domingo, 27 de novembro de 2011

Um a menos


Olhava com raiva, como se quisesse dar o bote. Envenenar o mundo acabaria de vez com a frustração de ver tudo se transformando enquanto a sua vida apenas continuava. O mundo precisava morrer, essa era da solução. Tudo virar pó. Nada sobrar desse destempero irritante. Esse excesso de vida, esses risos abusados que denunciam tanta felicidade alheia. Uma questão de justiça: se todos somos iguais perante a lei, por que a infelicidade deveria morar apenas nele?
Não havendo mais dúvida de que o fim era na verdade o início da justiça, passou a preparar-se para o juízo final. Claro que jamais acabaria condenado pela morte de tanta gente, porque usaria o argumento de legítima defesa. Defesa contra a felicidade alheia. Não se podia viver com tanta felicidade assim e ficar impune! Chegava a ser um pecado esse egoísmo todo dos felizes: guardavam para si as alegrias todas enquanto ele sofria as indelicadezas da amargura, os espinhos dessa flor murcha que diziam chamar-se vida.
Como colher flores de um jardim em que só brota coisa ruim? Esse jardim mais exercia o papel sujo da visão do inferno, já que a Terra era cinzas, e a água que o regaria não valia nem como detrito de esgoto. Bons resultados não se podia colher num inferno desse.
Com a certeza que os outros tinham de que suas vidas valiam tanto a pena, ele quis transformar esse valor todo em um fato marcante: um sacrifício geral em apoio à sua mediocridade de vida. Não se tratava de uma vingancinha de adolescente, era como se o mundo lhe devesse desculpas, como se a torneira de esgoto precisasse ser aberta para limpar a caixa d’água. Providenciaria a limpeza do mundo, pelo menos onde pudesse fazê-lo. Assim, todos morreriam, um a um, até que apenas ele restasse, aos prantos, e sem nunca mais poder compartilhar um sorriso.

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