sexta-feira, 3 de junho de 2011

Último suspiro

Passava pela rua de cima, diferente da que costumava ir para casa, porque recebera uma carona até ali perto. No segundo quarteirão, viu um jovem sentado na calçada, de frente para um terreno baldio, soluçando de tanto chorar. O homem parecia muito abalado. Não costumava ser um cara que se preocupava tanto com os outros, não excessivamente, não era ligado em direitos humanos, em lutas coletivas, mas teve um estalo e resolveu intervir:
-Ei, moço, o que você tem? Está passando mal? - perguntou, meio timidamente.
-Não se preocupe. Estou bem. - disse o homem, soluçando, olhando para cima para ver quem o interpelava.
-Me conte o que aconteceu. Por que você chora? Parece tão transtornado!
-É difícil você se tornar invisível, ninguém pra saber da sua vida, se está tudo bem, se quer sair pra conversar. Não dá mais pra continar nessa vidinha. Nem vidinha posso chamar esse vazio...
-Mas você tem que aguentar, tem que superar toda essa tristeza. - insistia, agora sentado ao lado do homem na calçada.
-Eu não consigo me imaginar mais assim. Não sou apenas triste, vivo na solidão. Chega uma hora que a gente cansa de chorar sozinho...
Chorou sua solidão nos ombros daquele que o ouvira por dois minutos, mas que representava tanto tempo, tão longo tempo na sua tristeza... Suspirou e sua alma finalmente teve um último momento de vida. Era o fim de sua tristeza e de sua solidão. Na hora da morte, encontrou sua última conversa.


PS: a título de curiosidade, este texto foi escrito do fim pro começo, eu comecei com o último parágrafo até chegar ao primeiro. Depois só fiz uns ajustes. Foi um exercício bem legal.

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