segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

A dor da perda

Era uma vez dois amigos bem unidos, que quase nunca de desgrudavam. Eles eram amigos de segredos, de conversas sobre amor, dor, perspectivas... Falavam do passado pra medir as conquistas do presente. Falavam do futuro, não daquele distante, mas do que poderia estar mais próximo: a necessidade de trocar de trabalho, de ter uma casa, uma companhia...
A melhor parte da amizade era o companheirosmo, a parceria de ir junto pra balada, sair pra paquerar, viajar pra cidades próximas pra curtir festas... Muita risada, muitas histórias eles tinham pra contar.
Mas como nem tudo é feito de momentos bons, eles trocavam histórias tristes também. Histórias de desilusão amorosa, por exemplo. De uma ficada que não deu em nada. De um noivado mal sucedido. De um namoro frustrante...
Outra história triste foi o desemprego. Um dos amigos, que era negro, foi demitido de um banco depois de passar por sérios problemas de saúde. Ele teve hipertensão, pressão alta, e estava de licença médica com frequência. O banco dispensou-o, sem maiores rodeios. Iniciava-se ali um longo período de tormento na vida desse amigo: como conseguir outro emprego? Parecia simples: um bom currículo, um cara bem articulado, bem capacitado, mas isso não foi suficiente para que ele conseguisse um novo emprego. Ficou meses sem trabalho, sem produzir, sem dinheiro entrando, mas tendo que pagar contas.
Nesse período os dois amigos se falavam bastante, quase que diariamente, ou na hora do almoço, ou à noite. Foi uma época de muita conversa, de consolidação da amizade.
Esse amigo desempregado, passado um tempo, conheceu uma pessoa. Muito bacana, pé no chão, sabia o que queria da vida. Resolveram os dois irem embora da cidade: teriam a chance de morar juntos e conseguir um emprego em uma cidade maior. Foram para Curitiba. Um lugar cheio de promessas, de novidades, de oportunidades.
De fato, conseguir trabalho em Curitiba não foi nada difícil, era possível mudar de emprego toda semana, todo mês: sempre haveria uma oportuniade se algo não estivesse bom.
Entretanto, nem tudo é perfeito sempre, e nesse troca troca de emprego, aquele amigo voltou a amargar um período difícil... Seu amor estava ali, ajudando no que podia, mas outro período de desemprego não era fácil. Começaram a surgir algumas brigas mais sérias entre o casal, criando certa instabilidade. Já se cogitava a separação, mas sem grana, ir pra onde? Voltar para casa da mãe nem pensar... Continuaram dividindo o espaço, mas separados...
Até que chegou num ponto que não teve jeito. Sem trabalho e morando com ex, aquele amigo voltou pra casa da mãe... Nesse período todo da viagem, pouco mais de um ano, os amigos perderam contato, o que era natural, a vida de cada devia continuar... Mesmo após a volta daquele que tinha ido tentar a vida fora, eles se viam pouco, mas isso nunca dimunuía a amizade deles...
Um domingo à noite alguém me chama no msn:
-Will, vc ta sabendo de fulano?
-Não, o q aconteceu???
-Fulano faleceu!
-Como assim? Qdo isso, como? Imagina...
-É... vi no orkut dele uns recados sobre isso.
-Vou checar e te falo se descobrir algo.

Ligava no celular do meu amigo, e nada... Na casa dele, e nada... Eu me desesperei, sem saber o q fazer. Segundo tinham me dito, ele teria morrido no sábado e seria enterrado ás 16h de domingo. Quando fiquei sabendo, já passava das 17h...
Um tempo depois meu celular tocou. Era o número dele.
-Alô.
-Alô, quem fala?
-É fulana, madrinha de fulano. Você queria falar com ele?
-É. Vi umas mensagens no orkut dele e queria saber se é verdade.
-Sim, infelizmente, perdemos nosso querido. Acabamos de chegar do enterro...
-Mas como isso aconteceu?
-Ele teve uma pneumonia muito forte, ficou internado vários dias, mas não resistiu. Tem outra coisa, mas não posso te falar...
-Está bem. É muito triste isso...
-Sim, é uma perda muito grande pra gente.
-É... Obrigado por ter ligado de volta.
-Ok. Xau.

