Primeiro andar. Pensei que seria mais pra cima. Segundo lance de escadas. Segundo andar. Acho que falta mais um pouco. Terceiro andar. A porta estava aberta, nem pude confirmar o número do apartamento. A luz acesa e a porta aberta. Deveria ser ali. Bati na porta. Chamei. “Entra”, veio em resposta. Fechei a porta. Tranquei a porta, porque essa não podia ficar aberta mais. Abrira-se para mim, mais ninguém. Naquela noite. Não sabia bem o que esperar, como dizer oi, sei lá. Demos as mãos, e ganhei um selinho: “Oi”. Fascinei. Conversamos, falamos da vida, dos dias, das noites. Do sono, da falta de dormir. Das conquistas mais recentes, das histórias mais tristes, dos abandonos e das carências. Falamos de nós, ouvi mais. Havia algo diferente naquilo. Pensemos. Portão aberto. Porta aberta. Beijo como oi. Era só chegar. Bastaria estar lá que tudo aconteceria. Parecia. O mundo fluía. E se eu voltasse lá outro dia e não fosse mais o mesmo lugar, a mesma pessoa, a mesma porta? Se fosse para fluir, tudo seria diferente. Não. Eu não voltaria depois. Eu participaria desse fluir de rio, eu estaria no rio, não voltaria para vê-lo depois. Pronto. Era isso mesmo. Me agarrei em seus cabelos e nadei, não me afoguei. Sigo até agora os caminhos que suas águas comandam. Espero não chegar a destino algum ainda, continuar nesse nadar contigo me segurando, me protegendo, me comandando. Águas que se parecem turvas às vezes, que se agitam tanto outras vezes. Águas que lavam as tristezas, que me tiram das profundezas da solidão. Águas que ameaçam me afogar, parece, só para terem o prazer de me salvar... Águas que desaguam no mar, mas o mar é tão imenso, que nem sei se quero chegar lá. Posso me perder de você, encontrar a porta fechada e não te ter mais para abri-la.
"me agarrei em seus cabelos, sua boa quente pra não me afogar... tua língua correnteza, lambe minhas pernas como faz o mar... eu que não sei quase nada do mar, descobri que não sei nada de mim"
Ana Carolina: Eu que não sei quase nada do mar
sábado, 7 de abril de 2012
Meu eu que ama
Eu quero te amar. Seu abraço me protege, me acolhe, me faz sentir-me seguro, amado, querido. Você me faz sentir. Isso basta. Eu gosto muito do modo como você conversa, do seu sorriso de meninão levado. Eu me prendo ao seu cheiro, me lembro de suas mãos todo o tempo, porque elas me tocam, eles não pedem passagem, elas são avassaladoras, teimosas. Faz ano que gosto de tudo isso em você. Quem sabe um dia ouça um eu te amo dessa boca que me beija loucamente? Mas tanto carinho já deve demonstrar isso... eu me prendo a formalidades, quando simplesmente nosso laço já existe. Mas a não oficialização me parece sempre ser a porta aberta para você sair e dizer que nunca disse que seria diferente. Morro de ansiedade. De amor. Morrer tem tudo a ver com a paixão. Tanto sofrimento, tanta insegurança, tudo é agora, aqui, tudo somos eu e você. ‘Você é um homem mais velho que eu, gosto dos mais velhos’. Sou? Gosta? Sim. É indizível quão cativante você é. Ou estou cego demais, carente demais e me amando de menos. Mas não acho que seja esse o ponto na minha vida agora. Eu converso com você pelo toque, pela língua. Sinto um desejo de te ver todo dia, de te abraçar a todo instante. Não quero pegar no seu pé, apenas abraçar... Há tanto na vida com que se preocupar, por que alguém se preocuparia tanto com abraços? Apenas abraços... Seus abraços, afinal! Os que me fazem sair do planeta, viajar como super-homem. Viver intensamente. O que seria isso? Permitir-se o amor? Viver um amor por dia, ou um por mês? Como deixar acontecer, se já está acontecendo? Nossa vida já está no gerúndio. Vivendo. Indo. Amando. Sofrendo. Abraçando. Beijando. Estamos sendo o tempo todo. Deixar acontecer e viver intensamente é poder fazer o que se quer o tempo todo? É não se apegar, não criar vínculos? Impossível. Se nos conhecemos, nos relacionamos, já estamos ligados de alguma forma. Seus braços já te marcaram no meu