quarta-feira, 25 de maio de 2011

O gato que gostava de cenouras

Coisas que nem a religião nem a educação podem modificar
 
Rubem Alves

O telefone tocou. Queriam uma entrevista sobre o livro O gato que gostava de cenouras. Não entendi o nome da revista, estou ficando meio surdo. Por vergonha, não pedi que repetissem. A entrevista  começou...
Gato gosta de peixe, de rato, de passarinho. Não gosta de cenoura. Numa terra de gatos, um gato que gostasse de cenoura seria uma aberração, vergonha para os pais, motivo de chacota e zombaria na escola...
O nome dele era Gulliver. Gullinho. Seus pais não sabiam do seu gosto por cenouras. Comê-las era um ato secreto. Seus pais só se preocupavam com o fato de que ele não comia os deliciosos ratinhos recém-nascidos, os pardais saborosos, os peixes cheirosos que lhe traziam. Gullinho era diferente. E isso fazia seus pais sofrerem, porque o que os pais mais desejam é que seus filhos sejam iguais aos outros.
O fato era que os pais de Gullinho ignoravam que ele, escondido, comia a comida proibida. A mãe acabou por desconfiar das incursões secretas do Gullinho e disse ao pai que seria melhor segui-lo para ver onde ele estava se metendo. Foi o que o pai "sogateiramente" fez. Gullinho caminhava com cuidado olhando para todos os lados para ver se estava sendo seguido. Andou até chegar ao sítio do senhor Joaquim. Havia canteiros com todos os tipos de hortaliça. Foi até o canteiro de cenouras e - oh! Coisa horrenda para um pai gato - começou a comer cenouras.O pai quase morreu de susto. O filho, que ele sonhara tigre, não passava de coelho. E chorou amargamente...
Foi procurar auxílio. Um padre  ameaçou Gullinho com o Inferno. "Deus é gato, Deus ordenou que comêssemos peixes, ratos e passarinhos. Comer cenoura é pecado mortal!" Não adiantou. Gullinho continuou a vomitar peixes, ratos e passarinhos...
Levaram-no ao psicanalista. A análise durou vários anos. Mas o que o Doutor Gatan lhe dizia com linguagem complicada não alterava o seu gosto: continuava a gostar de cenouras...
Foi então que um professor da escola entendeu o drama de Gulinho. Chamou-o para uma conversa: "Nosso destino está escrito nas células do nosso corpo num "chip" pequeno chamado DNA. Esse "chip" já está no feto. Determina a cor do seu pelo, dos seus olhos, se você vai ser menino ou menina, daltônico ou não, canhoto ou destro. Você nada pode fazer para  mudar as ordens que estão no seu "chip". E acontece o mesmo com o nosso gosto por ratos ou por cenouras...Não é pecado como o padre disse porque foi o DNA que o fez assim... Não é resultado de educação e nem pode ser curado, como se fosse uma doença, porque é o DNA que o fez assim... Igual ao daltonismo.

Gullinho olhou em silêncio para o professor e pela primeira vez entendeu tudo. Sentiu que um enorme peso fora tirado de cima dele. Entendeu então que ele podia gostar de cenoura porque fora o DNA que o fizera assim -  e ninguém tinha nada com isso.

Ainda estava na cama quando minha filha me acordou.
"Pai, você apareceu na "G-Magazine, a reportagem do gato..."
Tive de  reconhecer a minha ignorância literária.

"Mas o que é 'G-Magazine?", perguntei.  Ela me disse. Entendi então o assunto da entrevista...

Rubem Alves Educador e escritor rubem_alves@uol.com.br

Revista Educação

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Até estudos médicos sucumbem ao sensacionalismo

O resultado disso são as manchetes do tipo: 'estudos dizem que tal doença é causada por tal motivo'. Ou: 'estudos revelam que comer tal alimento diminui chance de tal doença'. Ou ainda: 'Pesquisador descobre gene causador de tal doença'. Não estou colocando em xeque todos os estudos, mas temos que ter consciência de quem os cientistas não são deuses que tudo sabem ou tudo descobrem. Às vezes, eles também querem apenas vender para manter seu status alto e seu ego cheio... (WiLL)


por Heloisa Villela, em Washington

A nossa boa e velha mídia, pelo visto, não está sozinha em matéria de distorções e exageros. Acabo de receber um artigo publicado no PLoS ONE, um site interativo para a divulgação da revisão de estudos científicos. O título do artigo é prá lá de sugestivo: “A deturpação de dados da Neurociência pode provocar conclusões enganosas na mídia: O caso do Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade”.
Pois bem, três cientistas da Universidade de Bordeaux, na França, decidiram analisar pesquisas científicas, todas publicadas em inglês, sobre a TDAH. Compararam o sumário com as conclusões e os dados da pesquisa. Também analisaram como a imprensa repercute as descobertas anunciadas e como a mídia científica publica e repete os resultados das mesmas pesquisas.
No caso da TDAH, foco exclusivo do estudo, eles constataram que existe uma distorção frequente da literatura científica que pode estar contribuindo para o surgimento de conclusões equivocadas na imprensa. E essas distorções estão reforçando a teoria, ou fortalecendo a visão de que a TDAH é “essencialmente causada por fatores biológicos”. O que, nas pesquisas científicas, nunca foi comprovado. Um dado que também provoca um determinado tipo de tratamento: a medicalização com estimulantes.
Em 360 artigos científicos analisados, Francois Gonon, Erwan Bezard e Thomas Boraud  encontraram dois com grande discrepância entre o conteúdo do estudo e as conclusões apresentadas. Mas ao contrário dos outros, que não tinham inconsistências, esses dois repercutiram muito na imprensa.
O primeiro, da dra. Nora Volkow, afirma ter encontrado provas de que o cérebro de adultos TDAH tem menos neurotransmissores, o que seria a causa da dificuldade de se concentrar, etc. Mas, nos resultados, a dra. Volkow diz que os dados também permitem uma interpretação oposta à que ela apresentou. Ou seja, é uma teoria que ainda não foi comprovada.
Esse detalhe, apesar de fundamental e de colocar em dúvida a tese da descoberta da origem genética do transtorno, é mencionado em apenas dois de 170 artigos publicados sobre a pesquisa, entre 1996 e 2009.
A dra. Volkow também analisou a genética dos TDAH e descobriu uma presença maior, entre eles, de uma determinada variedade do gene DRD4. Mas ressalta que é uma incidência pequena e, por isso, o risco desta variedade genética ser a causa da doença é muito pequeno. Mas essas ressalvas quase nunca são levadas em consideração, como mostra a manchete do Wall Street Journal, sobre a pesquisa da dra. Wolkow, em 7 de agosto de 2007: “Química do cérebro tem papel chave na TDAH, diz estudo”.
Até aí, tudo poderia não passar de déficit de atenção da grande imprensa,  o que não seria grande novidade. Mas o incrível é que, segundo os autores, a literatura científica não fica atrás. Entre a publicação do tal estudo e fevereiro de 2010, 30 artigos científicos citaram a pesquisa e destes, 20 repetiram a conclusão básica sem apontar as inconsistências da pesquisa.
Outro artigo analisado é o do dr. William Barbaresi, que defende o tratamento com estimulantes (vide Ritalina) para melhorar o rendimento escolar das crianças TDAH. Mas vários cientistas dizem que o argumento é fraco porque o remédio funciona, ou seja, provoca melhora no desempenho escolar de qualquer criança. TDAH ou não.
Os autores do trabalho destacam que essas deturpações e exageros têm consequências sociais e de saúde pública porque reforçam uma ou outra maneira de olhar e tratar TDAH. Se a teoria de que o transtorno é basicamente biológico se firma, então  o tratamento será basicamente a base de remédios. E é o que está acontecendo nos Estados Unidos: a sobrevalorização do tratamento médico sem levar em conta a necessidade de intervenção psicossocial.
Mas os cientistas franceses não concentram as críticas no trabalho da imprensa e sim nos colegas. Destacam que muitos exageram os resultados das pesquisas porque acham que assim terão mais chances de publicar o trabalho. E extrapolam o resultado sugerindo possíveis processos terapêuticos. Ou seja, pulam logo para as possibilidades de tratamento porque isso enche os olhos do público e de quem seleciona artigos para publicação. “A competição entre autores, para publicar em jornais de renome, e entre editores distorce a publicação de pesquisas biomédicas em favor do sensacionalismo”.

