segunda-feira, 18 de junho de 2012

Família de porta retrato


Sorrisos plastificados e abraços bem enlaçados. Uma família cheia de afeto, todos se amando. A família de porta retrato mostra-se tão unida, aparenta uma felicidade tão perfeita que todos invejam: queriam ter uma família assim, mas não conseguem entender o que há de errado com a sua própria, só a dos outros é que funciona, ou parece funcionar. Como assim?  Existe uma organização na família perfeita que determina a função de cada membro: o pai age assim, a mãe daquele jeito, os filhos sempre fazem a mesma coisa? Na família de porta retrato, tudo é igual, a felicidade constante e os sorrisos não desaparecem nunca. A foto está sempre lá como prova.

A família de porta retrato sempre tem a mamãe e o papai que resolvem tudo em consenso. Eles sentam, conversam bastante, se entendem e decidem juntos as pendências da casa. Os filhos são respeitosos e exemplares, seja na vida escolar, seja com os amigos, seja com os parentes nas reuniões bem-vindas. Essas reuniões de família nunca são muito diferentes: ninguém fala mal dos outros parentes, uma união perfeitamente harmoniosa que dá inveja aos vizinhos daquela casa em que ocorre o encontro. As pessoas falam baixo, álcool só no limite da razão para não estragar a foto. Por um segundo, a imagem outrora capturada parece concretizar-se em ação no mundo real.

Não entendo da arte da fotografia, mas ouso dizer que o fotógrafo busca o melhor momento quando captura uma imagem. A família de porta retrato, ao contrário, posa para a melhor imagem ser gravada, eternizando a felicidade que quer mostrar, porque impera a necessidade de manter sobre a estante da sala a foto da família perfeita. “Nossa! Que família linda você tem! Seus filhos são uma graça!” deve ser o mínimo que se ouve de quem visita aquela casa. Mínimo porque conseguiram uma imagem tão profissional que nunca ninguém poderá pensar menos que isso.

Aliás, menos não existe no vocabulário da família de porta retrato. Ela precisar ser sempre mais, sempre a melhor. Não falta sorriso, não falta alegria, não falta união, não falta amor. Tampouco falta mentira para manter por tanto tempo uma fotografia ensaiada na sala, que já se cansou de tudo aquilo. A sala não se preenche mais com porta retratos, chega uma hora em que a família só vive neles, mas os familiares não cabem mais no mesmo cômodo. Quando a família cai, não sobra nem sala.

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