quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Nova infelicidade


Num dia de outono quente, atipicamente quente, Roberto chegara mais tarde do trabalho em sua casa. Uma cerveja no barzinho, justificou para si mesmo, já que morava sozinho em uma edícula na periferia da cidade. Esses momentos de cerveja com os amigos eram os únicos em que ele se percebia menos marginal, menos periférico. Eram os momentos de maior dignidade, autoafirmava dele, que se sentia no centro do mundo, incluído na sociedade quando estava nesses bares, restaurantes e choperias da cidade não tão grande, nem tão pequena. Talvez Roberto desse conta, talvez não, de que o tamanho da cidade era definido muitas vezes pelas pessoas residentes. Ele via tantos saltos altos andando pelos bares e refletia, depois de umas cervejas na cabeça, se realmente a altura que o salto trazia correspondia à altura da dignidade daquelas mulheres bonitas, bem arrumadas, maquiadas e com o cabelo impecável.
Uma cidade de tamanho médio, mas que se passava por um grande centro urbano na cabeça de quem acabara de conquistar um salário maior, quase negando sua origem e fazendo parte de um novo modelo de vida: jantar fora, participar de happy hour, comprar no shopping center e outras atividades até então almejadas, invejadas e apenas sonhadas, mas que agora eram realidade, ao menos em parte. Esquecer-se de sua origem. Não esquecê-la, mas negá-la. Era preciso ter mais dinheiro, mas isso não bastava. Uma necessidade de parecer ter mais dinheiro era urgentíssimo. E aquele lindo salto bem alto das mulheres, somado aos demais atributos conquistados, ou forjados, traziam essa aparência imprescindível para causar essa sensação, ou esse sucesso, quase um pedido de reconhecimento que ganhar mais dinheiro requer: não sou mais assalariada, olha bem pra mim. Só não podem descobrir onde moro, porque meu dinheiro ainda não é suficiente para uma casa no centro... E assim seguia pensando enquanto bebia, filosofando no boteco com seus botões já cansados do dia exaustivo, mas altivos pela marca que exibiam.
No outro dia, o celular de Roberto despertou-o às seis em ponto. Tocando o alarme do despertador do celular, já lhe fatigava só de imaginar o percurso até o trabalho. Sentava-se à mesa para tomar o café da manhã, melhorado com o aumento do salário: pão francês amanhecido com margarina e café foram substituídos por pão de forma, geleia, queijo e suco longa vida. O cafezinho tomaria na empresa mais tarde. Após o café da manhã, agora reforçado, um delicioso banho para acordar de vez. No banheiro, um sabonete que não era mais o da propaganda da novela, um creme dental que não era o mais barato e produtos para o cabelo daqueles que não são encontrados nas prateleiras de farmácia. Na parede oposta ao chuveiro, um espelho grande, pelo qual ele se via inteiro, nu, dos pés à cabeça. O tamanho do espelho traduzia o tamanho de sua cobiça pela nova vida: queria tudo, não pedacinhos, mas tudo, o todo, um preenchimento total de seus objetivos tão subjetivos. A grandeza do espelho do banheiro refletia a grandeza do que ele queria ser e, mais que isso, do que ele acreditava ser. O espelho funcionava como uma espécie de salto alto, trazia-lhe uma felicidade clandestina, imensa! Arrumava-se com perfeição. Roupas com etiquetas denunciando suas compras no shopping.
Toda essa arrumação feita, era hora de encarar o desafio: o transporte coletivo. Ele costumava ir para o ponto de ônibus em cima da hora, para não passar tanto tempo em pé, esperando. Ao subir no coletivo, o pensamento unânime dos recém-subidos de salário: preciso de um carro urgente. Não dá pra continuar nessa vida de pegar ônibus lotado, essa coisa... Mas não consigo pensar em uma casa no centro da cidade e no carro ao mesmo tempo. Quer dizer, o saldo bancário que não me permite isso, apesar do aumento. No percurso, a periferia era revista por ele como um momento que ia passar, como se sua alma fosse ser salva do purgatório e ir para o céu. Ele pensava que o caminho do inferno não era parte dele mais e que isso ia mudar.
Havia sobrevivido à viagem torturante feita no coletivo, mas agora se encontrava no lugar que era seu por direito e por natureza: a empresa. Trabalhava em uma sala com ar condicionado, com uma copeira lhe servindo café e água o dia todo. Acostumara-se ao novo estilo de vida, vislumbrava um novo projeto, abandonando suas origens periféricas. Pensava em romper definitivamente com a pobreza e a simplicidade rastejantes de outrora. Estando já na empresa, manter as aparências era fundamental e, para isso, tinha a roupa cara e de marca e, acima de tudo, a pose de sofisticação e a falsa nova moral adquirida. Roberto só reclamava no pensamento, local em que esperava um maior reconhecimento de seu trabalho, sonhando com o carro e com a casa no centro, distanciando-se cada vez mais da periferia: andar de carro seria uma vitória contra si mesmo, seu eu interior, anterior ao eu de agora.
Já não se misturava mais com a massa, com seus vizinhos não bem-vindos. Não porque fossem pessoas ruins, mas porque eram pobres como ele, e lembrar-se disso todos os dias era torturante para quem queria ir tão longe na empresa, na carreira, na conta bancária... Outra vitória seria morar no centro. Além de não ter contato com aqueles antigos vizinhos do velho eu, ainda moraria num local privilegiado, longe dos pontos de ônibus e das discussões anunciadas pelas famílias simples que se reuniam à noite, cujas conversas ele ouvia sem o menor interesse e contra sua vontade. Era o preço de se morar numa edícula: ouvir a conversa da casa da frente e dos vizinhos do lado e dos fundos, todos próximos, quase que entrando em sua casa, ele quase participava da vida de todas essas famílias. No fundo, ele queria era se livrar da solidão e tinha inveja da felicidade dos vizinhos pobres. Queria suprir essa carência com o dinheiro e as aparências de uma vida dita melhor. Encontrou uma nova infelicidade.

William César Ramos Lima
PS: O meu conto acima foi selecionado para a fase estadual do Mapa Cultural Paulista 2011/2012. Ele já estará na antologia do Mapa, e agora espero ficar entre os 5 ganhadores da categoria de conto.

3 comentários:

  1. É... parece que a gente só se conscientiza disso tudo no papel - o suporte. O outro papel, o social, atravesse imune, até explodir.
    Gostei!
    Abraço.

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  2. É...o papel social é esquecido. E é necessário muita luta, porque perder privilégios é difícil.
    E o mais dificil e perceber q pessoas sempre foram orpimidas agora querem trocar de papeis e serem opressores. Não deveria ser assim, ne mesmo? A sociedade condena a sociedade.
    Adorei seu conto. Realmente brilhate e merece ter ido p fase estadual do mapa.
    bjosss e adoro vc! Dani

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