sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Mentiras e segredos


Resolvido o problema maior em sua vida naquele mês, um novo lar, agora poderia retomar suas necessidades além da moradia: ler, filosofar, namorar, por que não? Depois de um tempo sem ter casa, luz para ler ou mesmo ar para respirar um novo amor, era hora de reviver.

O último mês havia passado lentamente, o relógio se mostrava andando para trás. Perder o reconhecimento da família era pesado demais, uma dor pior que a morte até, embora às vezes pensasse ser a morte a solução para tanto sofrimento. No entanto, como não sabia o que esperar com a morte, preferiu viver, mesmo com dor. Não sucumbiu desta vez, pensava ao se lembrar de que nunca mais seria a mesma pessoa para sua família. Afinal, quando segredos vêm à tona, há três situações possíveis: fingir que nada se soube, acolher as consequências ou matar a pessoa da sua vida. Infelizmente, ele provou a última possibilidade: morreu ainda em vida para seus pais e amigos - aquilo que para ele traduzia o conceito de família.

Mesmo com inúmeras fontes de informação, nada se mostrava suficiente para acabar com o moralismo, com o patriarcalismo, com o machismo e com tantos mais achismos que nos perseguiam. Refletia, agora com um novo lar, sobre essas questões. Definira o moralismo como o comportamento alinhado a um padrão heteronormativo, de aparências, em que ser "comportado" era o valor máximo - ainda que não se soubesse exatamente o que significasse "comportar-se bem". Filosofou que seria essa a crise existente entre o ser e o parecer. Porque, pensava ele, parecer e não ser era algo falso, uma mentira, um reflexo que não correspondia à sua real imagem. Como, então, depois de séculos, milênios de desenvolvimento humano, as pessoas ainda conseguiam viver como se devessem prestar contas de sua vida aos outros? Por que a minha intimidade ainda deveria merecer atenção alheia? Quem sabe os milênios ainda não tenham feito muito na vida das sociedades... Não o muito necessário para viver a intimidade com naturalidade. Ser parte da natureza sem poder viver naturalmente, contraditoriamente...

Viver sobre mentiras tinha se tornado sua especialidade ao longo dos anos e, mesmo sabendo que havia uma chance de sua base desmoronar, seguia lutando um dia por vez. Uma forma de não enlouquecer ao tentar se esconder. Durante muito tempo conseguiu. A única memória totalmente feliz que tinha de si resumia-se a um momento: o banho. Ao entrar no banheiro, despir-se e tomar banho, via-se nu, em todos os sentidos possíveis para alguém que se escondia. Não se camuflava de si, ainda mais sob a água, num momento tão íntimo, em que se tocava, se via, se sentia. Tomar banho convertera-se, com o tempo, na hora mais prazerosa de sua vida, menos pelo fato de se lavar do que pela experiência de se ver sem mentiras, embora sentir a água deslizando por seu corpo lhe garantisse um pouco de dignidade ao se lavar e se livrar da aparência que deveria encarnar. A nudez se mostrava reveladora, por mais óbvio que pensar isso fosse, e lhe era libertador em um sentido maior do que para as outras pessoas. 

O ponto em que se encontrava não era o de partida, porque já dera início na jornada só, nem o de chegada, porque ainda não terminara a vida. Encontrava-se no percurso das concretizações, nas ideias que seriam sua realidade a partir daquela nova direção. Caminhava numa solidão que, embora parecesse triste, era a possível naquele inverno, mas era também a necessária para vencer o sofrimento da exclusão do amor - aquele que se convertera em desprezo por quem sempre dava a proteção - pela sua família. Tornara-se ex-familiar, sem o direito de pai nem mãe, mas ainda restava algum amor próprio suficiente para não se converter num ex-ser humano; afinal, os selvagens que o criaram agora o abandonaram, com o discurso torto de que se tornara uma criatura diferente. A mudança, pensava, inexorável e universal, era comum a todos: fisicamente, ao envelhecermos; intelectualmente, ao vivenciarmos o dia a dia. Concluíra que realmente era uma pessoa diferente, porque aprendia a todo tempo com o viver no sofrimento da diferença, enquanto seus ex-familiares eram eles mesmos a estátua da moral, da hipocrisia e do alijamento do ser humano daquilo que significava de fato "ser humano"...

Outra questão que parafusava sua cabeça era o segredo. Guardara tanto tempo sua intimidade, como se sua revelação desmoronasse o mundo todo para dentro de um grande buraco. Não exatamente, mas, literalmente, seu mundo caíra. O ser e o parecer de novo. O segredo de sua vida transformara-se em chumbo. Para sobreviver acreditava, até então, que deveria parecer e não ser. Blindar sua imagem  verdadeira com uma outra falsa - escondendo-se sob essa aparência para não mostrar quem atuava debaixo da máscara do personagem que encenava - tinha sido uma alternativa que o permitira sobreviver por muito tempo. No entanto, assim como a falsidade, o jogo que se apresentava com o simulacro do segredo não lhe agradava. Depois do desmoronamento do mundo, chegara a hora de descaracterizar essas máscaras sociais e viver segundo sua natureza. A implosão recente de sua base familiar - se bem que uma estrutura fraca como aquela não implodiria, apenas teria revelado seu real estado - significava um renascimento, uma fuga do mundo medieval.

Cansando-se de terras movediças e traiçoeiras, reforçara suas ideias para si em busca da vida autônoma - aquela que lhe fora negada pelo seu próprio medo de viver a plenitude de sua humanidade. Passaria a ser uma pessoa empreendedora de sua própria felicidade, sem intermediários, porque concluíra que aqueles que se apresentaram como indutores da felicidade eram na verdade corretores de mentiras que buscavam seu lucro às custas alheias, ganhavam comissão pela infelicidade estruturada e que era desestruturante da plenitude e da liberdade que viver requer. Resolveu que não nomearia mais procuradores para seus problemas, nem mais compartilharia suas angústias com carniceiros e urubus interessados na morte do brilho de seus olhos. Recomeçar com cautela. Iniciava o reviver, o respirar de novos ares. Agora pensava que sua vida deveria seguir lentamente, não como tortura para reforçar o sofrimento e a tristeza, mas como oportunidade de viver o que nunca conseguira ser até então.

William César Ramos Lima

(Conto selecionado na fase municipal do Mapa Cultural Paulista 2013/2014, indo para a fase regional)

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Páginas