quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Ser humano: sociabilidade e razão

"O ser humano não é uma abstração e isto é fato. Gostei muito deste artigo do meu querido amigo Will e quero compartilhá-lo com vocês! É sempre bom refletir no que exatamente nos torna humanos e até que ponto a socialização contribui com isso. Acredito q vale a pena ler. beijocas da Dani"
O ser humano só é um humano quando está entre outros humanos


 O que faz o ser humano se definir como ser racional, como ser social, como não selvagem é sua relação com os outros humanos em sociedade. Só há sociedade se houver limites, acordos para as relações não serem uma bagunça. E o que seria essa “bagunça”? Uma desorganização cultural, que acabaria em uma desorganização econômica também. A constituição da cultura só é possível por meio da racionalidade inerente à natureza humana, juntamente com sua capacidade de organização social.
Se os humanos fossem racionais apenas, agiriam de acordo com as leis naturais apenas, seguindo sua natureza. Mas somos mais que naturais, somos sociais também. Nesse ponto podemos identificar a liberdade natural do ser humano, ao submeter-se às leis da natureza, e a liberdade social, que é a sujeição da pessoa humana ao que foi estabelecido socialmente, em conjunto.
O ser humano, ao organizar-se em sociedade, tem a capacidade de formar instituições, de estabelecer limites sociais para as ações naturais, evitando que cada pessoa aja por si, em sua causa; há instâncias do estado, por exemplo, que ditam regras a que todos devem submeter-se para viverem em igualdade de direitos.
Imaginemos uma pessoa que não vive entre humanos, que vive na selva com outros animais. Ela seria humana? Sim, seria uma pessoa. Mas como agiria? Como ser humano? Falando, escrevendo, organizando a sociedade? Comendo à mesa, usando o banheiro? Certamente, agiria como os outros animais com que vive. Teria a capacidade de agir humanamente latente, porque ainda seria racional. Mas sua sociabilidade não estaria evidenciada por viver apenas entre os irracionais. Nietzsche inicia “Assim falava Zaratustra” com um exemplo dessa insociabilidade a que nos referimos: o personagem principal, que dá título ao livro, é um questionador da cultura e da civilização, passa dez anos longe de contato com outras pessoas, longe das relações humanas e, principalmente, de seus males. A partir dessa experiência, eu digo: fugir dos “males” da humanidade, isolando-se, é fugir da própria humanidade, é negar sua natureza, sua racionalidade, sua sociabilidade, sua existência, enfim. Como ser humano negando suas características? Transformando-se em outro animal, em outro ser? Autodenominando-se não mais como humano? Mas a denominação não é uma ação que podemos fazer, nós humanos, exatamente por sermos humanos e capazes de produzir a linguagem que denomina as coisas? Enquanto todos os outros animais são incapazes de produzir linguagem como os humanos, nós promovemos a interação social por meio dessa ferramenta significativa.
Para o filósofo Locke, tenho acesso, por exemplo, à ideia de “casa” de forma imediata, direta na minha mente. Por outro lado, acesso a “casa” do mundo real de forma mediata, mediação feita pela ideia de casa. Esse filósofo funda a filosofia contratual, que embasa a filosofia política – trata de pactos, fazer um pacto é trocar ideias e, em última instância, ter ideias é ser racional, e a racionalidade é a capacidade de operar tais ideias. A linguagem é a exteriorização do nosso pensamento – precisamos da linguagem para nos comunicar, exatamente porque somos racionais e sociais e, por isso mesmo, nos relacionamos enquanto sociedade.
A partir disso, podemos dizer que “o ser humano só é um humano quando está entre outros humanos” por conta de sua natureza de sociabilidade e de sua razão. O ser humano faz contratos, impõe limites, ele significa, mas só consegue construir isso tudo na relação com outras pessoas, vivendo em sociedade, e não isolado de seus semelhantes. Ele é mais que natureza: o humano constrói sociedades e culturas.

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