O texto do trabalho está aqui:
http://www.plosone.org/article/info%3Adoi%2F10.1371%2Fjournal.pone.0014618

Vi o mundo

Entulho Humano

O Bicho

(Manuel Bandeira)
Vi ontem um bicho
Na imundície do pátio
Catando comida entre os detritos.
Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.

O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.

O bicho, meu Deus, era um homem.



Do Antônio Mello: Entulho Humano

A foto acima foi tirada em Ipanema/RJ dia 23/04/2011 e divulgada pelo Twitter do @blogdomello e no Blog do Mello

O pastor herege

Gerson Freitas Jr.26 de abril de 2011 às 8:48h Deus nos livre de um Brasil evangélico.” Quem afirma é um pastor, o cearense Ricardo Gondim. Segundo ele, o movimento neopentecostal se expande com um projeto de poder e imposição de valores, mas em seu crescimento estão as raízes da própria decadência. Os evangélicos, diz Gondim, absorvem cada vez mais elementos do perfil religioso típico dos brasileiros, embora tendam a recrudescer em questões como o aborto e os direitos homossexuais. Aos 57 anos, pastor há 34, Gondim é líder da Igreja Betesda e mestre em teologia pela Universidade Metodista. E tornou-se um dos mais populares críticos do mainstream evangélico, o que o transformou em alvo. “Sou o herege da vez”,  diz na entrevista a seguir.

CartaCapital: Os evangélicos tiveram papel importante nas últimas eleições. O Brasil está se tornando um país mais influenciável pelo discurso desse movimento?
Ricardo Gondim: Sim, mesmo porque, é notório o crescimento do número de evangélicos. Mas é importante fazer uma ponderação qualitativa. Quanto mais cresce, mais o movimento evangélico também se deixa influenciar. O rigor doutrinário e os valores típicos dos pequenos grupos se dispersam, e os evangélicos ficam mais próximos do perfil religioso típico do brasileiro.
CC: Como o senhor define esse perfil?
RG: Extremamente eclético e ecumênico. Pela primeira vez, temos evangélicos que pertencem também a comunidades católicas ou espíritas. Já se fala em um “evangelicalismo popular”, nos moldes do catolicismo popular, e em evangélicos não praticantes, o que não existia até pouco tempo atrás. O movimento cresce, mas perde força. E por isso tem de eleger alguns temas que lhe assegurem uma identidade. Nos Estados Unidos, a igreja se apega a três assuntos: aborto, homossexualidade e a influência islâmica no mundo. No Brasil, não é diferente. Existe um conservadorismo extremo nessas áreas, mas um relaxamento em outras. Há aberrações éticas enormes.
CC: O senhor escreveu um artigo intitulado “Deus nos Livre de um Brasil Evangélico”. Por que um pastor evangélico afirma isso?
RG: Porque esse projeto impõe não só a espiritualidade, mas toda a cultura, estética e cosmovisão do mundo evangélico, o que não é de nenhum modo desejável. Seria a talebanização do Brasil. Precisamos da diversidade cultural e religiosa. O movimento evangélico se expande com a proposta de ser a maioria, para poder cada vez mais definir o rumo das eleições e, quem sabe, escolher o presidente da República. Isso fica muito claro no projeto da Igreja Universal. O objetivo de ter o pastor no Congresso, nas instâncias de poder, é o de facilitar a expansão da igreja. E, nesse sentido, o movimento é maquiavélico. Se é para salvar o Brasil da perdição, os fins justificam os meios.
CC: O movimento americano é a grande inspiração para os evangélicos no Brasil?
RG: O movimento brasileiro é filho direto do fundamentalismo norte-americano. Os Estados Unidos exportam seu american way oflife de várias maneiras, e a igreja evangélica é uma das principais. As lideranças daqui leem basicamente os autores norte-americanos e neles buscam toda a sua espiritualidade, teologia e normatização comportamental. A igreja americana é pragmática, gerencial, o que é muito próprio daquela cultura. Funciona como uma agência prestadora de serviços religiosos, de cura, libertação, prosperidade financeira. Em um país como o Brasil, onde quase todos nascem católicos, a igreja evangélica precisa ser extremamente ágil, pragmática e oferecer resultados para se impor. É uma lógica individualista e antiética. Um ensino muito comum nas igrejas é a de que Deus abre portas de emprego para os fiéis. Eu ensino minha comunidade a se desvincular dessa linguagem. Nós nos revoltamos quando ouvimos que algum político abriu uma porta para o apadrinhado. Por que seria diferente com Deus?
CC: O senhor afirma que a igreja evangélica brasileira está em decadência, mas o movimento continua a crescer.
RG: Uma igreja que, para se sustentar, precisa de campanhas cada vez mais mirabolantes, um discurso cada vez mais histriônico e promessas cada vez mais absurdas está em decadência. Se para ter a sua adesão eu preciso apelar a valores cada vez mais primitivos e sensoriais e produzir o medo do mundo mágico, transcendental, então a minha mensagem está fragilizada.
CC: Pode-se dizer o mesmo do movimento norte-americano?
RG: Muitos dizem que sim, apesar dos números. Há um entusiasmo crescente dos mesmos, mas uma rejeição cada vez maior dos que estão de fora. Hoje, nos Estados Unidos, uma pessoa que não tenha sido criada no meio e que tenha um mínimo de senso crítico nunca vai se aproximar dessa igreja, associada ao Bush, à intolerância em todos os sentidos, ao Tea Party, à guerra.
CC: O senhor é a favor da união civil entre homossexuais?
RG: Sou a favor. O Brasil é um país laico. Minhas convicções de fé não podem influenciar, tampouco atropelar o direito de outros. Temos de respeitar as necessidades e aspirações que surgem a partir de outra realidade social. A comunidade gay aspira por relacionamentos juridicamente estáveis. A nação tem de considerar essa demanda. E a igreja deve entender que nem todas as relações homossensuais são promíscuas. Tenho minhas posições contra a promiscuidade, que considero ruim para as relações humanas, mas isso não tem uma relação estreita com a homossexualidade ou heterossexualidade.
CC: O senhor enfrenta muita oposição de seus pares?
RG:  Muita! Fui eleito o herege da vez. Entre outras coisas, porque advogo a tese de que a teologia de um Deus títere, controlador da história, não cabe mais. Pode ter cabido na era medieval, mas não hoje. O Deus em que creio não controla, mas ama. É incompatível a existência de um Deus controlador com a liberdade humana. Se Deus é bom e onipotente, e coisas ruins acontecem, então há algo errado com esse pressuposto. Minha resposta é que Deus não está no controle. A favela, o córrego poluído, a tragédia, a guerra, não têm nada a ver com Deus. Concordo muito com Simone Weil, uma judia convertida ao catolicismo durante a Segunda Guerra Mundial, quando diz que o mundo só é possível pela ausência de Deus. Vivemos como se Deus não existisse, porque só assim nos tornamos cidadãos responsáveis, nos humanizamos, lutamos pela vida, pelo bem. A visão de Deus como um pai todo-poderoso, que vai me proteger, poupar, socorrer e abrir portas é infantilizadora da vida.
CC: Mas os movimentos cristãos foram sempre na direção oposta.
RG: Não necessariamente. Para alguns autores, a decadência do protestantismo na Europa não é, verdadeiramente, uma decadência, mas o cumprimento de seus objetivos: igrejas vazias e cidadãos cada vez mais cidadãos, mais preocupados com a questão dos direitos humanos, do bom trato da vida e do meio ambiente.

Carta Capital

Bin Laden e a última aventura do Super Homem


Para entender por que agora, justamente agora, nesta data entre todas as outras possíveis, decidiu-se realizar o “justiçamento” de Bin Laden, talvez seja necessário vincular sua morte repentina e desejada com dois acontecimentos aparentemente desconectados que surgiram na semana passada: o anúncio do Super Homem (na sua história n° 900) de que pensava ir às Nações Unidas para renunciar à cidadania norteamericana, e a divulgação pelo presidente Barack Obama da certidão de nascimento que comprova sua nacionalidade estadunidense. Terá sido uma suprema coincidência? O artigo é de Ariel Dorfman.