corpo. Já estou me moldando ao seu carinho. Suas mãos já são bem-vindas sem medo nos meus cabelos. Se eu não te vejo no escuro, consigo te ouvir, te cheirar, te lamber, te morder, te tocar. E assim te recebo na falta de luz. Amor não se implora. Ou não se deveria implorar por algo tão básico, mas tão escasso. Não é o momento certo? Como assim?! Há uma bondade imensurável quando se permite o amor. Há uma vida nova que nasce dessa brasa. Não deveria dizer essas coisas, mostram minha fraqueza. Mesmo? Entregar-se significa fraqueza agora. Sim, sou bem fraquinho, mesmo. Um papelzinho que se molha e se desmancha. Inútil. Não tenho culpa de me apaixonar por um abraço tão envolvente, que me seduz. Culpa? Não gosto de fazer as coisas e sentir culpa. Faço porque quero. Tudo que eu quero, inclusive dizer tudo que quero e parecer tão... fraco. Você pode levar tudo da minha vida. Meu amor, meus abraços, meu sorriso, minha vontade de acordar, minha inspiração para lutar cada dia, minha companhia no sofá, na cama, no café, na bebida. Você pode levar o seu cigarro embora também. Você pode tirar tudo de mim, até as esperanças de reviver um amor e de me ver sorrindo para mim mesmo no espelho. Você tem esse poder, se quiser. No entanto, uma coisa, apenas uma você nunca me privará de reviver: minhas memórias. E elas incluem tudo o que eu sou e tudo o que você me é. Pode levar tudo, dizer que é para meu bem, ou para o seu próprio. Que precisa de um momento egoísta, pensar em si. Eu não ligo. Também penso em mim mesmo, por isso que digo sem medo que tenho essa paixão toda dentro de mim. Declarar-me é também pensar em mim, porque não consigo viver com tanto sentimento me sufocando, preciso dividir esse rolo compressor que me abate com quem estiver por perto, inclusive com você. Esta é uma declaração que talvez você vá saber, porque eu a fiz para você de outro modo. Isso aqui é outra coisa. Isso sou eu falando com meu eu.
segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012
Letargia
Quero chorar. Estranha letargia me comove. Vontade sem vontade da falência múltipla de todas as possibilidades de ser. Um cansaço que ultrapassa os limites do físico, da dor nas costas, do ombro inclinado pra frente, retraído. Um peso da falta de vida, que tanto se tateia e se diz existir. Nada de mais sólido existe que seja verdadeiro. Tudo são aparências, mentiras, contos da esperança de se poder ser feliz, de um desejo de querer ser aquilo que se parece. Todos parecem felizes, e todos querem parecer felizes como os outros parecem. Isso se desmancha no ar, em casa, na cama, no sofá. Ainda que fugindo da realidade vendo a TV no domingo, comungando da bebida no barzinho, ainda assim nada muda. Nem o sorriso falso que cola alegria na fotografia. É sempre o mesmo. Letal.
sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012
A Juventude é agora
Muito se fala em participação popular nos governos, em representação da sociedade civil. Mas será que o muito que se fala é suficiente para que se saiba o que isso significa?
Acompanhamos, no ano de 2011, a chamada pelo Governo Federal da II Conferência Nacional de Juventude, que foi um espaço de debates e onde surgiram propostas de políticas públicas para esse segmento. O processo de conferência começou nos municípios, depois passou pela fase estadual e, por último, as propostas foram levadas a nível federal. A partir daí, vão guiar as ações governamentais a nível nacional.
Durante o processo de conferência municipal, também conseguimos discutir projetos a serem implementados pelo governo local, além de podermos eleger o Conselho Municipal da Juventude, que é formado por membros da sociedade civil e por representantes do Poder Público Municipal. Nesse espaço, os cidadãos temos o poder de participar das discussões e da implementação de projetos e políticas públicas para a juventude que serão desenvolvidos no âmbito municipal, por meio da Secretaria da Juventude. Mas não apenas isso.