Bom, é horrível ficar sabendo que seu amigo morreu quando ele já está enterrado. Não pude dar um abraço na família naquele momento, não pude velar o corpo dele (apesar de não gostar de velório, mas quem gosta?)... Mais triste que isso é não ter tido uma última conversa com ele... Tivemos, mas não sabia que seria a última!
Bom, sobre as circunstâncias da morte do meu amigo, eu sabia o que era quando ela disse que não podia me contar outra coisa...
Parti pra investigação. Consegui contato com alguém da família e tive a certeza: ele estava com AIDS. Sim, AIDS, ou SIDA, se preferir a sigla em português. Bom, ter essa notícia foi um baque, talvez tão grande quanto o da morte... AIDS é uma doença que parece tão longe da gente. Sabemos que ela existe, mas não a conhecemos de perto. Enganosamente pensamos isso. Ele tinha HIV e não contou pra ninguém. Pelo menos ainda não encontrei ninguém que soubesse disso. Como ele se contaminou? Transando sem camisinha!
A mensagem é clara: use camisinha sempre!

Fiquei tão chocado, tentando imaginar como ele conviveu com isso sem contar pra ninguém, como segurou esse peso todo sozinho... Porque, ao que tudo me indica, ele sabia da sua condição de portador do vírus HIV. E optou por não se tratar. Uma escolha dele, claro, e não cabe a mim discutir isso. O que me preocupa é o seguinte: tendo ele descoberto ser soropositivo, preferiu não acreditar nisso e fingir que nada havia de errado e continuar sua vida como antes, ou se protegeu nas relações sexuais que manteve? Essa é minha única angústia: a possibilidade de ele ter transmitido esse vírus para outras pessoas!
Estou tentando conversar com algumas pessoas que conheço, ou que encontro, que sei que já se relacionaram com ele. Mas isso não é fácil. Como vou achar todo mundo? Impossível. O mais difícil é o silêncio da família, que, apesar de ter me contato da doença porque sabia que eu era muito amigo dele, pediram pra que eu não dissesse a ninguém. Sinto muito, mas prefiro ser visto como inimigo da família a ver outras mães perdendo seus filhos... Não é uma questão de desrespeitar a vontade da família dele, é uma questão de proteger a vida de outras pessoas, de preservar outras famílias.
Tem sido um processo doloroso lidar com a morte, pensando nele quase todos os dias... Mas vou superar isso; afinal, minha vida tem que seguir!
Bom, aos que ficaram curiosos pra saber como ele morreu: pneumonia. A AIDS se manifestou, deteriorando o sistema de defesa do organismo. Uma gripe virou algo de outra dimensão. Ficou fraco, pneumonia forte, pulmão parou...
É um sofrimento sem fim perder um amigo e imaginá-lo sofrendo com a morte que ele esperava.

4 comentários:

  1. Muito triste perder um amigo. Nem quero pensar sobre isso, mas o importante é a memória de bons momentos..força sempre

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  2. Tão sensível. bonito e triste seu relato. Bem, acompanhei tudo de perto e sei do seu sofrimento.
    Vc está correto em preservar vidas sim...Não adianta mais tentar entender tais atitudes do teu amigo, apenas respeitar. Afinal como diria Caetano - cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é...
    A morte deveria ser natural, é a única certeza da vida, contudo não é...A dor é indizivel...Compartilho da tua e tô aqui p tudo!
    beijos e adoro vc!

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  3. coloquei o link do seu blog no meu...Achei o texto de uma beleza impar, apesar de toda dor.
    Je t´aime mon ami!

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  4. oi will
    eu nao ando lendo muito os blogs, mas hj parei para olhar o da dani e o seu e vi esse post. eu lembro que pouco tempo atras vc colocou uma msg de luto no orkut.. eu imagino o qto isso tem sido dificil para vc pq tb ja perdi um amigo querido, anos atras.. ele foi assassinado e foi super repentino, obvio.. fiquei sabendo pelo jornal nacional, pra piorar.. no começo é dificil mesmo.. durante os dois primeiros anos eu pensava nele todos os dias.. aos poucos a lembrança vai esvanecendo, mas de alguma forma ela ta ali e sempre retorna.
    acho q vc faz bem em tentar avisar as pessoas com quem ele se relacionou, as vezes eles nao sabiam, assim como vc nao sabia, e isso pode ser muito ruim.. espero q nao chegue a tanto.
    bjos

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