Ariel Dorfman - Página/12

Pode ser uma suprema coincidência? Ou por acaso tem gato – ou super herói – nesta tuba?

Para entender por que agora, justamente agora, nesta data entre todas as outras possíveis, decidiu-se realizar o “justiçamento” de Bin Laden, talvez seja necessário vincular sua morte repentina e desejada com dois acontecimentos aparentemente desconectados que surgiram na semana passada.

O primeiro, que causou entre os fanáticos da guerra entre o bem e o mal quase tanta consternação como o assassinato do funesto e lúgubre chefe da Al Qaeda, ainda que menos júbilo, foi o anúncio do Super Homem (na história n° 900 do aniversário que celebra suas peripécias) de que pensava ir às Nações Unidas para renunciar à cidadania norteamericana. O Homem de Aço que, desde sua primeira aparição inaugural na revista Action, em junho de 1938, veste-se com as cores da bandeira estadunidense e age em nome dos valores norteamericanos, chegou a essa decisão tão drástica depois de sofrer críticas do encarregado de segurança do governo estadunidense (um homem negro parecido com Colin Powell) por ter voado até Teerã para demonstrar, durante 24 horas, sua solidariedade com os manifestantes da Revolução Verde que protestavam contra o despotismo de Ahmadinejad e seus partidários.

O governo do Irã (na história em quadrinhos, é claro, já que duvido que os aiatolás reais se dediquem a ler dissimuladamente as aventuras de Superman) denunciou esse ato – por silencioso que fosse e motivado pela não violência – como uma ingerência do Grande Satã em seus assuntos internos, quase como uma declaração de guerra. Os autocratas do Irã me desagradam muito, mas não se objetar sua lógica de aceitar as palavras do próprio Homem de Aço que encarna há décadas o conjunto “truth, justice and the American way” (verdade, justiça e o modo americano de vida). De modo que o Super Homem, para poder agir daqui em diante para além das fronteiras nacionais e os interesses circunstanciais de qualquer Estado, se viu obrigado a estabelecer sua independência frente a seu país adotivo. Porque, de fato, o Super Homem não nasceu nos Estados Unidos, mas sim no planeta Krypton, chegando bebê (sem passar por aduanas nem imigração) ao Kansas em uma pequena nave espacial, sendo acolhido neste território, no centro dos EUA, pelos Kent, fazendeiros que personificam personificam precisamente o “american way”. Era Ka-El. Virou Clark Kent.

É difícil exagerar a indignação com que este ato audacioso de renunciar à cidadania, esta “bofetada” do Superman, foi recebida pelo povo norteamericano. Eu li blogueiros defendendo seriamente que o novo campeão do internacionalismo fosse deportado para seu planeta de origem (como se fosse um mexicano ilegal), e já circula um abaixo assinado para que os executivos da Time Warner (donos da empresa que comercializa o Super Homem) forcem os autores da história a se retratar. Além disso, vários comentaristas conservadores viram esse insulto do super herói como a prova definitiva da decadência do país mais poderoso da terra: até o ídolo que representa mais universalmente nosso modo de vida está nos dando as costas!.

Não sei se o presidente Obama segue atentamente as aventuras do Super Homem (sabe-se que é um fã do Homem Aranha, de cuja origem nova-iorquina não cabem dúvidas), mas alguém deve ter chamado a sua atenção sobre a perda de prestígio que significa a deserção de um tal titã. O que acontece, por exemplo, se o Homem de Aço, guia dos despossuídos, decide fechar Guantánamo ou usar seus olhos de raios X para liberar alguns Super Wikileaks, agora que já deve lealdade à bandeira norteamericana? O que acontece se ele se põe a serviço de uma potência como a China? – ainda que, pensando bem, não haja muita Verdade ou Justiça neste país, de modo que ele seguramente não aceitaria esse tipo de aliança. Em todo o caso, os conselheiros de Obama devem ter lhe explicado que a defecção de Super Homem deveria ser tratada como uma imensa crise cultural e ideológica que inclusive poderia custar a reeleição ao presidente, uma vez que os republicanos já cozinhavam planos para acusá-lo de ter “perdido” o Super Homem (como ocorreu com Cuba ou Vietnã).

A resposta de Obama foi genial: ao matar Bin Laden, provava que os EUA não necessitava de um homem musculoso que voa e atravessa paredes para defender-se dos terroristas, pois, para isso, tem helicópteros e tropas especiais como os Seals, computadores e armas – como que não – de aço. Um modo de restaurar a confiança nacional que estava machucada e que dificilmente poderia tolerar outro menosprezo à sua auréola.

É claro que, antes de poder realizar aquela operação no Paquistão, Obama tinha que acertar outro assunto, um problema que o rondava há vários anos. Como iria apresentar-se perante o mundo e anunciar o assassinato de Bin Laden em nome dos Estados Unidos se uma insólita porcentagem de seu próprio povo duvidada que seu presidente era, de fato, norteamericano? Como criar o contraste com o trânsfuga Super Homem se Obama mesmo era acusado de ter nascido no estrangeiro, no Quênia, que, como se sabe, está muito mais longe do Kansas do que o planeta Krypton, por mais que os três lugares compartilhem a kafkiana letra K?

Isso levou Obama a divulgar, há alguns dias, sua certidão de nascimento, tapando a boca daqueles que o apontavam como um “alien” (alheio, estrangeiro, mas também extraterrestre, outro significativo paralelo entre o presidente e o super herói). Por certo que um conjunto de seus concidadãos segue acreditando que Obama não nasceu em território norteamericano. Insistem que o documento foi flasificado, que o hospital foi subornado e que a mãe (nascida originalmente nada mais nada menos que no Kansas) trouxe o menino de contrabando para o Wawaí, porque sabia que, dali a quarenta e tantos anos, aquele menino mulato seria presidente. Creio que a única maneira desses recalcitrantes aceitarem que Obama nasceu nos EUA seria ele branquear inteiramente a cara e toda a pele. Aí ele já não seria mais um “alien”.

Mas, para a maioria de seus compatriotas, Obama conseguiu em uma semana uma verdadeira e tripla proeza. Ao provar que era um presidente legítimo, pode, armado de seu certificado de nascimento e também do exército mais poderoso do globo, eliminar o sinistro inimigo número um dos Estados Unidos. E sem precisar da intervenção do Super Homem.

E agora?

Agora, proponho uma façanha de verdade: já que a razão pela qual Bush invadiu o Afeganistão era o apoio que os talibãs ofereciam a Bin Laden, não chegou o momento de retirar todas as forças norte-americanas desse país de montanhas e guerrilhas?

Estou seguro que o Super Homem, em parceria com as Nações Unidas e esgrimindo seu novo passaporte cosmopolita e global, ficaria feliz em ajudar no transporte rápido das tropas. Seria bonito vermos isso nas próximas aventuras do Homem de Aço, seria alentador que Obama e o Superman – ambos com suas origens no Kansas, ambos menosprezados por serem “estrangeiros” – colaborassem para criar pelo menos um pequeno oásis de paz no mundo onde infelizmente escasseiam hoje tanto a verdade como a justiça.

(*) Ariel Dorfman é escritor. Seu romance mais recente é “Americanos: Los passos de Murieta”.