O Conselho também lida com questões da Juventude que envolvem promoção da saúde, propostas que contemplem os jovens em vulnerabilidade social, questões relativas a preconceito e discriminação de jovens em suas diversas diferenças sociais, econômicas, sexuais e raciais. Esse trabalho, por ser complexo, exige articulação dos conselheiros, da Secretaria da Juventude e de outros órgãos municipais, estaduais e federais, além do apoio fundamental de outros setores da sociedade civil, ONGs, associações e entidades religiosas que já trabalham com a questão da juventude em diferentes aspectos.
Embora esse Conselho seja o segundo eleito no município de Marília, é o primeiro formalizado e, por isso, o primeiro capaz de se articular com outros setores. Além disso, teremos a oportunidade de propor a criação do Fundo Municipal da Juventude, o que efetivará a importância do trabalho do Conselho na nossa cidade, já que conseguiremos obter recursos legais para a execução de serviços para os jovens pelo próprio Conselho, além de apoiar projetos da Secretaria Municipal da Juventude.
Enquanto o mundo vive uma crise neoliberal, gerada pelo próprio sistema neoliberal, cujo principal ideal é a menor presença possível do Estado na vida das pessoas, vivemos uma situação de fortalecimento do Poder Público Municipal, que começou com a criação da Secretaria Municipal da Juventude e agora chega à discussão do Fundo próprio, após a formalização do Conselho. Na contramão, a Inglaterra, por exemplo, fecha centros comunitários que desenvolvem trabalhos para jovens carentes, deixando-os à mercê da vulnerabilidade e da violência. Enquanto o Velho Mundo diz para os jovens que eles devem “se virar”, nós, no interior do Novo Mundo, mandamos um recado aos governantes de todo o planeta: a jventude não tem que ser vista como o futuro das nações, mas como o presente, e por isso precisa ser valorizada e receber todo o apoio do Poder Público. Dizer que os jovens são o futuro é querer varrer para debaixo do tapete essa questão, é deixar sempre para o próximo governante resolver isso. Não haverá futuro para os jovens que não conseguirem sobreviver ao agora.
Acompanhamos, no ano de 2011, a chamada pelo Governo Federal da II Conferência Nacional de Juventude, que foi um espaço de debates e onde surgiram propostas de políticas públicas para esse segmento. O processo de conferência começou nos municípios, depois passou pela fase estadual e, por último, as propostas foram levadas a nível federal. A partir daí, vão guiar as ações governamentais a nível nacional.
Durante o processo de conferência municipal, também conseguimos discutir projetos a serem implementados pelo governo local, além de podermos eleger o Conselho Municipal da Juventude, que é formado por membros da sociedade civil e por representantes do Poder Público Municipal. Nesse espaço, os cidadãos temos o poder de participar das discussões e da implementação de projetos e políticas públicas para a juventude que serão desenvolvidos no âmbito municipal, por meio da Secretaria da Juventude. Mas não apenas isso.
O Conselho também lida com questões da Juventude que envolvem promoção da saúde, propostas que contemplem os jovens em vulnerabilidade social, questões relativas a preconceito e discriminação de jovens em suas diversas diferenças sociais, econômicas, sexuais e raciais. Esse trabalho, por ser complexo, exige articulação dos conselheiros, da Secretaria da Juventude e de outros órgãos municipais, estaduais e federais, além do apoio fundamental de outros setores da sociedade civil, ONGs, associações e entidades religiosas que já trabalham com a questão da juventude em diferentes aspectos.
Embora esse Conselho seja o segundo eleito no município de Marília, é o primeiro formalizado e, por isso, o primeiro capaz de se articular com outros setores. Além disso, teremos a oportunidade de propor a criação do Fundo Municipal da Juventude, o que efetivará a importância do trabalho do Conselho na nossa cidade, já que conseguiremos obter recursos legais para a execução de serviços para os jovens pelo próprio Conselho, além de apoiar projetos da Secretaria Municipal da Juventude.
