sábado, 26 de março de 2011

O poder da escrita

Vou reproduzir um texto que escrevi num curso de extensão que estou fazendo online pela UNESP de Marília.  O breve comentário refere-se ao prefácio, capítulos 2 e 3 do livro "História da Escrita", de Steven Roger Fischer. 

Na página 10, o autor Fischer diz que “a escrita se torna a mais moderna máquina do tempo”. Ele está se referindo à possibilidade de podermos reler o que já foi escrito, à possibilidade de sabermos da nossa história com a leitura que os antepassados nos deixaram. Podemos entrar nessa “máquina do tempo” a qualquer momento e saber o que aconteceu no instante em que um texto foi escrito, porque ele é, por si mesmo, a descrição do que procuramos. Entretanto, um texto escrito tem muito das impressões de quem o escreveu, tornando-o pessoal e mostrando um ponto de vista particular. Assim, podemos, muitas vezes, ter acesso a algo da história cujo narrador/escritor pode não mostrar todos os lados da moeda. Na continuação do texto, Fischer diz que “a escrita continua sendo um artifício, um instrumento imperfeito aparentemente modelado, ainda que à primeira vista para reproduzir a fala humana”. Acredito que a escrita não tente reproduzir apenas a fala humana, mas sobretudo o pensamento. Talvez nem a fala consiga reproduzir fielmente o que temos em mente. Falar e escrever são formas distintas de uso da linguagem. Algumas pessoas tem dificuldade em articular a escrita de textos, mas conversam bem.
A escrita é um meio de se comunicar, como a fala. No entanto, o que escrevemos pode ser acessado novamente, ao passo em que a fala acaba no seu instante de produção, a não ser que seja gravada, claro! E é essa característica de reler que faz da escrita uma máquina do tempo: reler é recontar a mesma história várias vezes.
A escrita usando papiro, argila ou pergaminho remonta aos mais antigos registros que conhecemos do seu uso. Atualmente, escrevemos sem tinta e sem papel. Fischer faz uma descrição poética do uso dos computadores: “tinta eletrônica sobre telas de plástico, finas como papel”, e segue dizendo que “a escrita muda à medida que a humanidade se transforma. É uma dimensão da condição humana”. Por isso mesmo, enquanto sociedade que vem se desenvolvendo ao longo de séculos e milênios, a humanidade cria novas tecnologias para suprir novas necessidades. O próprio Fischer reconhece que a escrita era “considerada o caminho para a sabedoria” e que era a “ferramenta perfeita para a ascensão social” por representar a ideologia de um grupo.
Assim como o texto de Fischer cita os diferentes sistemas de escrita, logografia, silabografia e alfabeto, a língua portuguesa, especificamente, teve três períodos de desenvolvimento da escrita: o período fonético (ou arcaico, quando do surgimento da língua portuguesa, do século XIII até metade do século XVI, aproximadamente, em que se escrevia consultando o ouvido, se escrevia como se ouvia, mas sem nenhuma normatização), o pseudo-etimológico (erudição, aproximação da escrita greco-latina, mas também sem nenhuma normatização) e o etimológico (o português normatizado que usamos atualmente, desde 1904, tendo sofrido poucas alterações desde então).
Durante muito tempo a escrita ficou restrita a pequenos grupos, a uma elite de ricos e poderosos. Com o tempo, passou a ser usada por todos, porque era mais fácil uma elite dominar um povo se todos se comunicassem uniformemente. Além disso, com o advento da escrita, o domínio pôde ser mais fácil para além das fronteiras internas, com a imposição da cultura dominante. Pensemos no que os jesuítas portugueses fizeram com os índios no Brasil: alfabetizaram quem não usava a escrita como prova de domínio. Outro exemplo: A cultura literária e científica ficou muito restrita aos clérigos durante um longo período em Portugal, especialmente durante a Idade Média, tendo sido disseminada nos conventos, como o de Alcobaça, a maior livraria medieval portuguesa. Até o século XIII, apenas nesses conventos havia a produção de manuscritos, único meio de reprodução dos livros antes do surgimento da imprensa, e esses documentos eram restritos apenas aos estudiosos desses lugares.
Nesse momento histórico em que o latim era a língua das literaturas, aprendido principalmente pelos clérigos e usado por eles na transmissão de seus ensinamentos e valores religiosos, a formação do reinado português, com todas as mudanças sociais, políticas e culturais instaladas, foi determinante para o surgimento de uma literatura de ambiente citadino, inspirado pelo espírito antifeudal e anticlerical. Diante disso, a Igreja resolveu escrever e divulgar seus textos nas línguas regionais para, a todo custo, custo levar seu conhecimento antes destinado apenas aos clérigos, à população leiga. Foi a massificação do conhecimento religioso que arrebanhou novos fiéis, dando nova dimensão para a Igreja Católica na Idade Média. Livros e mais livros passaram a ser traduzidos, dando trabalho a muitos copistas, que eram responsáveis fazer cópia dos livros, já que naquela época não havia a imprensa. Algo interessante para se observar nessa questão dos copistas é que houve cópia de textos escrita com mudanças na grafia de várias palavras, porque nessa época ainda não existia uma ortografia, uma norma de escrita. A título de curiosidade, o primeiro trabalho organizado que descreve a ortografia da língua portuguesa foi publicado em 1904 por Gonçalves Viana: Ortografia nacional.

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