Tradução: Katarina Peixoto

Carta Maior

Famílias saem do armário

Mais que novo direito, unanimidade no STF é recusa a uma discriminação injusta, diz pesquisadora

Debora Diniz – O Estado de S.Paulo

Imagine um juiz da mais alta corte do País proclamar que “sexo não é uma reprimenda dos deuses frente ao gênero humano, mas um regalo da natureza”. Ou que “pertencer ao sexo masculino ou feminino é apenas um fato que se inscreve nas tramas do imponderável, do incognoscível, da química da própria natureza”. Pois foi assim que o ministro Ayres Britto, relator da ação de união civil entre pessoas do mesmo sexo, abriu a votação histórica que considerou a união civil um direito que independe das práticas sexuais dos casais. Se afetos e desejos regem as relações intersubjetivas para o projeto de família, casais heterossexuais e homossexuais igualmente devem ser protegidos por nosso ordenamento jurídico. A votação foi unânime.
A astúcia do relator alçou voos mais do que poéticos como é sua marca na corte. O ministro Britto falou de sexo e prazer e lançou a norma heterossexista para escanteio, ao inspirar-se em Nietzsche para proclamar a supremacia da liberdade individual no campo da sexualidade. Sem rodeios, declarou que a repressão sexual era uma “criação dos homens”, em uma citação sem lirismo de Foucault. Mas foi sóbrio e reafirmou os limites à liberdade sexual: estupro, incesto e pedofilia estão fora desse quadro argumentativo, pois são violações da liberdade sexual de outras pessoas. Os limites foram como um aposto ao vocativo de abertura do advogado que representou a voz da CNBB na tribuna – “poligâmicos, incestuosos, alegrai-vos. Eis aqui uma excelente tese para justificar os seus comportamentos”, disse, em tom jocoso, já prevendo qual seria a decisão do tribunal.
A verdade é que somente como retórica popular e conservadora a ação de união civil poderia ser comparada a um novo estado de anomia no campo da regulação da sexualidade na sociedade brasileira. O que o STF decidiu foi uma demanda justa por reconhecimento – casais gays serão protegidos pelo Estado e terão seus direitos garantidos. Uma demanda simples, devendo ser entendida antes como uma recusa às interpretações injustas e restritivas que mesmo como um novo direito. Todos os ministros citaram o artigo 3º da Constituição Federal, que veda a discriminação por sexo. Impedir que duas mulheres sejam reconhecidas como uma entidade familiar para fins de proteções jurídicas é, portanto, uma discriminação injusta. Foi com essa simplicidade argumentativa que a ação saiu vitoriosa da corte.
Nem tão simples foram os flertes com as teorias feministas e de gênero para sustentar que a anatomia não é um destino para os corpos. Vencer a tese de que a descrição anatômica das genitálias demarca o campo das sexualidades possíveis foi um desafio mais tortuoso que sustentar a igualdade entre heterossexuais e homossexuais. Alguns ministros optaram por escapar desse terreno movediço que levou Simone de Beauvoir a afirmar que “o corpo é uma situação” ou que “não nascemos mulheres, mas nos tornamos mulheres”, para concluir que nossos desejos sexuais não estão programados por nossas genitálias. Grande parte dos ministros fez uso de uma categoria romântica e bem recebida aos ouvidos de uma sociedade patriarcal – o afeto. Afeto é o que aproxima os fora da lei de gênero da norma heterossexista sobre como devem se guiar as relações familiares. Para um homem e uma mulher, há o amor e a paixão; para os gays, a felicidade e o afeto. Mesmo não sendo um jogo retórico inocente, essa foi a estratégica argumentativa possível para o sucesso de uma ação que provoca os fundamentos de uma ordem social centrada na família heteronormativa, que falsamente presume a biologia como um destino.
O ministro Gilmar Mendes anunciou que a ação pode ter sido o início de um novo tempo em que o “pensamento do possível” nos mostrará os desdobramentos de famílias gays serem legitimamente entidades para a vida pública. Se por “pensamento do possível” surgirem demandas por comparação entre a união civil e o casamento, adoção de crianças, acesso às tecnologias reprodutivas, além de conquistas mais prosaicas, como representação dos novos arranjos familiares nos livros didáticos, nas histórias infantis ou nos programas de televisão, um verdadeiro horizonte de igualdade foi aberto com essa decisão do STF. Não há por que temer as mais diversas surpresas que essa ação nos provocará – a igualdade é ambiciosa e a força do movimento gay mostrará o conjunto de domínios da vida que as novas famílias ocuparão.
O STF considerou que essa decisão rompeu um longo “silêncio eloquente”. A origem do silêncio é a homofobia, um falso preconceito moral que subordina e oprime os fora da lei de gênero heterossexista. Mas a ordem jurídica democrática mostrou seu vigor – mesmo sem a devida mudança de mentalidades da sociedade brasileira, o princípio da igualdade saiu vitorioso. As 60 mil famílias que se declararam gays para o Censo 2010 podem sair do armário sem medo da insegurança jurídica. A mais alta corte do País declarou o fim da clandestinidade para elas.

DEBORA DINIZ É PROFESSORA DA UNB E PESQUISADORA DA ANIS – INSTITUTO DE BIOÉTICA, DIREITOS HUMANOS E GÊNERO


Blog do Favre

Ser ou não ser

Revolução feminista, neoliberalismo e globalização deslocaram o lugar do jovem na sociedade atual