Enquanto o mundo vive uma crise neoliberal, gerada pelo próprio sistema neoliberal, cujo principal ideal é a menor presença possível do Estado na vida das pessoas, vivemos uma situação de fortalecimento do Poder Público Municipal, que começou com a criação da Secretaria Municipal da Juventude e agora chega à discussão do Fundo próprio, após a formalização do Conselho. Na contramão, a Inglaterra, por exemplo, fecha centros comunitários que desenvolvem trabalhos para jovens carentes, deixando-os à mercê da vulnerabilidade e da violência. Enquanto o Velho Mundo diz para os jovens que eles devem “se virar”, nós, no interior do Novo Mundo, mandamos um recado aos governantes de todo o planeta: a jventude não tem que ser vista como o futuro das nações, mas como o presente, e por isso precisa ser valorizada e receber todo o apoio do Poder Público. Dizer que os jovens são o futuro é querer varrer para debaixo do tapete essa questão, é deixar sempre para o próximo governante resolver isso. Não haverá futuro para os jovens que não conseguirem sobreviver ao agora.
William César Ramos Lima
Membro do Conselho Municipal da Juventude de Marília-SP
Membro do Conselho Municipal da Juventude de Marília-SP
terça-feira, 24 de janeiro de 2012
Meu paladar fala comigo
Bebi café e senti nojo de mim mesmo. Me lembrei de um beijo mal dado, com gosto de cigarro, de um amor malfadado. Me lembrei da ilusão de um amor salvador, de uma expectativa cheia de amor, de alguém que ia me tirar da dor... Me lembrei que o beijo fora sequestrado, que meu coração fora imprudentemente enganado - talvez por mim mesmo! O café é geralmente reconfortante, me coloca em companhia de pessoas de quem gosto, me traz conversas íntimas, revelações da vida, me faz pôr os pensamentos na mesa, junto com a xícara. No entanto, dessa vez o café não seguiu essa rotina. Me trouxe esse beijo nojento à tona, escrito à tinta em minhas lembranças, sem que eu possa apagá-lo. Um tonto a martelar essas ideias, a repensar nos esquecidos momentos de outrora. Não queria isso agora. Outra hora. Mas meu sentido me denuncia: "gosto do beijo nojento? Se pensa isso, melhor rever o que lhe incomoda!". Agora é assim, meu paladar fala comigo. E dizem que não sou louco.
quinta-feira, 19 de janeiro de 2012
Minitextos sobre a vida
Olhar que atravessa a pupila, que ultrapassa a íris, que vai além da retina. Olhar sem o olho que vê, mas olhar diferente, como sentir sem o toque...
1- Rir de tudo é desespero
Rindo da vida o tempo todo, Mateus não consegue parar e pensar em nada de sério. Não quer. Porque pensar seriamente sobre a vida lhe trará certezas que ele prefere evitar; a verdade sobre si mesmo é demasiadamente deprimente, uma repetição, assim, do vazio, um eco ininteligível. Rindo, ele consegue não ser o que não querem ver. Sofrendo com toda mentira, não se importa com a verdade. Pensa que não. Mas é tudo sobre a verdade. O tal do sentido que se busca na vida é quase uma piada. Daí tantos risos de desespero, de melancolia. Mateus não sabe que o sentido é o que ele mesmo dá para seus atos, mas acredita que deve haver um sentido extraordinário que todos sabem qual é, menos ele. E viver sem o sentido da vida é viver rindo o tempo todo. Uma alegria forçada, uma mentira de verdade. Mateus vive a promessa de saber por que ri, de saber que ri de uma felicidade consciente. Vive numa tristeza clandestina, sob os escombros de um ideal que não entra em sua mente. Não importa nada do que ele faça, continua sem saber o porquê disso tudo, e ter apenas a incerteza como única certeza é não conseguir ser. Uma existência em pó é o que lhe sobra. Um pó que se une, esfumaçando uma tentativa de vida, mas que se desfaz com tão pouco, não restando forma capaz de ser, ou parecer.
2- Um desejo
A mão se aproxima da mesa. Fixo o olhar nos detalhes, nos dedos, nas unhas. Pintas, manchas. Uma cutícula fora do lugar. As dobras dos dedos enrugadas, as unhas irregulares. Ela se aproxima da mesa e eu olho sem parar, sem querer. A mão, que afaga, que seduz, que me chama. Ela se mostra tão macia, carinhosa, caridosa. A mão me convida para o mundo, me puxa para conhecer seu braço, seu ombro. Me liga ao corpo. Aquele corpo sustentado pela mão. Mas não posso fazer nada, preciso de ética, fazer a mão assinar o contrato. Segura o papel, o indicador acompanha a leitura das linhas, volta para reler uma frase. Essa mão devia ler e reler meu corpo. Minha face. Meus cabelos. Puxa meu queixo para cima, provocando um beijo. Puxa meu rosto para perto do seu, segurando meus cabelos com firmeza, a mesma da língua que me beija. Enquanto as línguas se entrelaçam, nossas mãos que estão livres fazem o mesmo. Estamos presos pelo cabelo/mão, língua/língua e mão/mão. Só nos falta enroscar os sexos. Interrompe o meu pensamento: onde eu assino?
