sexta-feira, 12 de junho de 2015

O ralo



Vivia com um pavor em sua alma. Mal tomava banho, mal chegava perto da pia – do banheiro, da cozinha. Aquele monstro por onde escorria a água constituía-se como seu pesadelo atordoante, pior do que subir na roda gigante. Um redemoinho redesenhado para sua casa, para sua vida. Tudo se desfazia ali naquele instante final, a última gota de vida restante em qualquer ser se acabava naquele exato lugar. Se fechasse o olho, imaginaria o que estaria por vir e entraria em desespero. Se colocasse uma tampa, acreditava que a força da sucção seria mais forte que todas as forças que ele trazia consigo. De tudo no mundo que poderia assustá-lo, era o ralo seu maior medo, seu pior inimigo, porque o ralo seria seu fim inevitável.

Considerava o ralo o escoar de toda vida, de toda morte, de todo mundo. Se morto, enterrado, haveria algum ralo sob o solo que o levaria, aos pedaços, para o cumprimento do destino cruel. Se nadasse no mar, as águas formariam um grande redemoinho, forjariam um ralo para seu fim. Se voasse em um avião, o vento traria um grande furacão que o levaria dali. Era isso, era um fato, um destino. Se tomasse banho, aos poucos teria sua vida levada para o submundo do ralo, sua vida escorreria com a água em redemoinho que certamente se formaria. Recusava-se a dar um pouco de si a cada instante em que, ilusoriamente, pensava estar se limpando. Nessa circunstância, tomar banho não era se limpar. Lavar as mãos na pia não era se limpar. Era oferecer-se ao fim da vida, à escuridão do ralo. Esse medo ninguém lhe tirava.

O ralo era seu fim, o de todos nós, acreditava, amedrontado, amontoado no canto do banheiro, oposto ao canto do ralo, onde vagarosamente começou a cochilar, a se entregar a um sono sem fim. Ao passo em que dormia, sentia-se atraído, arrastado para o outro lado, como se fizesse uma viagem ao inferno, onde se recusava permanecer.

Num sono mais que profundo, ia sentindo a água que o afogava, deixando-o desesperado. Quando enfim conseguiu abrir os olhos e recobrar seus sentidos, ouvia vozes como que risos zombando de si. O ralo, repetia aos gritos desesperados, o ralo...

Quando abriu bem os olhos, deu-se conta de que estava em casa, debaixo do chuveiro, de bermuda, e que seus irmãos o vigiavam. Jurou para todos que era o fim que se aproximava, mas como o fim do mundo tão trágico só acontece em filmes, ninguém acreditou no que ele tinha vivenciado.


*Conto selecionado na fase municipal do Mapa Cultural Paulista 2015/2016

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