Publicado em 06 de maio de 2011


Joel Birman

Na atualidade, a imagem da juventude está marcada ao mesmo tempo pela ambiguidade e pela incerteza. Digo ambiguidade pois se, de um lado, a juventude é sempre exaltada na contemporaneidade, cantada que é em prosa e verso pelas potencialidades existenciais que condensaria, por outro a condição jovem caracteriza-se por sua posição de suspensão no espaço social, que se materializa pela ausência de seu reconhecimento social e simbólico.
Seria em decorrência disso que a incerteza é o que se delineia efetivamente como o futuro real para os jovens, em todos os quadrantes do mundo.
Como se pode articular essas diferentes versões da juventude na contemporaneidade, numa narrativa que seja coerente e consistente?
É preciso destacar, antes de tudo, que a possibilidade de experimentação foi o que passou a caracterizar a condição da adolescência no Ocidente, desde o final do século 18, quando as idades da vida foram construídas em conjunção com a família nuclear burguesa, em decorrência da emergência histórica da biopolítica.
Nesse contexto, a adolescência foi delimitada como o tempo de passagem entre a infância e a idade adulta, na qual o jovem podia empreender experiências nos registros do amor e das escolhas profissionais, até que pudesse se inserir no mercado de trabalho e se casar, para reproduzir efetivamente as linhas de força da família nuclear burguesa.
Os romances de formação (Bildung), na tradição literária alemã, descreveram com fartura as sagas dos jovens na abertura da modernidade. Dentre eles é preciso evocar Os Anos de Aprendizado de Wilhelm Meister (Editora 34), de Goethe, que delineou com detalhes requintados o perfil da construção moderna da adolescência, sendo até mesmo sua narrativa paradigmática.
Desde os anos 1980, no entanto, essa figuração da adolescência entrou em franco processo de desconstrução, por diversas razões. Antes de mais nada, pela revolução feminista dos anos 1960 e 70, com a qual as mulheres foram em busca de outras formas sociais de existência, além da condição materna. Isso foi a condição de possibilidade concreta para a desmontagem da família nuclear burguesa.
Com efeito, as mulheres como mães eram as peças fundamentais para fazer funcionar esse modelo familiar, pela articulação que realizavam entre a gestão doméstica e as instituições médica e pedagógica, em nome do imperativo biopolítico, de produção da qualidade de vida da população.
Em seguida, porque o deslocamento das mulheres da posição exclusivamente materna foi o primeiro combate decisivo contra o patriarcado, que forjou nossa tradição desde a Antiguidade. Os posteriores movimentos gay e transexual vieram nos rastros do movimento feminista, inscrevendo-se nas linhas de fuga da crítica do patriarcado.
Com isso, a problemática da autoridade foi efetivamente colocada na berlinda, devendo ser remanejada desde então.
Finalmente, a construção do modelo neoliberal da economia internacional, em conjunção com seu processo de globalização, teve o poder de incidir preferencialmente em dois segmentos da população, no que tange ao mercado de trabalho. De fato, foram os jovens e os trabalhadores da faixa etária dos 50 anos os segmentos sociais mais afetados pela voragem neoliberal.
Com isso, se os primeiros passaram a se inserir mais tardiamente no dito mercado, os segundos passaram a ser descartados para ser substituídos por trabalhadores jovens e mais baratos, pela precariedade que foi então estabelecida no mercado de trabalho.
Foi em consequência desse processo que o tempo de duração da adolescência se alongou bastante, ficando então os jovens fora do espaço social formal e lançados perigosamente numa terra de ninguém.
Assim, graças à ausência de inserção no mercado de trabalho, a juventude foi destituída de reconhecimento social e simbólico, prolongando-se efetivamente, não tendo mais qualquer limite tangível para seu término.
Despossuídos que foram de qualquer reconhecimento social e simbólico, aos jovens restaram apenas o corpo e a força física. É por devidamente a emergência e a multiplicação das formas de violência entre os jovens na contemporaneidade.essa trilha que podemos interpretar devidamente a emergência e a multiplicação das formas de violência entre os jovens na contemporaneidade.
Esse processo ocorre não apenas no Brasil e na América Latina, mas também em escala internacional. Pode-se depreender aqui a constituição de uma cultura agonística na juventude de hoje.
Contudo, essa cultura de combate é apenas a face de uma problemática mais abrangente, na qual o verso é a presença aterrorizante do desamparo, que marca o campo da juventude na contemporaneidade, em que o medo do futuro e a insegurança do existir se perfilam efetivamente como espectros.
No entanto, é preciso evocar ainda que, se a violência e a delinquência sempre foram atribuídas às classes populares, construindo o ethos e o habitus delas em sua estratégia de sobrevivência, elas hoje também se fazem presentes nos segmentos jovens das classes médias e das elites.
Vale dizer que, em consequência das novas condições precárias do mercado de trabalho, regulado pelo ideário neoliberal, as classes médias e as elites passaram a se defrontar com os mesmos impasses, nos registros do reconhecimento social e simbólico, que marcaram outrora apenas as classes populares.
Assim, a violência juvenil transformou-se em delinquência, inserindo-se efetivamente no registro da criminalidade. No Brasil, os jovens de classe média e das elites passaram a atacar gratuitamente certos segmentos sociais com violência. De mulheres pobres confundidas com prostitutas até homossexuais, passando pelos mendigos, a violência disseminou-se nas grandes metrópoles do país.
Ao fazerem isso, no entanto, seus gestos delinquentes inscrevem-se numa lógica social precisa e rigorosa. Com efeito, tais segmentos sociais representam no imaginário desses jovens a decadência na hierarquia social, sendo pois os signos do que eles poderão ser efetivamente no futuro, na ausência do reconhecimento social e simbólico que os marca.
Ao lado disso, a cultura agonística manifesta-se ainda nos combates que se estabelecem entre jovens nas corridas noturnas de carros, assim como nas brigas frequentes que ocorrem nos bairros frequentados pela juventude nas grandes cidades. Foi ainda nesse contexto que se estabeleceu recentemente na tradição brasileira o assassinato de pais pelos filhos, demaneira inesperada e regular.
Finalmente, a cultura da força empreende-se regularmente em academias de ginástica, onde os jovens cultuam os músculos, não apenas para se preparar para os combates cotidianos da vida real, mas para forjar também um simulacro de força na ausência efetiva de potência, isto é, na ausência de reconhecimento social e simbólico, lançados que estão aqueles no desamparo.
É nesse registro que se deve inscrever a disseminação do bullying na contemporaneidade. É preciso dizer, no que concerne a isso, que a provocação e a violência entre os jovens e crianças é uma prática social antiga. O que é novo, contudo, é a ausência de uma autoridade que possa funcionar como mediação no combate entre estes e aqueles, o que incrementou bastante a disseminação dessa prática de violência.
Ao lado disso, é preciso dizer ainda que, pela luta e pelo combate agonístico com os colegas considerados mais frágeis, os valentões preparam- -se já para o futuro, para a selva do mundo neoliberal, restringindo desde cedo o campo da competição pelo estabelecimento da hierarquia entre os corpos, pela serialização da força existente entre eles.
Não obstante tudo isso, a juventude é ainda glorificada como a representação do que seria o melhor dos mundos possíveis. A juventude seria então a condensação simbólica de todas as potencialidades existenciais. Contudo, se fazemos isso é porque não apenas queremos cultivar a aparência juvenil, por meio de cirurgias plásticas e da medicina estética, mas também porque o código de experimentação que caracterizoua adolescência de outrora se disseminou para a idade adulta e para a terceira idade.
Constituiu-se assim uma efetiva adolescência sem fim na tradição ocidental, onde se busca pelo desejo a possibilidade de novos laços amorosos e novas modalidades de realização existencial.
Seria assim o imperativo de ser, custe o que custar, o que se impõe a nós como exigência ética na contemporaneidade de maneira incontornável, consubstanciado nas linhas de fuga do desejo e delineando a figura da adolescência infinita. Por isso mesmo, nas narrativas fundadoras da subjetividade contemporânea, é o mito de Hamlet (Shakespeare) que se impõe efetivamente, deslocando a figura de Édipo que dominou o imaginário ocidental na modernidade, disseminado que foi pela versão dele estabelecida pela psicanálise.

Joel Birman é psicanalista e professor titular do Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro

Revista Cult

Do jeito que você gosta

Representação sexual, cross-dressing e intersexualidade
 
Publicado em 06 de maio de 2011 
 
Marcia Tiburi - Filósofa

Do Jeito que Você Gosta é a peça de William Shakespeare atualmente encenada em São Paulo pela Companhia Elevador de Teatro Panorâmico. Assistir a ela é uma grande oportunidade de reflexão sobre a amizade e o amor e a relação entre natureza e cultura.
Mais ainda, Do Jeito que Você Gosta pode ser lida como um forte ensinamento sobre diferenças de gênero. A protagonista da peça é Rosalinda, uma garota que, fugindo do tio autoritário, precisa travestir-se de homem. É travestida de Ganimedes que ela brincará de seduzir seu amado Orlando.
Não se aproveita bem a brincadeira de Shakespeare sem levar em conta que, naqueles tempos, mulheres não podiam fazer teatro. A encenação dessa peça constituía uma complexa banda projetiva: para representar Rosalinda, um homem se vestia de mulher.
Convencendo como mulher, ele devia, dentro da peça, vestir-se de homem e, desse modo, ser um homem que encena que é uma mulher fingindo que é um homem. Rosalinda vestida de Ganimedes brinca de ser Rosalinda na intenção de testar o amor de Orlando. Se Rosalinda é a personagem mais rica da história quando a vemos encenada por uma mulher (Carolina Fabri, na versão da Companhia Elevador), tanto mais complexa se torna ao ser representada por um ator homem que, no processo de atuação devia, em um complexo jogo de camadas, mostrar que tudo são representações.

Fácil é inscrever Rosalinda na tradição da donzela guerreira junto de Atalanta, Mulan, Joana d’Arc, Iansã, Diadorim e tantas outras. Contudo, indo mais além, o que vemos em Rosalinda é a intuição de que gênero é mais um modo de vestir e de gesticular do que um modo de ser, é mais uma medida cênica do que uma condição natural.
Travestir-se
A ideia de Simone de Beauvoir de que ninguém nasce mulher, mas se torna mulher, diz respeito a esse caráter teatral do gênero. Quando o cartunista Laerte Coutinho resolve aparecer vestido de mulher, é o fato da representação que nos confunde. Cross-dressing é um movimento com adeptos em diversos países justamente porque a “verdade” sobre a relação entre sexo e gênero já não tem mais validade cultural. Gênero é questão cênica. É apenas figurino. E, desse modo, fantasia que deve
importar a quem a escolhe. O que acontece com o sexo, por sua vez, não é diferente. Sexo é construção ideológica baseada no padrão binário (homem e mulher) inventada pela ciência e pela lei. É um padrão que o travestimento vem questionar no ato mesmo em que, confundindo as pessoas, põe em xeque a diferença sexual.

