sábado, 6 de agosto de 2011

Código do Dinheiro dos Capitalistas


Sim, vocês leram certo: o Código de Defesa do Consumidor é rasgado na sua cara e dá lugar ao Código do Dinheiro dos Capitalistas. Se você tem direitos e não os conhece, deveria procurar se informar! O que vou contar agora aconteceu comigo dia 06/08/2011 na loja Pernambucanas em Marília-SP.

Fui com minha mãe comprar 2 aparelhos de celular para usar a operadora Vivo. Encontramos os modelos que procurávamos e fomos pagá-los no caixa. Enquanto a caixa passava os códigos de barras, víamos no monitor um valor 10 reais menor. Então minha mãe disse que estava sendo cobrado a menos. Foi quando a moça passou outro código de barras e o primeiro celular estava faturado com o 10 reais que faltavam. Qual não foi nossa surpresa quando a descrição do produto foi o Chip da operadora. Assim compramos os dois aparelhos. Eu questionei a moça do caixa se não dava para excluir os chips, porque só queríamos os aparelhos, ao que ela respondeu que ela só cobrava o que a vendedora lhe passava. Então minha mãe foi falar com a vendedora e ouviu a resposta de que só poderia vender assim. Quando perguntamos o valor do celular, na vitrine, a vendedora não havia nos informado que estava embutido o preço do chip de 10 reais. Não havendo meios de não comprar os chips, pagamos o valor cobrado.

Na hora de retirar a mercadoria, a atendente nos assediou. Explico: ela nos disse que precisaríamos fazer uma recarga em no máximo 2 horas para validar os chips, se não seriam cancelados automaticamente, e sugeriu, enfática: ‘se vocês quiserem, a gente faz a recarga aqui, agora, mas não se esqueçam, em 2 horas os chips serão cancelados!’ Além de eu não querer comprar os chips, depois de tê-los pagado ainda corria o risco de perdê-los (lembrando que duas recargas de 12 reais somariam mais 24 reais à compra). Eu perguntei: ‘mas se eu não fizer a recarga em 2 horas perco os chips pra sempre e tenho que jogá-los fora?’ Ela disse: Sim. Eu fui embora sem fazer a recarga.

Bom, eu não sou tão ignorante sobre meus direitos como consumidor, e achando a história muito estranha, resolvi tirar isso a limpo. Me dirigi a uma loja própria da Vivo e confirmei o que já desconfiava: o que a vendedora de celular tinha dito era mentira. Foi essa palavra que ouvi da atendente da Vivo: MENTIRA. Ela me disse que eu poderia ficar até uns 3 meses sem ativar o chip e, mesmo que tivesse algum problema depois desse período, bastava ir à loja e reativar o número.

Fiquei mais nervoso ainda e voltei na Pernambucanas. Disse para a vendedora que tinha falado na loja da Vivo e que a informação que ela tinha me passado era mentira. Acrescentei, ainda, que ela estava me pressionando para fazer a recarga pra ela ganhar comissão, além de ter feito uma venda casada com a inclusão do chip. O que eu ouvi da vendedora? ‘A gente tem que ganhar dinheiro’. Perguntei o nome do gerente e ela me disse que não sabia. Eu perguntei como ela não sabia o nome do gerente dela, e então ela me disse o nome. Fui procurar o fulano, mas me orientaram a falar com o gerente do setor de eletrônicos. Foi o que fiz. Contei para ele o que tinha acontecido, disse que aquilo era ilegal, que eu estava sendo assediado, que eles não poderiam nem ter feito a venda casada, nem me passado informações erradas sobre a recarga apenas para me obrigarem a fazê-la ali (para quem não sabe, as empresas que vendem aparelho de celular ganham comissão pela ativação de linhas. Daí a venda casada do chip e a insistência para eu ativar o chip na hora. Além disso, ganham comissão sobre a venda de créditos). O gerente me deu razão, disse que realmente o prazo não era de 2 horas, que a vendedora deu informação errada e frisou que as vendedoras de celular não são funcionárias da loja (isso não é problema meu, pois comprei dentro da loja o aparelho). Então, ele disse que eu poderia devolver os chips, já que estavam lacrados, e que poderia escolher outra mercadoria no valor de 20 reais. Resolvido isso, comprei outra mercadoria e fui embora.

Agora fico pensando: e os 99% que aceitam o chip na compra do aparelho e que ainda ativam o número no mesmo momento sob ameaça de ter o chip – muitas vezes desnecessário, porque pode ser apenas uma troca de aparelho e a pessoa vai continuar usando o mesmo chip que já possui – cancelado? Essa maioria paga por um produto que não usa e nem se dá conta de que está sendo enganado. Hoje eu disse ‘basta’, e espero que isso sirva de exemplo e fonte de informação para todos os demais consumidores.

Sei que a Pernambucanas não é a única loja que deve fazer isso. Sei também que a vendedora deve vender, cumprir ordens e bater meta para garantir o salário dela. Mas daí enganar os consumidores... Aqui não!

William Lima
Marília-SP

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Por isso

Por essa artéria que irradia algum sentimento. 
Por todo esse sangue esnobe que tenta se manter quente.
Por esse ar que se ajeita para chegar ao pulmão, que se ajeita para sair de lá.
Por essa cor que ouço com o olhar, por essa música que tateio com os tímpanos.
Por esse cheiro iluminado de uma vontade desejante.
Por esse caminho todo que transfigura minhas imagens (re)criadas, (re)formadas, (re)feitas.
Por essa mistura (in)advertidamente mandando nos meus impulsos.
Por essas coisas todas, por esses medos todos, por essas desavenças todas, por essas muralhas todas à minha frente, por essas confluências todas.
É por isso que eu te amo!!!

domingo, 26 de junho de 2011

Me liga!

