quinta-feira, 21 de abril de 2011

A impressão, a tradução e a divulgação do conhecimento

Um pouquinho da história da mídia entre a Idade Média e a Modernidade, com enfoque na atividade de tradução.

Na época em que apenas existiam manuscritos, a Igreja controlava a produção e a reprodução dos mesmos, porque tinha influência direta sobre os copistas e escribas. Aproveitando o assunto da censura dos manuscritos, vou falar um pouquinho sobre os manuscritos traduzidos no Brasil colonial. Lia Wyler, tradutora e estudiosa de tradução, em seu livro “Línguas, poetas e bachareis: uma crônica da tradução no Brasil” descreve esse ofício no Brasil colonial: “Todos os textos utilizados na evangelização, no estudo e no lazer, porém, sofriam a tripla censura instituída no império português no século XVI: a do Santo Ofício, a do Ordinário Eclesiástico na respectiva diocese e a do Paço. O relator do Santo Ofício examinava o livro em manuscrito e obrigava o autor a alterá-lo, amputá-lo ou ampliá-lo, antes de lhe conceder a fórmula: ‘nada contém contra a nossa Santa Fé e bons costumes’ (p.62). A autora continua dizendo que eventuais textos literários traduzidos na colônia deveriam ser submetidos à censura da Metrópole para serem impressos lá; ou permaneciam aqui, manuscritos, fugindo da censura, mas esses manuscritos raramente chegaram aos nossos dias.

Com o advento da impressão e a produção de materiais em larga escala, a Igreja não conseguiu mais controlar os impressores do mesmo modo que fazia antes. Por outro lado, em 1485 em Frankfurt houve um caso de censura, quando livros que seriam expostos em uma feira regional foram analisados pelo conselho municipal a pedido de um religioso. A partir disso, a Igreja criou uma lista de livros que seriam proibidos e que era atualizada sempre, valendo pelos próximos quatro séculos.

Outra consequência da dificuldade de se controlar a produção da impressão foi que Lutero se beneficiou desse novo meio durante a Reforma, já que ele traduziu suas teses para línguas vernáculas, as imprimiu e as distribuiu por toda a Alemanha e por toda a Europa.
Os livros impressos passaram a ser usados, também, para a divulgação de obras clássicas com a padronização das traduções (nos tempos dos manuscritos, os copistas faziam cópias não exatamente fiéis aos textos-base. Dessa forma, cada livro copiado manuscrito podia ter divergências de ortografia, por exemplo). Além disso, os livros impressos serviram também para difundir dados do mundo natural e desenvolver sistemas padronizados de classificação, de representação e de práticas. Obras científicas começaram a ser produzidas com a ajuda de professores universitários. Surgiram, também nessa época, obras de ciências populares, como almanaques e manuais práticos e livros de conduta. Obviamente que naquela época a educação não atingia a massa, o povo. Era restrita a uma elite clerical, política, a professores, estudantes e a uma classe social emergente. Isso não quer dizer, no entanto, que a alfabetização era exclusiva dessa elite, mas era dominada por ela. Principalmente mulheres, crianças, operários e trabalhadores rurais não especializados eram marginalizados no que diz respeito a saber ler.

No final do século XVIII, com o incentivo do ensino das ciências, com as expedições científicas, com a divulgação de enciclopédias e com a fundação da Academia Real de Ciências de Lisboa, conforme apresenta Wyler (p.73), houve um movimento nacionalista brasileiro liderado pelo Frei José Mariano da Conceição Veloso, cujo objetivo era produzir, adaptar ou traduzir obras de novas técnicas e culturas desenvolvidas em outros países e que fossem úteis ao desenvolvimento do Brasil. No entanto, como a impressão ainda não chegara aqui nessa época, essas obras eram impressas em Portugal.

Entre tais obras, estavam as que tratavam de “técnicas e culturas de várias plantas úteis, navegação, mineralogia, medicina, eletricidade, língua tupi ou nhegatu, hidrometria, gravura, botânica, zoologia, matemática, economia, política, religião e tecelagem” (Wyler, p.74). Esses livros, geralmente traduzidos do francês, inglês, castelhano, alemão e latim, eram destinados aos agricultores brasileiros. Esses trabalhos foram feitos em várias tipografias de Lisboa para depois o grupo do Frei Veloso ter uma oficina própria em Portugal, a Tipografia Catalográfica, Tipoplástica e Literária do Arco do Cego.

Eu falei sobre a produção das primeiras traduções brasileiras de livros técnicos e científicos para mostrar que o advento da impressão tornou possível o desenvolvimento dos trabalhos de tradução feitos por brasileiros – ainda que realizados em Portugal até a vinda da Corte Real ao Brasil em 1808 e a consequente instalação da Impressão Régia por aqui. Lembrando que, antes desses tipos de textos, já eram traduzidos assuntos educacionais, burocráticos e principalmente religiosos. Além disso, como eu já citei acima, a impressão foi muito útil para a unificação das traduções, uma vez que não eram mais os copistas os responsável pela reprodução dos livros.

Eu fiz uma abordagem da relação entre a impressão e a tradução, mas é possível descrever também o que o John B. Thompson fala sobre a impressão e o desenvolvimento da economia em seu livro "A mídia e a modernidade: uma teoria social da mídia". O autor diz que as máquinas de impressão movimentaram a economia no fim da Idade Média e começo da Idade Moderna. Além disso, a indústria gráfica fez surgir novos centros de poder que não estavam ligados ao poder da Igreja ou do Estado, embora estes útimos procurassem usá-la em seu benefício.
 
Outro aspecto econômico do desenvolvimento gráfico foi o seguinte: quem tinha dinheiro editava, imprimia e vendia livros. Quem não possuía recursos financeiros suficientes para isso, fazia empréstimos ou trabalhava para a Igreja ou para o Estado (o uso da impressão em benefício da Igreja e do Estado há pouco citado, já que era conveniente para estes manterem a impressão a seu serviço, tanto quanto para os impressores sem recursos manterem seus negócios). Essa relação próxima entre religião e política se deu, também, pelo interesse na venda de formas simbólicas que só a impressão podia oferecer, e que fizeram estreitar ainda mais essas relações. Esse interesse na forma simbólica oferecida pela impressão se dava porque as tiopografias e editoras do inícia da Idade Moderna eram de organizações culturais e econômicas, como observou Thompson. Desse modo, desvinculadas do poder eclesiástico e governamental, essas instituições gozavam de certo prestígio e influência social, sendo relativamente "independentes" e "neutras" por não representarem nem o Governo nem a Igreja.

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