3- O alívio da vida
João e sua irmã, Maria, andam juntos pela rua, no caminho de algum lugar. Conversam sem parar, falam de programas de televisão, de cinema, de música. Discutem sobre as melhores bandas, as melhores cenas, os melhores shows. Melhores para um, piores para o outro. Tão próximos e tão diferentes. Irmãos. Começam a se desentender em alguns pontos, irmãos sempre se desentendem, brigam. Andam pela calçada, passam em frente a uma casa, ao lado de um terreno vazio. À noite, um terreno escuro, nem há poste perto para iluminá-lo. Os irmãos seguem a discussão enquanto passam por esse terreno e, num momento só, um motociclista chega perto deles, mantém a moto ligada, aponta uma arma para o irmão e dispara duas vezes: uma em casa lado do peito. O mundo parece assustador, a morte tão próxima, como seria morrer? Um medo do depois consume o irmão, ferido, baleado. Onde está minha irmã? Sumiu. Não há mais ninguém no mundo, apenas o tiro disparado que parece ecoar sem parar pelo terreno vazio, que de tanto eco, enche-se de dor. Um sobressalto só. Os olhos do rapaz abrem-se. Tudo escuro, sob o edredom. Pensa: não posso me mexer, levei dois tiros. Apenas os olhos se movem nesse instante, quando dá conta de que acabou de sonhar. Um alívio. O dia ainda será cheio de vida.
sexta-feira, 30 de dezembro de 2011
As meninas
O que duas moças que se conheceram agora conversam após a sessão de cinema? Aonde elas vão? Como elas se olham? Elas se desejam, ou se repelem... elas se querem, ou se envergonham?
Elas escolheram o cinema pra se conhecer, mas como se conhecer vendo um filme? Sem conversa...
Depois do cinema, o dilema. Aonde ir. Não podem ser vistas em público, porque as pessoas vão falar delas, aquelas cosias “olha aquelas duas”... No entanto, não podem se esconder de si mesmas, essa é a realidade. E o que fazer, então? Sentar na calçada pra conversar, descontrair, descobrir?
As mãos sobre as pernas cruzadas denunciam a vergonha, o mau jeito do que fazer. O olhar pra longe, a vergonha de se encarar. O que dizer nessas horas, não sabem paquerar. O que fazer, não sabem como chegar. São meninas. Adolescentes. Como elas vão agir, como um dia poderão se despir com tanta vergonha? Talvez se se agarrassem ali mesmo, na calçada daquela rua escura atrás da igreja, escondidas do crucifixo, do pecado, da imoralidade.
Atrás da igreja, da casa santa. Um beijo quebra o gelo, tira o silêncio, tira o fôlego, tira a língua pra fora... pra dentro da outra boca. Atrás da igreja tanta coisa se esconde. O padre se agarra com a secretária. Com o coroinha. E agora as meninas se beijam, descobrindo o que se tem por debaixo de tanto enigma do que é um beijo...
Escondidas, descobrem o que mais desejavam naquela noite. Descobrem que viver é mais fácil do que parece e que um beijo não acaba com o mundo.
domingo, 27 de novembro de 2011
Um encontro sexual
-Alô, Marcelo?
-Oi, eu mesmo.
-É a Bia, do barzinho de quinta à noite. Tudo bem?
-Oi, Bia, tudo bem, sim e você?
-Melhor agora (risos). Ma, me diz uma coisa: o que você vai fazer hoje à noite?
-Ah, hoje é sábado e acho que vou sair com uns amigos, não aqueles com quem você me viu na quinta, outra galera. Você quer sair com a gente?