Após o sinal, deixe seu recado.

-To na rua tomando uma cerveja e me pergunto por que to pensando em você e te ligando agora. Acho que to a fim de você, mas nem sei mais o que fazer com isso dentro de mim. O máximo que consigo de você é um "quem sabe né". Fazer o quê? Esperar um amor pra me aquecer no inverno recém-chegado. Nem sei mais se devo pedir pra você me retornar essa ligação... Já pedi tantas vezes pra te ver, e você nem aí pra mim. "Vamos sair qualquer dia" é outra constante nessa inconstância que vivo louco por você. Eu sempre espero esse dia qualquer chegar, esse quem sabe ser conhecido. Esperar... Apostar... Conquistar.... Não sei como posso te conquistar, o que tenho que fazer, desaprendi essas coisas, sei lá. Você não ajuda, não dá uma dica, não me diz se realmente ta a fim de mim ou não... Você está saindo com outro cara e ta me enrolando, me mantendo como step caso algo não dê certo por lá? Ou apenas não tem pressa que as coisas aconteçam? Ou apenas não sabe o que quer da vida? Ou não sabe se de fato eu te interesso? Ah... Tudo bem, vai, vou deixar de ser tão chato e pegar no seu pé assim, estou me irritando comigo mesmo. Mas é que sua evasividade me deixa transtornado, aí eu bebi e como to sempre pensando em você, resolvi te ligar. E aí, mais uma vez, não te consigo, falo dessa vez na caixa postal. Ontem eu falei pro vento... 

Atenção: seus créditos acabaram! Faça uma recarga pra continuar falando.

domingo, 19 de junho de 2011

Pelo menos...

E o meu coração? Nem sei mais dele, viu. Mas ainda bate... Pelo menos parece. Acho que sim, se não, não estaria dizendo isso, né?! Sem sangue quente nas veias, nas artérias, correndo pelo corpo, o que somos todos? Nada, a não ser um monte de carne sem vida, abatida... Ok, meu coração ainda bate. Meus olhos ainda veem. Estou tendo uma visão. Estou vendo mesmo? Acho que alucino. Vejo meu celular com as luzes acesas, como se alguém me ligasse. Olho de novo, de perto. Era uma errada impressão que tive. Uma visão do futuro? Alguém vai me ligar? Ou uma memória apenas? Não toca mais esse aparelho, e talvez não deva tocar logo. Então deve ter sido uma memória mesmo, já que ele já tocou várias vezes... Nossa, meu coração é como meu celular? Não, porque meu coração ainda bate, biologicamente bate... Meu celular não tem veias... Vi as luzes novamente. Outra visão. Memória, melhor dizer. Ou seria uma vontade? Vontade de receber uma ligação. Mas e o meu coração nisso tudo? Ah... Já que ele 'pelo menos' bate, que meu celular pelo menos toque! Afff... Que triste isso. Será que 'pelo menos' estar vivo é algo bom? Não quero viver com tão pouco... Quero meu coração bombeando amor por todo meu corpo!

domingo, 12 de junho de 2011

Amor caliente

-Já pensou se um dia você conhecesse um estrangeiro, um francês? Assim do nada, cruzando a rua?
-Hahahahaha Claro que já pensei. Queria cruzar com aqueles atores de Hollywood... Ai, ai...
-Não to falando desses... To falando de um desconhecido. Nem precisa ser bonitão. Mas já se imaginou esbarrando com um desses?
-E por que tem que ser de outro país? Ta... Eu cruzo com um estrangeiro, a gente se olha, se apaixona e se beija. E depois? Eu não falo francês. E se ele não falar português? Como faremos?
-Ai, entra num curso, mulher... Sei lá... Aprende a língua do amor!
-Minha filha, presta atenção: a única língua que quero aprender é a desse francês no meu corpo se eu cruzar com ele na rua. Mas se não for ele, pode ser outro. Hahahahaha.
-Nossa, eu falando de amor e você pensando em sexo!!!
-Hahahahaha. E você acha que o amor vai existir sem sexo? Eu ia falar só com a velhice, mas estaria errada. Nem na terceira idade o sexo acaba!
-Que horror, falando dos velhinhos.
-Ai, para com isso hem... Ou você acha que os idosos pararam de viver?
-Ai, não é isso, eu só acho que...
-Ai, não diga asneira hem... O amor não se reduz apenas a sexo. Não é isso que eu quis dizer. Mas é inegável que amor e sexo tenham tudo a ver. Quer dizer, quando você faz sexo com amor é bom. Mas você pode transar sem gostar, sem se apaixonar pela pessoa, e ter momentos de muita felicidade. Hahahahaha.
-Nossa, será? Não consigo me imaginar na cama com um homem sem estar namorando, ou casada. Sei lá. Não me imagino saindo com um desconhecido.
-Hahahahaha. Mais um motivo pra sair. Assim, na cama, você o conhece melhor. Quem sabe depois dessa transa descompromissada não role novos encontros e um namoro?
-Olha o que você está me dizendo: pra sair com um desconhecido, transar com ele e depois ver o que acontece!!! Que horror!!!
-Horror nada. É algo natural. Você tem um corpo, o cara tem outro. Dá pra encaixar tudo, gozar e ser feliz!!! Ou você acha que vai namorar dez anos e se casar? E se quando finalmente for pra cama com ele perceber que não é o que esperava? Vai resistir em nome do amor?
-Ai, você está complicando demais as coisas. Eu só pensei num amor estrangeiro, repentino, bonitinho...
-Ah, 'bonitinho'? Não quero um amor bonitinho. Quero um amor de verdade, inclusive sexualmente verdadeiro. Eu me entrego toda, me derreto na cama pro meu amor, mas ele tem que dar conta hahahahaha.
-Ai, como você ta fogosa hoje hem...
-Acordei realista demais, só isso. É que, já que não consigo namorar, quero pelo menos ser feliz no sexo! O que tem isso de tão fora da realidade?
-Não é ser ou não real. É que não consigo me ver numa relação casual como essa que você sugere...
-É porque você nunca sentiu um prazer gostoso de ser tratada como mulher de verdade.
-Eu vou sentir esse prazer de ser bem tratada quando achar o homem certo...
-Pelo jeito, o homem certo vai trabalhar enquanto você fica em casa cozinhando, não?!
-Não sei como vai ser meu casamento, mas cozinhar é normal.
-Tanto quanto fazer sexo, amiga!!!
-Ai, chega desse assunto, vai...
-To adorando a conversa...
-Eu não, por isso vou embora. Depois nos falamos. Tchau.
-Ok... Tchauzinho!

