quinta-feira, 3 de março de 2011

Sonhos e frustrações de uma mocinha

Eu queria ter a sorte de encontrá-lo na rua. Aquele moço bonito que conheci outro dia, assim, sem querer. Nessa andança todo dia na hora do almoço, no caminho para o restaurante. Às vezes vou para uma lanchonete ou para um café. No caminho vejo tantas lojas que chamam a atenção - ou pela cor da vitrine ou pela bagunça que se mostra! Eu queria ter dinheiro para fazer esses móveis planejados. Como os da vitrine. Ficariam perfeitos na minha nova casa. Fui sorteada no programa do governo. Ganhei uma casa. Não ganhei, porque vou pagar, mas ganhei o sorteio. Terei que pagar pela casa! Com prazer. E com meus móveis planejados... Ficará linda...
Passando na frente do laboratório, fiquei com medo de pegar o exame. Transei com o ex várias vezes sem camisinha. Deu até um arrepio agora. Grávida não estou, porque tomo pílula. Pelo menos. Amanhã penso em retirar esses resultados. Não quero ser sorteada nesse exame! Esse não é o tipo de sorteio que nos dá prêmios. Na verdade nem é um sorteio. É uma escolha - não escolhemos a contaminação, mas escolhemos a não prevenção... Caso sério, vive dando na TV, o Ministério da Saúde sempre fala pra usar camisinha... Mas a gente é boba, acha que aqueles homens lindos são imunes a todo mal, inclusive dessas doenças. Eles nos enganam, ou nós nos enganamos, com tanto elogio, tanto amor que nos mostram... Só depois descobrimos que são sem-vergonhas, que querem apenas nos levar pra cama, sem amor, sem roupa, sem nada. Nem com a camisinha. Eles nos ganham com um papo que nos faz sentir deusas, as mais belas, lindas e gostosas. Gostosas. Aí traçam, comem, devoram. Nosso sexo, nosso corpo, nossa alma. Lá se vai toda nossa saúde. Sem camisinha. Lá se vai a esperança de comprar os móveis planejados. Sem dinheiro, sem vontade de viver. Não vou mais procurar as vitrines depois de adoecer. Condenada. Chega com essas ideias. Deixa eu ir almoçar. Amanhã vejo o resultado do exame.

Um comentário:

  1. Q lindo texto, meu amigo! Me comoveu...Lembrou-me aquela tarde no café do feirante, onde relatei minha taquicardia ao encontrá-lo no almoço e as chamadas no telefone não respondidas, mas não porque eu não queria atender, porque não conseguia. Texto belo...me vi nas entrelinhas.
    Poeta. bjos

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