-Hum, bacana. Mas na verdade eu queria sair só com você. A gente nem conversou muito aquela noite, gostaria de te conhecer melhor.
-(risos) Bia, eu fico vermelho assim, sou tímido...
-Ah, é tímido? Não parecia tímido na quinta.
-Mas na quinta eu estava com meus amigos e você não me cantou, né?!
-Nada a ver. Você estava todo conversador, alegre.
-Geralmente sou alegre mesmo, tenho bom humor. É que você dizer assim na lata que quer me conhecer melhor me deixou constrangido, sabe. Ou você acha que as pessoas me dão bola o tempo todo?
-Para de graça, que você é um fofo, todo lindo, deve chover mulher no seu pé, implorando pra ficar com você!
-Quem me dera, Bia... Você teve uma impressão errada de mim, então. Acho que vou te decepcionar!
-Isso nunca. Você é tão carismático, tão simpático, inteligente. Quem consegue se decepcionar com um homem assim? !
-Você está pensando que sou O cara rárárárárá. Sou nada.
-Você namora?
-Não, não. Se namorasse, estaria com ela na quinta, né?!
-Ah, não acho. Por que não poderia sair pra beber com seus amigos um dia sem a namorada? Não acho que o namoro deva ser uma prisão...
-Ah, é que é estranho esse lance de sair sem a companheira, né. Se fosse pra sair sozinho, era mais fácil nem namorar!
-Ah, deixa pra lá. Você não namora, então nem vamos discutir isso. (risos)
-É verdade...
A ligação foi interrompida. Bia se desesperou ao perceber que não tinha mais saldo de créditos. Agora Marcelo pensaria que ela desligara apenas porque eles divergiram em uma opinião, que era mal educada. Bobagem ela pensar que ele pensaria isso. Ia esperar e ver se ele retornaria a ligação.
Enquanto isso, Marcelo vivia sua dúvida de tímido: ligar de volta ou não ligar? Esperar ou tomar alguma iniciativa? Para os tímidos, essa parte é sempre difícil, porque em caso de negativa da outra parte, a frustração se amplia em cem vezes. Um verdadeiro pesadelo. Surpreendendo a si mesmo, tomou coragem e discou o número de Bia.
-Bia, sou eu.
-Oi, me desculpe! Que vergonha... meus créditos acabaram.
-Eu imaginei, por isso estou ligando de volta.
-Ai que bom. Fiquei apreensiva que você pensasse que desliguei na sua cara!
-Imagina, você não faria isso, é tão educada.
-(risos) Obrigada. Vamos retomar nossa conversa?
-Ah, não quero discutir minhas preferências do que acho certo ou errado num namoro agora, pra gente não se desentender...
-Não quero mesmo falar disso agora. Quero continuar o assunto do nosso encontro. Eu te chamei pra sairmos só nós dois e a gente estendeu a conversa e você não me deu sua resposta.
-Hum, o convite... Fico meio sem jeito, mas vamos lá: não sei se estou preparado para um relacionamento, é que...
-Marcelo, você é lindo, é um fofo, mas eu não estou falando de um relacionamento duradouro.
-Como assim? O que você quer?
-Eu quero um encontro sexual!
-Eu... Eu... Estou todo vermelho agora, você faz ideia? É que...
-Marcelo, eu imagino, mas vamos superar isso. Você não quer maiores envolvimentos, nem eu. Você é tímido, todo vergonhoso, mas tenho certeza de que gosta de ter bons momentos na cama com uma mulher.
-Ah, isso é claro! Sou tímido mas estou vivo, né?! (risos)
-Bom saber. Então, vem em casa hoje à noite e a gente conversa mais pessoalmente e se diverte. O que acha?
-Ok. Vou, sim.
Combinado o horário e aprendido o caminho (da felicidade daquele sábado à noite), agora Marcelo se torturava, imaginando o que esperar daquilo, de um encontro sexual rápido. Raras situações assim vivera até então, porque a timidez o impedia de ser mais safado. No entanto, sua mente fervilhava de ideias e desejos. Reprimidos, ou esperando a realização. Alguém poderia adivinhar seus pensamentos, quem sabe a Bia?
Uma hora antes do marcado, Marcelo foi para o banho, lavou os cabelos, fez a barba, escovou os dentes como se fosse ao dentista: tudo devia estar perfeito, sem mau hálito, sem barba mal feita, todo perfumado.