E a amiga dita 'certinha' foi embora pensando com seus botões e toda molhadinha:  "Como essa vaca consegue ser tão feliz e eu me prendo tanto? Como seria esse sexo casual?"

Você

Ouço sons
Suaves sinais
Soando saudosos.
Saudades suaves.
Sons saudosos.
Ouço sinais
Soando suaves.
Sons saudosos
Soando sinais.
Suaves saudades.
Ouço o sopro.
Sua saudade.
Sinto você...

PS: não tenho a quem dedicar essa poesia, que escrevi alguns anos atrás. Mas fica pra tod@s @s apaixonad@s de hoje. Feliz dia dos (sem) namorados.

sábado, 11 de junho de 2011

Dia dos (sem) namorados

-Queria passar o dia dos namorados sem medo...
-Mas do que você tem medo?
-De passar o dia dos namorados sempre assim. É sempre o mesmo medo.
-Mas isso que você sente é medo mesmo?
-Você quer filosofar sobre meus sentimensos? Eu chamo isso que sinto de medo. Talvez seja apenas uma vontade de não estar sozinho. Talvez seja a solidão gritando dentro de mim, se impondo. Talvez eu queira seguir um roteiro de filme: sofrer, lutar, amar, ser feliz pra sempre... É até engraçado (se é que se tem graça nisso mesmo), mas eu queria ter mais segurança dentro de mim, ser mais confiante, menos arrogante. "Valorize quem está ao seu lado" é balela isso. Não consigo enxergar ninguém aqui perto. Se você souber de algo, me avise por favor.
-rsrs Dramático!
-Agora o nome do meu sentimento é drama? Hahahahaha Você tem que se definir, porque está me arrumando zilhões de definições, mas está meio perdido nas suas...
-Agora você me confundiu.
-E você, não tem essa vontade de ter alguém por perto também?
-Claro que sim, mas não tenho pensado muito nisso. Quer dizer, pensar eu penso, mas tenho me ocupado com outras coisas pra não dar tanta atenção a esse assunto.
-Mas por que foge de si mesmo?
-Porque eu sei o quão importante isso é pra mim, e como estou sozinho, não quero sofrer em dobro: pensar em estar com alguém e aceitar minha solidão. Prefiro me ocupar com outros pensamento.
-Ocupar-se com outros pensamentos... Sei. Isso é o que você está me dizendo, é o que diz para os outros. Mas o que pensa pra si mesmo é isso também?
-Agora você que quer filosofar sobre minha vida?
-A gente está conversando, não?!
-É...
-Levanta a cabeça, vamos continar o papo. Pra que devemos fugir de nós mesmos? Não quero continuar me trancando no quarto. Quero ser eu mesmo o tempo todo. Com ou sem medo. Com ou sem alguém...
-É... Mas é difícil aceitar a vida que eu levo. É difícil ser aceito assim. Em todo lugar que vou tem gente acompanhada. E eu sempre sozinho. Ninguém fala nada, mas sinto olhares...
-Você e seus sentimentos, hem...
-rsrs Eles me encaram. Os meus sentimentos, quero dizer.
-Hahahahaha. Eles sempre estão conosco, se você não "sentiu" ainda...
-Engraçadinho!!!
-Mas é verdade.
-Eu sei que é verdade.... Infelizmente o medo de ficar sozinho todo dia dos namorados ainda está comigo. Talvez porque eu esteja sozinho este ano de novo.
-Você está sendo radical. Se estivesse com alguém, teria outra reclamação, tenho certeza!
-Pode ser, mas preferiria ter outra reclamação, porque a mesma todo ano me deixa com mais medo. Hahahahaha. Seria bom variar os sentimentos, se não, quando enfim estiver com alguém, não vou saber como agir.
-Você tem razão. Hahahahaha
-Viu, agora estamos até rindo.
-Nem todo sentimento tem que ser negativo o tempo todo.
-Obrigado pela conversa, mas estou no meu horário.
-Foi bom te encontrar aqui no Café.
-Nem perguntei seu nome...
-Você está sempre por aqui esse horário?
-Algumas vezes na semana. E o seu nome?
-Em alguma dessas vezes eu te conto. Pra que saber tudo num dia só?
-É o medo de ficar sozinho...
-Não tem jeito, hem... Viva outro sentimento um pouco. Tenho que ir agora.
-Até mais! Vou deixar o medo pra lá e viver meu desespero, então!

