domingo, 2 de junho de 2013

Muro do coração


Na correnteza da chuva, corria a tristeza de tudo que se perdia naquelas águas turvas e tortas. A chuva levava tudo embora, a paz, a alegria, o samba que ia surgindo no quintal, a roupa que secava no varal, a mochila das crianças que acabaram de chegar da escola, e as meias que estavam a secar no muro, que dividia não apenas os vizinhos, mas que compartilhava a segurança a que se propunha. E segurar as águas da chuva não era a obrigação daqueles tijolos sobrepostos. Águas para conter? Não era essa a função do muro. Ele segurava o que lhe cabia, mas não podia salvar vidas contra a correnteza que invadira todas aquelas vidas.
Às vezes o coração tem dessas coisas, nos deixa desprotegidos das correntezas inesperadas.

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