Bia, mais calma que Marcelo, mas nem por isso menos cuidadosa com sua beleza. Afinal, se era um encontro sexual apenas, tinha que ser o mais perfeito possível, inesquecível. Um banho pra lavar a cara de pau de quem convidou o moço para um encontro sexual. Curto. Encontro sexual curto. Breve. Poderiam voltar a se ver depois, e certamente o fariam, mas aquele seria rápido, sem envolvimentos maiores do que os esperados para uma gozada.
-Oi.
-Oi, Marcelo. Entra.
-Com licença.
-Pode entrar. Sente aqui.
-Valeu.
-E aí, está tímido ainda?
-Um pouco vergonhoso só. Você está meio quieta também, e isso me deixa tenso.
-Rárárárárá. Relaxa. É que não costumo fazer esses convites para encontros assim, então fiquei um pouco sem jeito, mas já passa.
-(risos) Você hem...
Neste momento, a Bia foi rapidamente em direção ao Marcelo, que estava sentado ao seu lado no sofá, e deu-lhe um beijão, que foi correspondido de imediato pelo rapaz tímido que acabara de perder a vergonha naquele exato momento, e que tinha em mente que aquela noite viveria maravilhas com uma mulher tão sedutora quanto bonita.
Beijavam-se como nunca, como se aprendessem naquele momento o que é beijar e por isso devessem treinar bastante. Tocavam-se na face, nos cabelos, abraçavam-se com desespero de quem morreria na manhã seguinte, ou, de repente, no meio daquela madrugada.
Da safadeza do encontro sexual curto nada restou, a não ser a expectativa de ainda tirarem a roupa. As carícias ficaram firmes, incontroláveis e esperadas a cada beijo, a cada abrir de olhos com encontro de sorrisos. As mãos se entrelaçavam como se pedissem o corpo todo do outro par. As mão que conduziam a noite, seguravam o rosto para o beijo, apertavam a perna, a cintura, deslizava pelas partes de baixo, de cima. As mãos seguravam o cabelo, só faltava falarem.
-Isso porque era pra ser um encontro sexual rápido.
-Um encontro duradouro, é que virou. Pelo menos hoje não podemos reclamar que nos faltou carinho.
-Encontrei o que precisava.
-Encontrou o que merecia.
Um a menos
Olhava com raiva, como se quisesse dar o bote. Envenenar o mundo acabaria de vez com a frustração de ver tudo se transformando enquanto a sua vida apenas continuava. O mundo precisava morrer, essa era da solução. Tudo virar pó. Nada sobrar desse destempero irritante. Esse excesso de vida, esses risos abusados que denunciam tanta felicidade alheia. Uma questão de justiça: se todos somos iguais perante a lei, por que a infelicidade deveria morar apenas nele?
Não havendo mais dúvida de que o fim era na verdade o início da justiça, passou a preparar-se para o juízo final. Claro que jamais acabaria condenado pela morte de tanta gente, porque usaria o argumento de legítima defesa. Defesa contra a felicidade alheia. Não se podia viver com tanta felicidade assim e ficar impune! Chegava a ser um pecado esse egoísmo todo dos felizes: guardavam para si as alegrias todas enquanto ele sofria as indelicadezas da amargura, os espinhos dessa flor murcha que diziam chamar-se vida.
Como colher flores de um jardim em que só brota coisa ruim? Esse jardim mais exercia o papel sujo da visão do inferno, já que a Terra era cinzas, e a água que o regaria não valia nem como detrito de esgoto. Bons resultados não se podia colher num inferno desse.
Com a certeza que os outros tinham de que suas vidas valiam tanto a pena, ele quis transformar esse valor todo em um fato marcante: um sacrifício geral em apoio à sua mediocridade de vida. Não se tratava de uma vingancinha de adolescente, era como se o mundo lhe devesse desculpas, como se a torneira de esgoto precisasse ser aberta para limpar a caixa d’água. Providenciaria a limpeza do mundo, pelo menos onde pudesse fazê-lo. Assim, todos morreriam, um a um, até que apenas ele restasse, aos prantos, e sem nunca mais poder compartilhar um sorriso.
Assinar:
Postagens (Atom)