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Último suspiro

Passava pela rua de cima, diferente da que costumava ir para casa, porque recebera uma carona até ali perto. No segundo quarteirão, viu um jovem sentado na calçada, de frente para um terreno baldio, soluçando de tanto chorar. O homem parecia muito abalado. Não costumava ser um cara que se preocupava tanto com os outros, não excessivamente, não era ligado em direitos humanos, em lutas coletivas, mas teve um estalo e resolveu intervir:
-Ei, moço, o que você tem? Está passando mal? - perguntou, meio timidamente.
-Não se preocupe. Estou bem. - disse o homem, soluçando, olhando para cima para ver quem o interpelava.
-Me conte o que aconteceu. Por que você chora? Parece tão transtornado!
-É difícil você se tornar invisível, ninguém pra saber da sua vida, se está tudo bem, se quer sair pra conversar. Não dá mais pra continar nessa vidinha. Nem vidinha posso chamar esse vazio...
-Mas você tem que aguentar, tem que superar toda essa tristeza. - insistia, agora sentado ao lado do homem na calçada.
-Eu não consigo me imaginar mais assim. Não sou apenas triste, vivo na solidão. Chega uma hora que a gente cansa de chorar sozinho...
Chorou sua solidão nos ombros daquele que o ouvira por dois minutos, mas que representava tanto tempo, tão longo tempo na sua tristeza... Suspirou e sua alma finalmente teve um último momento de vida. Era o fim de sua tristeza e de sua solidão. Na hora da morte, encontrou sua última conversa.


PS: a título de curiosidade, este texto foi escrito do fim pro começo, eu comecei com o último parágrafo até chegar ao primeiro. Depois só fiz uns ajustes. Foi um exercício bem legal.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Entulho Humano

O Bicho

(Manuel Bandeira)
Vi ontem um bicho
Na imundície do pátio
Catando comida entre os detritos.
Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.

O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.

O bicho, meu Deus, era um homem.



Do Antônio Mello: Entulho Humano

A foto acima foi tirada em Ipanema/RJ dia 23/04/2011 e divulgada pelo Twitter do @blogdomello e no Blog do Mello

Famílias saem do armário

Mais que novo direito, unanimidade no STF é recusa a uma discriminação injusta, diz pesquisadora

Debora Diniz – O Estado de S.Paulo

Imagine um juiz da mais alta corte do País proclamar que “sexo não é uma reprimenda dos deuses frente ao gênero humano, mas um regalo da natureza”. Ou que “pertencer ao sexo masculino ou feminino é apenas um fato que se inscreve nas tramas do imponderável, do incognoscível, da química da própria natureza”. Pois foi assim que o ministro Ayres Britto, relator da ação de união civil entre pessoas do mesmo sexo, abriu a votação histórica que considerou a união civil um direito que independe das práticas sexuais dos casais. Se afetos e desejos regem as relações intersubjetivas para o projeto de família, casais heterossexuais e homossexuais igualmente devem ser protegidos por nosso ordenamento jurídico. A votação foi unânime.
A astúcia do relator alçou voos mais do que poéticos como é sua marca na corte. O ministro Britto falou de sexo e prazer e lançou a norma heterossexista para escanteio, ao inspirar-se em Nietzsche para proclamar a supremacia da liberdade individual no campo da sexualidade. Sem rodeios, declarou que a repressão sexual era uma “criação dos homens”, em uma citação sem lirismo de Foucault. Mas foi sóbrio e reafirmou os limites à liberdade sexual: estupro, incesto e pedofilia estão fora desse quadro argumentativo, pois são violações da liberdade sexual de outras pessoas. Os limites foram como um aposto ao vocativo de abertura do advogado que representou a voz da CNBB na tribuna – “poligâmicos, incestuosos, alegrai-vos. Eis aqui uma excelente tese para justificar os seus comportamentos”, disse, em tom jocoso, já prevendo qual seria a decisão do tribunal.
A verdade é que somente como retórica popular e conservadora a ação de união civil poderia ser comparada a um novo estado de anomia no campo da regulação da sexualidade na sociedade brasileira. O que o STF decidiu foi uma demanda justa por reconhecimento – casais gays serão protegidos pelo Estado e terão seus direitos garantidos. Uma demanda simples, devendo ser entendida antes como uma recusa às interpretações injustas e restritivas que mesmo como um novo direito. Todos os ministros citaram o artigo 3º da Constituição Federal, que veda a discriminação por sexo. Impedir que duas mulheres sejam reconhecidas como uma entidade familiar para fins de proteções jurídicas é, portanto, uma discriminação injusta. Foi com essa simplicidade argumentativa que a ação saiu vitoriosa da corte.
Nem tão simples foram os flertes com as teorias feministas e de gênero para sustentar que a anatomia não é um destino para os corpos. Vencer a tese de que a descrição anatômica das genitálias demarca o campo das sexualidades possíveis foi um desafio mais tortuoso que sustentar a igualdade entre heterossexuais e homossexuais. Alguns ministros optaram por escapar desse terreno movediço que levou Simone de Beauvoir a afirmar que “o corpo é uma situação” ou que “não nascemos mulheres, mas nos tornamos mulheres”, para concluir que nossos desejos sexuais não estão programados por nossas genitálias. Grande parte dos ministros fez uso de uma categoria romântica e bem recebida aos ouvidos de uma sociedade patriarcal – o afeto. Afeto é o que aproxima os fora da lei de gênero da norma heterossexista sobre como devem se guiar as relações familiares. Para um homem e uma mulher, há o amor e a paixão; para os gays, a felicidade e o afeto. Mesmo não sendo um jogo retórico inocente, essa foi a estratégica argumentativa possível para o sucesso de uma ação que provoca os fundamentos de uma ordem social centrada na família heteronormativa, que falsamente presume a biologia como um destino.
O ministro Gilmar Mendes anunciou que a ação pode ter sido o início de um novo tempo em que o “pensamento do possível” nos mostrará os desdobramentos de famílias gays serem legitimamente entidades para a vida pública. Se por “pensamento do possível” surgirem demandas por comparação entre a união civil e o casamento, adoção de crianças, acesso às tecnologias reprodutivas, além de conquistas mais prosaicas, como representação dos novos arranjos familiares nos livros didáticos, nas histórias infantis ou nos programas de televisão, um verdadeiro horizonte de igualdade foi aberto com essa decisão do STF. Não há por que temer as mais diversas surpresas que essa ação nos provocará – a igualdade é ambiciosa e a força do movimento gay mostrará o conjunto de domínios da vida que as novas famílias ocuparão.
O STF considerou que essa decisão rompeu um longo “silêncio eloquente”. A origem do silêncio é a homofobia, um falso preconceito moral que subordina e oprime os fora da lei de gênero heterossexista. Mas a ordem jurídica democrática mostrou seu vigor – mesmo sem a devida mudança de mentalidades da sociedade brasileira, o princípio da igualdade saiu vitorioso. As 60 mil famílias que se declararam gays para o Censo 2010 podem sair do armário sem medo da insegurança jurídica. A mais alta corte do País declarou o fim da clandestinidade para elas.

