segunda-feira, 23 de maio de 2011

Até estudos médicos sucumbem ao sensacionalismo

O resultado disso são as manchetes do tipo: 'estudos dizem que tal doença é causada por tal motivo'. Ou: 'estudos revelam que comer tal alimento diminui chance de tal doença'. Ou ainda: 'Pesquisador descobre gene causador de tal doença'. Não estou colocando em xeque todos os estudos, mas temos que ter consciência de quem os cientistas não são deuses que tudo sabem ou tudo descobrem. Às vezes, eles também querem apenas vender para manter seu status alto e seu ego cheio... (WiLL)


por Heloisa Villela, em Washington

A nossa boa e velha mídia, pelo visto, não está sozinha em matéria de distorções e exageros. Acabo de receber um artigo publicado no PLoS ONE, um site interativo para a divulgação da revisão de estudos científicos. O título do artigo é prá lá de sugestivo: “A deturpação de dados da Neurociência pode provocar conclusões enganosas na mídia: O caso do Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade”.
Pois bem, três cientistas da Universidade de Bordeaux, na França, decidiram analisar pesquisas científicas, todas publicadas em inglês, sobre a TDAH. Compararam o sumário com as conclusões e os dados da pesquisa. Também analisaram como a imprensa repercute as descobertas anunciadas e como a mídia científica publica e repete os resultados das mesmas pesquisas.
No caso da TDAH, foco exclusivo do estudo, eles constataram que existe uma distorção frequente da literatura científica que pode estar contribuindo para o surgimento de conclusões equivocadas na imprensa. E essas distorções estão reforçando a teoria, ou fortalecendo a visão de que a TDAH é “essencialmente causada por fatores biológicos”. O que, nas pesquisas científicas, nunca foi comprovado. Um dado que também provoca um determinado tipo de tratamento: a medicalização com estimulantes.
Em 360 artigos científicos analisados, Francois Gonon, Erwan Bezard e Thomas Boraud  encontraram dois com grande discrepância entre o conteúdo do estudo e as conclusões apresentadas. Mas ao contrário dos outros, que não tinham inconsistências, esses dois repercutiram muito na imprensa.
O primeiro, da dra. Nora Volkow, afirma ter encontrado provas de que o cérebro de adultos TDAH tem menos neurotransmissores, o que seria a causa da dificuldade de se concentrar, etc. Mas, nos resultados, a dra. Volkow diz que os dados também permitem uma interpretação oposta à que ela apresentou. Ou seja, é uma teoria que ainda não foi comprovada.
Esse detalhe, apesar de fundamental e de colocar em dúvida a tese da descoberta da origem genética do transtorno, é mencionado em apenas dois de 170 artigos publicados sobre a pesquisa, entre 1996 e 2009.
A dra. Volkow também analisou a genética dos TDAH e descobriu uma presença maior, entre eles, de uma determinada variedade do gene DRD4. Mas ressalta que é uma incidência pequena e, por isso, o risco desta variedade genética ser a causa da doença é muito pequeno. Mas essas ressalvas quase nunca são levadas em consideração, como mostra a manchete do Wall Street Journal, sobre a pesquisa da dra. Wolkow, em 7 de agosto de 2007: “Química do cérebro tem papel chave na TDAH, diz estudo”.
Até aí, tudo poderia não passar de déficit de atenção da grande imprensa,  o que não seria grande novidade. Mas o incrível é que, segundo os autores, a literatura científica não fica atrás. Entre a publicação do tal estudo e fevereiro de 2010, 30 artigos científicos citaram a pesquisa e destes, 20 repetiram a conclusão básica sem apontar as inconsistências da pesquisa.
Outro artigo analisado é o do dr. William Barbaresi, que defende o tratamento com estimulantes (vide Ritalina) para melhorar o rendimento escolar das crianças TDAH. Mas vários cientistas dizem que o argumento é fraco porque o remédio funciona, ou seja, provoca melhora no desempenho escolar de qualquer criança. TDAH ou não.
Os autores do trabalho destacam que essas deturpações e exageros têm consequências sociais e de saúde pública porque reforçam uma ou outra maneira de olhar e tratar TDAH. Se a teoria de que o transtorno é basicamente biológico se firma, então  o tratamento será basicamente a base de remédios. E é o que está acontecendo nos Estados Unidos: a sobrevalorização do tratamento médico sem levar em conta a necessidade de intervenção psicossocial.
Mas os cientistas franceses não concentram as críticas no trabalho da imprensa e sim nos colegas. Destacam que muitos exageram os resultados das pesquisas porque acham que assim terão mais chances de publicar o trabalho. E extrapolam o resultado sugerindo possíveis processos terapêuticos. Ou seja, pulam logo para as possibilidades de tratamento porque isso enche os olhos do público e de quem seleciona artigos para publicação. “A competição entre autores, para publicar em jornais de renome, e entre editores distorce a publicação de pesquisas biomédicas em favor do sensacionalismo”.

O texto do trabalho está aqui:
http://www.plosone.org/article/info%3Adoi%2F10.1371%2Fjournal.pone.0014618

Vi o mundo

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