quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Minitextos sobre a vida


Olhar que atravessa a pupila, que ultrapassa a íris, que vai além da retina. Olhar sem o olho que vê, mas olhar diferente, como sentir sem o toque...


1- Rir de tudo é desespero

Rindo da vida o tempo todo, Mateus não consegue parar e pensar em nada de sério. Não quer. Porque pensar seriamente sobre a vida lhe trará certezas que ele prefere evitar; a verdade sobre si mesmo é demasiadamente deprimente, uma repetição, assim, do vazio, um eco ininteligível. Rindo, ele consegue não ser o que não querem ver. Sofrendo com toda mentira, não se importa com a verdade. Pensa que não. Mas é tudo sobre a verdade. O tal do sentido que se busca na vida é quase uma piada. Daí tantos risos de desespero, de melancolia. Mateus não sabe que o sentido é o que ele mesmo dá para seus atos, mas acredita que deve haver um sentido extraordinário que todos sabem qual é, menos ele. E viver sem o sentido da vida é viver rindo o tempo todo. Uma alegria forçada, uma mentira de verdade. Mateus vive a promessa de saber por que ri, de saber que ri de uma felicidade consciente. Vive numa tristeza clandestina, sob os escombros de um ideal que não entra em sua mente. Não importa nada do que ele faça, continua sem saber o porquê disso tudo, e ter apenas a incerteza como única certeza é não conseguir ser. Uma existência em pó é o que lhe sobra. Um pó que se une, esfumaçando uma tentativa de vida, mas que se desfaz com tão pouco, não restando forma capaz de ser, ou parecer.


2- Um desejo

A mão se aproxima da mesa. Fixo o olhar nos detalhes, nos dedos, nas unhas. Pintas, manchas. Uma cutícula fora do lugar. As dobras dos dedos enrugadas, as unhas irregulares. Ela se aproxima da mesa e eu olho sem parar, sem querer. A mão, que afaga, que seduz, que me chama. Ela se mostra tão macia, carinhosa, caridosa. A mão me convida para o mundo, me puxa para conhecer seu braço, seu ombro. Me liga ao corpo. Aquele corpo sustentado pela mão. Mas não posso fazer nada, preciso de ética, fazer a mão assinar o contrato. Segura o papel, o indicador acompanha a leitura das linhas, volta para reler uma frase. Essa mão devia ler e reler meu corpo. Minha face. Meus cabelos. Puxa meu queixo para cima, provocando um beijo. Puxa meu rosto para perto do seu, segurando meus cabelos com firmeza, a mesma da língua que me beija. Enquanto as línguas se entrelaçam, nossas mãos que estão livres fazem o mesmo. Estamos presos pelo cabelo/mão, língua/língua e mão/mão. Só nos falta enroscar os sexos. Interrompe o meu pensamento: onde eu assino?


3- O alívio da vida

João e sua irmã, Maria, andam juntos pela rua, no caminho de algum lugar. Conversam sem parar, falam de programas de televisão, de cinema, de música. Discutem sobre as melhores bandas, as melhores cenas, os melhores shows. Melhores para um, piores para o outro. Tão próximos e tão diferentes. Irmãos. Começam a se desentender em alguns pontos, irmãos sempre se desentendem, brigam. Andam pela calçada, passam em frente a uma casa, ao lado de um terreno vazio. À noite, um terreno escuro, nem há poste perto para iluminá-lo. Os irmãos seguem a discussão enquanto passam por esse terreno e, num momento só, um motociclista chega perto deles, mantém a moto ligada, aponta uma arma para o irmão e dispara duas vezes: uma em casa lado do peito. O mundo parece assustador, a morte tão próxima, como seria morrer? Um medo do depois consume o irmão, ferido, baleado. Onde está minha irmã? Sumiu. Não há mais ninguém no mundo, apenas o tiro disparado que parece ecoar sem parar pelo terreno vazio, que de tanto eco, enche-se de dor. Um sobressalto só. Os olhos do rapaz abrem-se. Tudo escuro, sob o edredom. Pensa: não posso me mexer, levei dois tiros. Apenas os olhos se movem nesse instante, quando dá conta de que acabou de sonhar. Um alívio. O dia ainda será cheio de vida.

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