DEBORA DINIZ É PROFESSORA DA UNB E PESQUISADORA DA ANIS – INSTITUTO DE BIOÉTICA, DIREITOS HUMANOS E GÊNERO


Blog do Favre

Ser ou não ser

Revolução feminista, neoliberalismo e globalização deslocaram o lugar do jovem na sociedade atual

Publicado em 06 de maio de 2011


Joel Birman

Na atualidade, a imagem da juventude está marcada ao mesmo tempo pela ambiguidade e pela incerteza. Digo ambiguidade pois se, de um lado, a juventude é sempre exaltada na contemporaneidade, cantada que é em prosa e verso pelas potencialidades existenciais que condensaria, por outro a condição jovem caracteriza-se por sua posição de suspensão no espaço social, que se materializa pela ausência de seu reconhecimento social e simbólico.
Seria em decorrência disso que a incerteza é o que se delineia efetivamente como o futuro real para os jovens, em todos os quadrantes do mundo.
Como se pode articular essas diferentes versões da juventude na contemporaneidade, numa narrativa que seja coerente e consistente?
É preciso destacar, antes de tudo, que a possibilidade de experimentação foi o que passou a caracterizar a condição da adolescência no Ocidente, desde o final do século 18, quando as idades da vida foram construídas em conjunção com a família nuclear burguesa, em decorrência da emergência histórica da biopolítica.
Nesse contexto, a adolescência foi delimitada como o tempo de passagem entre a infância e a idade adulta, na qual o jovem podia empreender experiências nos registros do amor e das escolhas profissionais, até que pudesse se inserir no mercado de trabalho e se casar, para reproduzir efetivamente as linhas de força da família nuclear burguesa.
Os romances de formação (Bildung), na tradição literária alemã, descreveram com fartura as sagas dos jovens na abertura da modernidade. Dentre eles é preciso evocar Os Anos de Aprendizado de Wilhelm Meister (Editora 34), de Goethe, que delineou com detalhes requintados o perfil da construção moderna da adolescência, sendo até mesmo sua narrativa paradigmática.
Desde os anos 1980, no entanto, essa figuração da adolescência entrou em franco processo de desconstrução, por diversas razões. Antes de mais nada, pela revolução feminista dos anos 1960 e 70, com a qual as mulheres foram em busca de outras formas sociais de existência, além da condição materna. Isso foi a condição de possibilidade concreta para a desmontagem da família nuclear burguesa.
Com efeito, as mulheres como mães eram as peças fundamentais para fazer funcionar esse modelo familiar, pela articulação que realizavam entre a gestão doméstica e as instituições médica e pedagógica, em nome do imperativo biopolítico, de produção da qualidade de vida da população.
Em seguida, porque o deslocamento das mulheres da posição exclusivamente materna foi o primeiro combate decisivo contra o patriarcado, que forjou nossa tradição desde a Antiguidade. Os posteriores movimentos gay e transexual vieram nos rastros do movimento feminista, inscrevendo-se nas linhas de fuga da crítica do patriarcado.
Com isso, a problemática da autoridade foi efetivamente colocada na berlinda, devendo ser remanejada desde então.
Finalmente, a construção do modelo neoliberal da economia internacional, em conjunção com seu processo de globalização, teve o poder de incidir preferencialmente em dois segmentos da população, no que tange ao mercado de trabalho. De fato, foram os jovens e os trabalhadores da faixa etária dos 50 anos os segmentos sociais mais afetados pela voragem neoliberal.
Com isso, se os primeiros passaram a se inserir mais tardiamente no dito mercado, os segundos passaram a ser descartados para ser substituídos por trabalhadores jovens e mais baratos, pela precariedade que foi então estabelecida no mercado de trabalho.
Foi em consequência desse processo que o tempo de duração da adolescência se alongou bastante, ficando então os jovens fora do espaço social formal e lançados perigosamente numa terra de ninguém.
Assim, graças à ausência de inserção no mercado de trabalho, a juventude foi destituída de reconhecimento social e simbólico, prolongando-se efetivamente, não tendo mais qualquer limite tangível para seu término.
Despossuídos que foram de qualquer reconhecimento social e simbólico, aos jovens restaram apenas o corpo e a força física. É por devidamente a emergência e a multiplicação das formas de violência entre os jovens na contemporaneidade.essa trilha que podemos interpretar devidamente a emergência e a multiplicação das formas de violência entre os jovens na contemporaneidade.
Esse processo ocorre não apenas no Brasil e na América Latina, mas também em escala internacional. Pode-se depreender aqui a constituição de uma cultura agonística na juventude de hoje.
Contudo, essa cultura de combate é apenas a face de uma problemática mais abrangente, na qual o verso é a presença aterrorizante do desamparo, que marca o campo da juventude na contemporaneidade, em que o medo do futuro e a insegurança do existir se perfilam efetivamente como espectros.
No entanto, é preciso evocar ainda que, se a violência e a delinquência sempre foram atribuídas às classes populares, construindo o ethos e o habitus delas em sua estratégia de sobrevivência, elas hoje também se fazem presentes nos segmentos jovens das classes médias e das elites.
Vale dizer que, em consequência das novas condições precárias do mercado de trabalho, regulado pelo ideário neoliberal, as classes médias e as elites passaram a se defrontar com os mesmos impasses, nos registros do reconhecimento social e simbólico, que marcaram outrora apenas as classes populares.
Assim, a violência juvenil transformou-se em delinquência, inserindo-se efetivamente no registro da criminalidade. No Brasil, os jovens de classe média e das elites passaram a atacar gratuitamente certos segmentos sociais com violência. De mulheres pobres confundidas com prostitutas até homossexuais, passando pelos mendigos, a violência disseminou-se nas grandes metrópoles do país.
Ao fazerem isso, no entanto, seus gestos delinquentes inscrevem-se numa lógica social precisa e rigorosa. Com efeito, tais segmentos sociais representam no imaginário desses jovens a decadência na hierarquia social, sendo pois os signos do que eles poderão ser efetivamente no futuro, na ausência do reconhecimento social e simbólico que os marca.
Ao lado disso, a cultura agonística manifesta-se ainda nos combates que se estabelecem entre jovens nas corridas noturnas de carros, assim como nas brigas frequentes que ocorrem nos bairros frequentados pela juventude nas grandes cidades. Foi ainda nesse contexto que se estabeleceu recentemente na tradição brasileira o assassinato de pais pelos filhos, demaneira inesperada e regular.
Finalmente, a cultura da força empreende-se regularmente em academias de ginástica, onde os jovens cultuam os músculos, não apenas para se preparar para os combates cotidianos da vida real, mas para forjar também um simulacro de força na ausência efetiva de potência, isto é, na ausência de reconhecimento social e simbólico, lançados que estão aqueles no desamparo.
É nesse registro que se deve inscrever a disseminação do bullying na contemporaneidade. É preciso dizer, no que concerne a isso, que a provocação e a violência entre os jovens e crianças é uma prática social antiga. O que é novo, contudo, é a ausência de uma autoridade que possa funcionar como mediação no combate entre estes e aqueles, o que incrementou bastante a disseminação dessa prática de violência.
Ao lado disso, é preciso dizer ainda que, pela luta e pelo combate agonístico com os colegas considerados mais frágeis, os valentões preparam- -se já para o futuro, para a selva do mundo neoliberal, restringindo desde cedo o campo da competição pelo estabelecimento da hierarquia entre os corpos, pela serialização da força existente entre eles.
Não obstante tudo isso, a juventude é ainda glorificada como a representação do que seria o melhor dos mundos possíveis. A juventude seria então a condensação simbólica de todas as potencialidades existenciais. Contudo, se fazemos isso é porque não apenas queremos cultivar a aparência juvenil, por meio de cirurgias plásticas e da medicina estética, mas também porque o código de experimentação que caracterizoua adolescência de outrora se disseminou para a idade adulta e para a terceira idade.
Constituiu-se assim uma efetiva adolescência sem fim na tradição ocidental, onde se busca pelo desejo a possibilidade de novos laços amorosos e novas modalidades de realização existencial.
Seria assim o imperativo de ser, custe o que custar, o que se impõe a nós como exigência ética na contemporaneidade de maneira incontornável, consubstanciado nas linhas de fuga do desejo e delineando a figura da adolescência infinita. Por isso mesmo, nas narrativas fundadoras da subjetividade contemporânea, é o mito de Hamlet (Shakespeare) que se impõe efetivamente, deslocando a figura de Édipo que dominou o imaginário ocidental na modernidade, disseminado que foi pela versão dele estabelecida pela psicanálise.