Entra em cena a precariedade do padrão desde que o binário cedeu lugar às múltiplas combinações. Intersexualidade é a categoria que surge quando homem e mulher como grau zero, como identidades naturais, tornam-se insustentáveis. Assim, em primeiro lugar, é preciso rever o ponto de vista sobre gênero: se um homem pode vestir-se de mulher, uma mulher também pode vestir-se de mulher. Uma mulher, por sua vez, pode vestir-se de homem, como um homem pode vestir-se de homem.Só que, em lugar da natureza, é a representação que surge como prática concreta dos indivíduos. Roupas são apenas representações: debaixo delas restam indivíduos singulares que não se encaixam em padrões senão por esforços discursivos e práticos que negam a realidade do particular.
Em segundo lugar, é preciso pensar a intersexualidade, nome amplo para a diversidade sexual de nossos tempos que é em si mesma a prova de que a ideia de uma natureza sexual já não se sustenta mais. O hermafroditismo tão ocultado entre nós é uma das formas de intersexualidade. Desde que a medicina criou técnicas cirúrgicas e hormonais de “correção” das sexualidades não binárias, quem nasce com um sexo “inadequado” ou “fora da norma” é sumariamente “consertado”. Mas o que a intersexualidade nos faz pensar é que não podemos mais considerar a existência de “erro” na ordem sexual. Certo é que os corpos são marcados por discursos científicos, jurídicos e essencialistas que definem sexo e gênero com base em um padrão binário.
Não há como sustentar que a anatomia de um hermafrodita seja menos “natural” do que a de outros indivíduos. A diferença é que, enquanto as anatomias bipolares são identidades construídas, o amplo campo que abriga a corporeidade hermafrodita é colocado sempre no lugar da não identidade. E quem não tem identidade não tem grupo, e quem não tem grupo é excluído quando o padrão que rege a vida em sociedade é a identidade. Quem troca de sexo usa a medicina num ato de inversão da norma.
Por essa lógica, parece bem mais razoável afirmar que todos somos intersexuais: assim como não há um rosto comum, mas apenas semelhante, os corpos e as genitálias humanas não são uniformes, jamais serão idênticos. Derivar daí uma “roupa de mulher” ou “de homem” prova apenas o caráter ideológico das representações. Contra a ideologia, a liberdade é a inversão do jogo: vestir-se “do jeito que você gosta”.

marciatiburi@revistacult.com.br

Revista Cult

Conceito de honra se diluiu e chegou até os escravos

Estudo discute a idéia de que o escravo não tinha honra e mostra como essa distinção social chegou até eles

Agência USP

Entre os séculos 16 e 18, o conceito de honra sofreu diversas modificações dentro da América Portuguesa sendo que a escravidão foi o grande mediador dessas mudanças. "A historiografia do Brasil sempre considerou que o escravo não tinha honra. Mas ao estudarmos o tema, constatamos que este conceito foi se adaptando em função do escravo, que se tornou peça importante no jogo da honra", destaca o pesquisador Jackson Fergson Costa de Farias.
Farias é autor da dissertação de mestrado Honra e escravidão: um estudo de suas relações na América Portuguesa, séculos XVI-XVIII. A pesquisa foi apresentada na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP e teve como base fontes de época como documentos de administradores oficiais, relatos de padres, sermões, relatos de viajantes e outros retratos coloniais do período. "Optei por usar o termo América Portuguesa em vez de sociedade brasileira, pois a ideia de 'Brasil' é posterior a esse período", explica.
O conceito de honra, de acordo com o pesquisador, foi se modificando com o passar dos séculos. "Na sociedade medieval, o termo honra estava associado a um pedaço de terra que a pessoa recebia diretamente do rei em pagamento por serviços prestados. Eram as chamadas 'terras honradas' destinadas, principalmente, aos nobres de origem militar", afirma Farias. "Já na passagem da Idade Média para a Moderna, a honra passou a ser associada a valores como reputação, virtude, castidade, respeito, estima e consideração, e começou a ser encarada como um atributo de distinção social", completa.
Os senhores, os escravos e a honra
Segundo Farias, na América Portuguesa esse conceito de honra foi se diluindo. "A honra passou a ser mediada pela escravidão. Ser dono de escravos colocava a pessoa numa posição diferenciada em relação aos outros e uma das formas de se tornar um homem honrado era adquirir escravos", informa. "Em Portugal, a honra havia se tornado um fator de hierarquia societária: lá vigoravam rígidos mecanismos de distinção social com a finalidade de excluir os cristãos novos [judeus que haviam se convertido ao catolicismo] e os trabalhadores mecânicos, por exemplo. Na América Portuguesa a propriedade de escravos já garantia honra a qualquer pessoa."

Mas este conceito de honra, conta o pesquisador, também chegou até o escravo. Farias cita um dos sermões do padre Antonio Vieira, dirigido aos escravos no século XVII: "ele afirma que, sendo temente a Deus, o bom escravo não foge ou se rebela, e com seu trabalho e dedicação honra ao seu senhor e ao próprio Deus", relata. Segundo o texto, conta Farias, o escravo em si não tem honra, mas se ele vive honrando a Deus, levando uma vida correta, poderá ter uma vida honrada no paraíso. "Ao analisar a construção do argumento, percebemos que o padre se dirige ao escravo como se este escravo soubesse e entendesse o conceito de honra. É um argumento usado para seduzi-lo, oferecendo algo que, tradicionalmente, a historiografia diz que ele não tinha ou, no limite, usando um argumento retórico de um jogo do qual, mesmo sem participar ativamente, o escravo conhecia e sabia das regras", conta.
A partir do século 18, alguns padres tentaram, por meio de seus sermões, a ideia de que o escravo também compartilhava da honra de seus senhores. Este argumento era usado como um modo de convencer os senhores a tratar melhor seus escravos, como uma crítica à situação que a maioria deles vivia: má alimentação, castigos, chibatadas, má qualidade das vestimentas e até mesmo a exploração sexual.
"Nos textos, quase sempre dirigidos aos senhores de escravos, aparecia a seguinte ideia: se para sobreviver o escravo precisasse se prostituir, a má fama do escravo atingiria a honra do seu senhor", explica. Ou seja, se o escravo tivesse um comportamento considerado desonroso, ele estaria desonrando ao seu senhor. Outra ideia difundida nos documentos analisados - principalmente as fontes religiosas - é que acima dos poderes do senhor de escravo, existiam os poderes de Deus. "Então se o senhor não for punido no plano terreno pelo mau tratamento dispensado ao escravo, na argumentação dos padres o senhor seria punido por Deus", conta.
Farias destaca que realizou uma pesquisa com base em documentos já publicados e conhecidos dos historiadores que lidam com o assunto e que analisou o princípio argumentativo dessas fontes. Entretanto, a avaliação dos efeitos práticos desses argumentos permanece como um tema a ser explorado. A pesquisa foi apresentada na FFLCH em agosto de 2008 e teve a orientação do professor Rafael de Bivar Marquese.