Joel Birman é psicanalista e professor titular do Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro

Revista Cult

Do jeito que você gosta

Representação sexual, cross-dressing e intersexualidade
 
Publicado em 06 de maio de 2011 
 
Marcia Tiburi - Filósofa

Do Jeito que Você Gosta é a peça de William Shakespeare atualmente encenada em São Paulo pela Companhia Elevador de Teatro Panorâmico. Assistir a ela é uma grande oportunidade de reflexão sobre a amizade e o amor e a relação entre natureza e cultura.
Mais ainda, Do Jeito que Você Gosta pode ser lida como um forte ensinamento sobre diferenças de gênero. A protagonista da peça é Rosalinda, uma garota que, fugindo do tio autoritário, precisa travestir-se de homem. É travestida de Ganimedes que ela brincará de seduzir seu amado Orlando.
Não se aproveita bem a brincadeira de Shakespeare sem levar em conta que, naqueles tempos, mulheres não podiam fazer teatro. A encenação dessa peça constituía uma complexa banda projetiva: para representar Rosalinda, um homem se vestia de mulher.
Convencendo como mulher, ele devia, dentro da peça, vestir-se de homem e, desse modo, ser um homem que encena que é uma mulher fingindo que é um homem. Rosalinda vestida de Ganimedes brinca de ser Rosalinda na intenção de testar o amor de Orlando. Se Rosalinda é a personagem mais rica da história quando a vemos encenada por uma mulher (Carolina Fabri, na versão da Companhia Elevador), tanto mais complexa se torna ao ser representada por um ator homem que, no processo de atuação devia, em um complexo jogo de camadas, mostrar que tudo são representações.

Fácil é inscrever Rosalinda na tradição da donzela guerreira junto de Atalanta, Mulan, Joana d’Arc, Iansã, Diadorim e tantas outras. Contudo, indo mais além, o que vemos em Rosalinda é a intuição de que gênero é mais um modo de vestir e de gesticular do que um modo de ser, é mais uma medida cênica do que uma condição natural.
Travestir-se
A ideia de Simone de Beauvoir de que ninguém nasce mulher, mas se torna mulher, diz respeito a esse caráter teatral do gênero. Quando o cartunista Laerte Coutinho resolve aparecer vestido de mulher, é o fato da representação que nos confunde. Cross-dressing é um movimento com adeptos em diversos países justamente porque a “verdade” sobre a relação entre sexo e gênero já não tem mais validade cultural. Gênero é questão cênica. É apenas figurino. E, desse modo, fantasia que deve
importar a quem a escolhe. O que acontece com o sexo, por sua vez, não é diferente. Sexo é construção ideológica baseada no padrão binário (homem e mulher) inventada pela ciência e pela lei. É um padrão que o travestimento vem questionar no ato mesmo em que, confundindo as pessoas, põe em xeque a diferença sexual.

Entra em cena a precariedade do padrão desde que o binário cedeu lugar às múltiplas combinações. Intersexualidade é a categoria que surge quando homem e mulher como grau zero, como identidades naturais, tornam-se insustentáveis. Assim, em primeiro lugar, é preciso rever o ponto de vista sobre gênero: se um homem pode vestir-se de mulher, uma mulher também pode vestir-se de mulher. Uma mulher, por sua vez, pode vestir-se de homem, como um homem pode vestir-se de homem.Só que, em lugar da natureza, é a representação que surge como prática concreta dos indivíduos. Roupas são apenas representações: debaixo delas restam indivíduos singulares que não se encaixam em padrões senão por esforços discursivos e práticos que negam a realidade do particular.
Em segundo lugar, é preciso pensar a intersexualidade, nome amplo para a diversidade sexual de nossos tempos que é em si mesma a prova de que a ideia de uma natureza sexual já não se sustenta mais. O hermafroditismo tão ocultado entre nós é uma das formas de intersexualidade. Desde que a medicina criou técnicas cirúrgicas e hormonais de “correção” das sexualidades não binárias, quem nasce com um sexo “inadequado” ou “fora da norma” é sumariamente “consertado”. Mas o que a intersexualidade nos faz pensar é que não podemos mais considerar a existência de “erro” na ordem sexual. Certo é que os corpos são marcados por discursos científicos, jurídicos e essencialistas que definem sexo e gênero com base em um padrão binário.
Não há como sustentar que a anatomia de um hermafrodita seja menos “natural” do que a de outros indivíduos. A diferença é que, enquanto as anatomias bipolares são identidades construídas, o amplo campo que abriga a corporeidade hermafrodita é colocado sempre no lugar da não identidade. E quem não tem identidade não tem grupo, e quem não tem grupo é excluído quando o padrão que rege a vida em sociedade é a identidade. Quem troca de sexo usa a medicina num ato de inversão da norma.
Por essa lógica, parece bem mais razoável afirmar que todos somos intersexuais: assim como não há um rosto comum, mas apenas semelhante, os corpos e as genitálias humanas não são uniformes, jamais serão idênticos. Derivar daí uma “roupa de mulher” ou “de homem” prova apenas o caráter ideológico das representações. Contra a ideologia, a liberdade é a inversão do jogo: vestir-se “do jeito que você gosta”.

marciatiburi@revistacult.com.br

Revista Cult

Conceito de honra se diluiu e chegou até os escravos

Estudo discute a idéia de que o escravo não tinha honra e mostra como essa distinção social chegou até eles

Agência USP

Entre os séculos 16 e 18, o conceito de honra sofreu diversas modificações dentro da América Portuguesa sendo que a escravidão foi o grande mediador dessas mudanças. "A historiografia do Brasil sempre considerou que o escravo não tinha honra. Mas ao estudarmos o tema, constatamos que este conceito foi se adaptando em função do escravo, que se tornou peça importante no jogo da honra", destaca o pesquisador Jackson Fergson Costa de Farias.
Farias é autor da dissertação de mestrado Honra e escravidão: um estudo de suas relações na América Portuguesa, séculos XVI-XVIII. A pesquisa foi apresentada na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP e teve como base fontes de época como documentos de administradores oficiais, relatos de padres, sermões, relatos de viajantes e outros retratos coloniais do período. "Optei por usar o termo América Portuguesa em vez de sociedade brasileira, pois a ideia de 'Brasil' é posterior a esse período", explica.
O conceito de honra, de acordo com o pesquisador, foi se modificando com o passar dos séculos. "Na sociedade medieval, o termo honra estava associado a um pedaço de terra que a pessoa recebia diretamente do rei em pagamento por serviços prestados. Eram as chamadas 'terras honradas' destinadas, principalmente, aos nobres de origem militar", afirma Farias. "Já na passagem da Idade Média para a Moderna, a honra passou a ser associada a valores como reputação, virtude, castidade, respeito, estima e consideração, e começou a ser encarada como um atributo de distinção social", completa.
Os senhores, os escravos e a honra
Segundo Farias, na América Portuguesa esse conceito de honra foi se diluindo. "A honra passou a ser mediada pela escravidão. Ser dono de escravos colocava a pessoa numa posição diferenciada em relação aos outros e uma das formas de se tornar um homem honrado era adquirir escravos", informa. "Em Portugal, a honra havia se tornado um fator de hierarquia societária: lá vigoravam rígidos mecanismos de distinção social com a finalidade de excluir os cristãos novos [judeus que haviam se convertido ao catolicismo] e os trabalhadores mecânicos, por exemplo. Na América Portuguesa a propriedade de escravos já garantia honra a qualquer pessoa."