UOL

Capitalismo para os pobres, socialismo para os ricos

Franklin Cunha *

Gore Vidal disse, certa vez, preferir morar em Ravello na costa Amalfitana, do que viver nos Estados Unidos, onde os pobres viviam no capitalismo e os ricos, no socialismo. E explicou: enquanto 80% da população disputam os 20% da riqueza do país, numa luta encarniçada e sem quartel por empregos, saúde, educação, moradia, aposentadoria — isto dentro das regras de um capitalismo neoliberal pós-keinesiano e da política laissez-faire e ao arbítrio da mágica mão do mercado, os 20% dos donos dos poderes, num verdadeiro regime socialista, distribuem entre si os 80% do PIB restante da nação.
A virada do capitalismo social e includente para o brutal e excludente foi representada, em suas bases teóricas, na Sociedade Mont Pèlerin, fundada na cidade suíça do mesmo nome em 1947. Seus idealizadores foram economistas como Frederick Hayek, Karl Popper e Milton Friedman, Ludwig Von Mises, Joseph Schumpeter entre outros, que se propunham a defender o liberalismo clássico, a liberdade de expressão, o livre mercado e os valores políticos de uma sociedade aberta. Os “manuais operacionais” da Mont Pèlerin foram os livros “O caminho da servidão”, de Hayek, de 1944, e “A sociedade aberta e seus inimigos”, de Karl Popper, de 1945. As ideias básicas desses textos eram que a atividade empresarial deveria ser deixada livre, sem amarras para governar o mundo como bem entendesse.
Muito desse purismo vinha de Hayek, o guru de Milton Friedman, líder da escola econômica da Universidade de Chicago, o qual em tons severos dizia que qualquer envolvimento governamental na economia seria capaz de lançar a sociedade no “caminho da servidão” e, portanto, deveria ser implacavelmente extirpado.
Nos anos 50, os sociaisdemocratas e os keynesianos dos países ricos comemoravam uma série de histórias de sucesso em vários países que adotaram as políticas econômicas da escola de Chigago e da turma de Mont Pélerin. O laboratório mais avançado do desenvolvimento era o Cone Sul da América: Chile, Argentina, Uruguai, o sudeste brasileiro e seu epicentro foi a CEPAL, de Raul Prebisch, que treinou diversas equipes de economistas desenvolvimentistas para atuarem como assessores dos governos da região. Durante esse período de expansão espetacular, o Cone Sul parecia mais a Europa do que o resto da América Latina.
E o que receitavam esses assessores? Em primeiro lugar os governos deveriam abolir todas as regras e regulamentações que se interpunham no caminho da acumulação de capitais. Em segundo, deveriam vender todos os ativos que possuíam e que poderiam ser administrados com lucro. Em terceiro, deveriam cortar drasticamente os fundos destinados aos programas sociais. Além disso, os impostos deveriam ser baixos, taxando os ricos e pobres na mesma proporção. As corporações ficariam livres para vender seus produtos para todo o mundo e os governos deveriam ser impedidos de proteger as indústrias de seus países. Todos os preços, inclusive o dos salários, seriam definidos pelo mercado, e o salário mínimo, abolido. Friedman e seus sequazes ainda ofereciam à iniciativa privada os serviços de saúde, de correios, a educação, os transportes, as aposentadorias e até a água e os parques nacionais.
Enfim, a contrarrevolução da Escola de Chicago pretendia eliminar todas as formas de proteção que os trabalhadores haviam conquistado por meio de lutas antigas e sangrentas e e queriam explorar com lucros de mercado todos os serviços públicos nos quais o Estado havia investido com recursos da população trabalhadora. Tudo isso tinha a finalidade de aparar as agudas arestas do mercado.
Assim, no entendimento de Friedman, toda essa riqueza deveria ser compartilhada e, como princípio, passada às mãos da iniciativa privada. E apara atrair investimentos, os governos do Cone Sul publicavam caros anúncios nos principais jornais dos Estados Unidos e da Europa nos quais declaravam explicitamente, e sem qualquer pejo, que “poucos governos da história foram tão encorajadores para os investimentos privados. Estamos atravessando uma verdadeira revolução social; procuramos parceiros que ajudem a nos livrar do estatismo e que nos auxiliem a demonstrar o imprescindível papel do setor privado” (anúncio da ditadura argentina na Business Week).
Já sabemos como terminou a atuação dos economistas da escola de Chicago através das políticas econômicas do FMI, do Banco Mundial, da Organização Mundial do Comércio, dos bancos e de outros organismos neoliberais. Na realidade foi um outro e gigantesco golpe financeiro ao estilo do que Bernard Maddof aplicou em investidores de tudo o mundo que acreditaram nele.
As fantásticas quantias de capitais não controlados e a ruptura das estruturas reguladoras, exerceram um impacto de grande escala sobre a economia mundial. Assim, chegamos a uma situação na qual, como diz Joseph Siglitz, “fomos envolvidos por uma mistura tóxica de interesses especiais, políticas econômicas mal-orientadas e ideologias da direita política as quais desembocaram na atual crise global. E alguém como Michael Moore falou “curto e grosso”: “Fomos vítimas de um gigantesco roubo planejado e executado por banqueiros, economistas, políticos e seus acólitos neoliberais”. E agora não há dinheiro estatal que chegue, pois conforme Slavoj Zizek “a solução dos graves problemas da maioria dos países em quebra é o uso de medidas socialistas para salvar o capitalismo”.
Daí a justa e lúcida afirmação de Gore Vidal que abre este texto.


* Médico


SUL 21

Polêmica ou Ignorância?

O texto abaixo é tudo o que eu queria dizer sobre esse assunto. Alguns jornalistazinhos acham que entendem de linguística, fazem um estardalhaço, mas não levam em conta o desenvolvimento dos estudos acadêmicos que tratam do assunto. Só consultam "especialistas" gramaticais, esquecendo-se dos linguistas, que são cientistas com propriedade para falar sobre o assunto. Com vocês, as palavras do professor Marcos Bagno. Os grifos abaixo são meus. (WiLL)


Na semana passada, o site IG noticiou que o Ministério da Educação comprou e distribuiu, para 4.236 mil escolas públicas, um livro que “ensina o aluno a falar errado”. Os jornalistas Jorge Felix e Tales Faria -  do Blog Poder On Line, hospedado no portal – se basearam em exemplos de um capítulo do livro Por Uma Vida Melhor para afirmar que, segundo os autores da coleção organizada pela ONG Ação Educativa, não há nenhum problema em se falar “nós pega o peixe” ou “os menino pega o peixe”. Calçaram sua tese no seguinte trecho de um capítulo que diferencia o uso da língua culta e da falada:”Você pode estar se perguntando: “Mas eu posso falar os livro?”. Claro que pode. Mas fique atento porque, dependendo da situação, você corre o risco de ser vítima de preconceito linguístico”. O fato de haver outros capítulos, no mesmo livro, que propõem a leitura e discussão de obras de autores como Cervantes, Machado de Assis e Clarice Lispector e ensina modos de leitura, produção e revisão de textos não foi citado. Mas a discussão sobre como registrar as diferenças entre o discurso oral e o escrito esquentou, principalmente após o colunista da Folha de S. Paulo Clóvis Rossi vociferar, no último domingo, que tal livro é “criminoso”.

por Marcos Bagno, no seu site, via CartaCapital

Para surpresa de ninguém, a coisa se repetiu. A grande imprensa brasileira mais uma vez exibiu sua ampla e larga ignorância a respeito do que se faz hoje no mundo acadêmico e no universo da educação no campo do ensino de língua.
Jornalistas desinformados abrem um livro didático, leem metade de meia página e saem falando coisas que depõem sempre muito mais contra eles mesmos do que eles mesmos pensam (se é que pensam nisso, prepotentemente convencidos que são, quase todos, de que detêm o absoluto poder da informação).
Polêmica? Por que polêmica, meus senhores e minhas senhoras? Já faz mais de quinze anos que os livros didáticos de língua portuguesa disponíveis no mercado e avaliados e aprovados pelo Ministério da Educação abordam o tema da variação linguística e do seu tratamento em sala de aula. Não é coisa de petista, fiquem tranquilas senhoras comentaristas políticas da televisão brasileira e seus colegas explanadores do óbvio.
Já no governo FHC, sob a gestão do ministro Paulo Renato, os livros didáticos de português avaliados pelo MEC começavam a abordar os fenômenos da variação linguística, o caráter inevitavelmente heterogêneo de qualquer língua viva falada no mundo, a mudança irreprimível que transformou, tem transformado, transforma e transformará qualquer idioma usado por uma comunidade humana.
Somente com uma abordagem assim as alunas e os alunos provenientes das chamadas “classes populares” poderão se reconhecer no material didático e não se sentir alvo de zombaria e preconceito. E, é claro,om a chegada ao magistério de docentes provenientes cada vez mais dessas mesmas “classes populares”, esses mesmos profissionais entenderão que seu modo de falar, e o de seus aprendizes, não é feio, nem errado, nem tosco, é apenas uma língua diferente daquela – devidamente fossilizada e conservada em formol – que a tradição normativa tenta preservar a ferro e fogo, principalmente nos últimos tempos, com a chegada aos novos meios de comunicação de pseudoespecialistas que, amparados em tecnologias inovadoras, tentam vender um peixe gramatiqueiro para lá de podre.
Enquanto não se reconhecer a especificidade do português brasileiro dentro doconjunto de línguas derivadas do português quinhentista transplantados para as colônias, enquanto não se reconhecer que o português brasileiro é uma língua em si, com gramática própria, diferente da do português europeu, teremos de conviver com essas situações no mínimo patéticas.
A principal característica dos discursos marcadamente ideologizados (sejam eles da direita ou da esquerda) é a impossibilidade de ver as coisas em perspectiva contínua, em redes complexas de elementos que se cruzam e entrecruzam, em ciclos constantes. Nesses discursos só existe o preto e o branco, o masculino e o feminino, o mocinho e o bandido, o certo e o errado e por aí vai.
Darwin nunca disse em nenhum lugar de seus escritos que “o homem vem do macaco”. Ele disse, sim, que humanos e demais primatas deviam ter se originado de um ancestral comum. Mas essa visão mais sofisticada não interessava ao fundamentalismo religioso que precisava de um lema distorcido como “o homem vem do macaco” para empreender sua campanha obscurantista, que permanece em voga até hoje (inclusive no discurso da candidata azul disfarçada de verde à presidência da República no ano passado).
Da mesma forma, nenhum linguista sério, brasileiro ou estrangeiro, jamais disse ou escreveu que os estudantes usuários de variedades linguísticas mais distantes das normas urbanas de prestígio deveriam permanecer ali, fechados em sua comunidade, em sua cultura e em sua língua. O que esses profissionais vêm tentando fazer as pessoas entenderem é que defender uma coisa nãosignifica automaticamente combater a outra. Defender o respeito à variedade linguística dos estudantes não significa que não cabe à escola introduzi-los ao mundo da cultura letrada e aos discursos que ela aciona. Cabe à escola ensinar aos alunos o que eles não sabem! Parece óbvio, mas é preciso repetir isso a todo momento.
Não é preciso ensinar nenhum brasileiro a dizer “isso é para mim tomar?”, porque essa regra gramatical (sim, caros leigos, é uma regra gramatical) já faz parte da língua materna de 99% dos nossos compatriotas. O que é preciso ensinar é a forma “isso é para eu tomar?”, porque ela não faz parte da gramática da maioria dos falantes de português brasileiro, mas por ainda servir de arame farpado entre os que falam “certo” e os que falam “errado”, é dever da escola apresentar essa outra regra aos alunos, de modo que eles – se julgarem pertinente, adequado e necessário – possam vir a usá-la TAMBÉM. O problema da ideologia purista é esse também. Seus defensores não conseguem admitir que tanto faz dizer assisti o filme quanto assiti ao filme, que a palavra óculos pode ser usada tanto no singular (o óculos, como dizem 101% dos brasileiros) quanto no plural (os óculos, como dizem dois ou três gatos pingados).
O mais divertido (para mim, pelo menos, talvez por um pouco de masoquismo) é ver os mesmos defensores da suposta “língua certa”, no exato momento em quea defendem, empregar regras linguísticas que a tradição normativa que eles acham que defendem rejeitaria imediatamente. Pois ontem, vendo o Jornal das Dez, da GloboNews, ouvi da boca do sr. Carlos Monforte essa deliciosa pergunta: “Como é que fica então as concordâncias?”. Ora, sr. Monforte, eu lhe devolvo a pergunta: “E as concordâncias, como é que ficam então?

Marcos Bagno é escritor, tradutor, lingüista, professor da Universidade de Brasília  (UnB).

“O pescador tem dois amor”

Professor Zenir Reis invoca Caymmi: “O pescador tem dois amor”

Língua oral e escrita

por Zenir Campos Reis*, sugestão da leitora Maria Salete Magnoni, que foi sua orientanda

Antes de ler e escrever, falamos. A fala requer longo aprendizado. A boca existe prioritariamente para comer. Primum vivere. Aos poucos, desenvolvemos essa habilidade secundária de adaptar a boca, lábios, dentes e língua, para a emissão de sons inteligíveis, distintivos, que vão compor as palavras. No convívio social, os mais velhos ensinam aos mais jovens as regras de com-binação das palavras, isto é, as regras básicas de sintaxe.
A língua oral é econômica e tende à simplificação. Em português, por exemplo, a marca mais comum do plural é o “s” no final das palavras. Se esse fonema está presente no artigo fica entendido que estamos falando de mais de um objeto: o livro, os livro(s), um ou mais de um. Em outras línguas, o francês por exemplo, o “s” do plural nem é pronunciado: le livre, les livre(s). A marca do plural está presente apenas na diferença que a língua oral estabelece entre /le/ e /les/. Existem lingüistas que consideram a repetição da marca do plural uma espécie de pleonasmo, de repetição dispensável. Lembremo-nos da bela canção de Dorival Caymmi, “O bem do mar”, que começa assim:
O pescador tem dois amor
Um bem na terra,
Um bem no mar (bis)

O que fixa a língua é a letra, a escrita, para cuja conquista exige-se outro aprendizado, normalmente feito na escola. Compreende-se que a língua escrita não seja imediatamente acessível.
Antropologicamente, na história da humanidade, o aparecimento da escrita parece estar relacionado ao surgimento de sociedades mais complexas e ao aparecimento da divisão social e da dominação. A posse da letra sinalizava o poder. A imprensa, então, é uma invenção tardia, do século XVI. O primeiro livro impresso foi uma Bíblia e a leitura e interpretação desse livro sagrado começou a ser objeto de disputa.
A língua portuguesa, língua latina, proveio não do latim erudito, mas do chamado “latim vulgar”, o latim oral, falado por soldados (das tropas de ocupa-ção) e colonos iletrados ou pouco letrados. Um escritor de origem húngara, Paulo Rónai, grande conhecedor de línguas, quando tomou contato com a língua portuguesa, diz que lhe parecia um latim falado por pessoas desdentadas. Possivelmente era uma impressão verdadeira. Com certeza eram iletrados, pessoas “simples”, mais ou menos sinônimo de pobres. Muitos deles, desden-tados.

Esses pobres falavam, por exemplo “mágoa” ou “mancha”, em vez de “mácula”. Falavam “logro”, em vez de “lucro”. E diziam bem, diziam certo. Encontrei a palavra “resisto”, num sermão de Antônio Vieira, palavra que se diz em português do Brasil “registro”, ou, em Portugal, “registo”. Tudo muito certo, no contexto apropriado.
A disciplina gramatical costuma vir das camadas letradas, muitas vezes associadas ao poder político, isto é, às normas adotadas pelas autoridades políticas e transformadas em acordos, tratados, normas, transmitidos via minis-térios, academias, escolas oficiais.
A realidade da língua viva é muito mais complexa e indisciplinada, por-que a letra, que fixa a língua oral depende da alfabetização que não é univer-sal, nem neste país nem em muitos outros países, mesmo do mundo dito desenvolvido. Uma longa conversa, como se vê.

Zenir Campos Reis é professor aposentado de Literatura Brasileira na USP.

Vi o Mundo

Um coração que te quer

Pra que acabar com todo amor que sempre existiu entre nós? Pra que fazer isso assim, de sopetão, deixando meu coração sem explicação? Como viver mais um dia sem seu boa noite? Como terminar uma tarde sem o seu "estou com saudade"? Como fazer para reaquecer minha vida nesse frio que me sobe pelos pés nas noites de outono? Não me aguento, só questiono, porque não aceito esse abandono. Esse deixar ir, esse viver a vida. Cada um seguindo seu destino. Destino? Não quero seguir nada que esteja pronto, ordenado, não quero nada anunciado... Só quero seu amor, seu coração sentindo o meu pelo beijo. Quero continuar sendo sua necessidade, seu desejo. Não quero não ter sua alma pra compartilhar minhas angústias. Não quero não poder te ligar pra dizer que a reunião foi um sucesso. Não quero não ter meu amor pra sempre... Espero ansioso uma resposta sua, uma meia-volta ao meu mundo, um retorno pra me ver, agora todo moribundo, esquecido no amor, vivendo na dor, na falta de sentimento teu. Me diga que está tudo bem, que você me quer também e que nosso recomeço será a continuação do mesmo amor. Me diga o que precisar dizer, mas me abrace todo entardecer, me tenha ao anoitecer e me queira todo amanhecer. De novo. Pra sempre. Não vou morrer sem você, mas sinto um vazio, algo incompleto. Não quero dar um tempo pra superar sua falta, quero você do meu lado, na minha frente, nos meus beijos. Não quero um recomeço, quero uma continuação do que sempre existiu...

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