Mas este conceito de honra, conta o pesquisador, também chegou até o escravo. Farias cita um dos sermões do padre Antonio Vieira, dirigido aos escravos no século XVII: "ele afirma que, sendo temente a Deus, o bom escravo não foge ou se rebela, e com seu trabalho e dedicação honra ao seu senhor e ao próprio Deus", relata. Segundo o texto, conta Farias, o escravo em si não tem honra, mas se ele vive honrando a Deus, levando uma vida correta, poderá ter uma vida honrada no paraíso. "Ao analisar a construção do argumento, percebemos que o padre se dirige ao escravo como se este escravo soubesse e entendesse o conceito de honra. É um argumento usado para seduzi-lo, oferecendo algo que, tradicionalmente, a historiografia diz que ele não tinha ou, no limite, usando um argumento retórico de um jogo do qual, mesmo sem participar ativamente, o escravo conhecia e sabia das regras", conta.
A partir do século 18, alguns padres tentaram, por meio de seus sermões, a ideia de que o escravo também compartilhava da honra de seus senhores. Este argumento era usado como um modo de convencer os senhores a tratar melhor seus escravos, como uma crítica à situação que a maioria deles vivia: má alimentação, castigos, chibatadas, má qualidade das vestimentas e até mesmo a exploração sexual.
"Nos textos, quase sempre dirigidos aos senhores de escravos, aparecia a seguinte ideia: se para sobreviver o escravo precisasse se prostituir, a má fama do escravo atingiria a honra do seu senhor", explica. Ou seja, se o escravo tivesse um comportamento considerado desonroso, ele estaria desonrando ao seu senhor. Outra ideia difundida nos documentos analisados - principalmente as fontes religiosas - é que acima dos poderes do senhor de escravo, existiam os poderes de Deus. "Então se o senhor não for punido no plano terreno pelo mau tratamento dispensado ao escravo, na argumentação dos padres o senhor seria punido por Deus", conta.
Farias destaca que realizou uma pesquisa com base em documentos já publicados e conhecidos dos historiadores que lidam com o assunto e que analisou o princípio argumentativo dessas fontes. Entretanto, a avaliação dos efeitos práticos desses argumentos permanece como um tema a ser explorado. A pesquisa foi apresentada na FFLCH em agosto de 2008 e teve a orientação do professor Rafael de Bivar Marquese.

UOL

Capitalismo para os pobres, socialismo para os ricos

Franklin Cunha *

Gore Vidal disse, certa vez, preferir morar em Ravello na costa Amalfitana, do que viver nos Estados Unidos, onde os pobres viviam no capitalismo e os ricos, no socialismo. E explicou: enquanto 80% da população disputam os 20% da riqueza do país, numa luta encarniçada e sem quartel por empregos, saúde, educação, moradia, aposentadoria — isto dentro das regras de um capitalismo neoliberal pós-keinesiano e da política laissez-faire e ao arbítrio da mágica mão do mercado, os 20% dos donos dos poderes, num verdadeiro regime socialista, distribuem entre si os 80% do PIB restante da nação.
A virada do capitalismo social e includente para o brutal e excludente foi representada, em suas bases teóricas, na Sociedade Mont Pèlerin, fundada na cidade suíça do mesmo nome em 1947. Seus idealizadores foram economistas como Frederick Hayek, Karl Popper e Milton Friedman, Ludwig Von Mises, Joseph Schumpeter entre outros, que se propunham a defender o liberalismo clássico, a liberdade de expressão, o livre mercado e os valores políticos de uma sociedade aberta. Os “manuais operacionais” da Mont Pèlerin foram os livros “O caminho da servidão”, de Hayek, de 1944, e “A sociedade aberta e seus inimigos”, de Karl Popper, de 1945. As ideias básicas desses textos eram que a atividade empresarial deveria ser deixada livre, sem amarras para governar o mundo como bem entendesse.
Muito desse purismo vinha de Hayek, o guru de Milton Friedman, líder da escola econômica da Universidade de Chicago, o qual em tons severos dizia que qualquer envolvimento governamental na economia seria capaz de lançar a sociedade no “caminho da servidão” e, portanto, deveria ser implacavelmente extirpado.
Nos anos 50, os sociaisdemocratas e os keynesianos dos países ricos comemoravam uma série de histórias de sucesso em vários países que adotaram as políticas econômicas da escola de Chigago e da turma de Mont Pélerin. O laboratório mais avançado do desenvolvimento era o Cone Sul da América: Chile, Argentina, Uruguai, o sudeste brasileiro e seu epicentro foi a CEPAL, de Raul Prebisch, que treinou diversas equipes de economistas desenvolvimentistas para atuarem como assessores dos governos da região. Durante esse período de expansão espetacular, o Cone Sul parecia mais a Europa do que o resto da América Latina.
E o que receitavam esses assessores? Em primeiro lugar os governos deveriam abolir todas as regras e regulamentações que se interpunham no caminho da acumulação de capitais. Em segundo, deveriam vender todos os ativos que possuíam e que poderiam ser administrados com lucro. Em terceiro, deveriam cortar drasticamente os fundos destinados aos programas sociais. Além disso, os impostos deveriam ser baixos, taxando os ricos e pobres na mesma proporção. As corporações ficariam livres para vender seus produtos para todo o mundo e os governos deveriam ser impedidos de proteger as indústrias de seus países. Todos os preços, inclusive o dos salários, seriam definidos pelo mercado, e o salário mínimo, abolido. Friedman e seus sequazes ainda ofereciam à iniciativa privada os serviços de saúde, de correios, a educação, os transportes, as aposentadorias e até a água e os parques nacionais.
Enfim, a contrarrevolução da Escola de Chicago pretendia eliminar todas as formas de proteção que os trabalhadores haviam conquistado por meio de lutas antigas e sangrentas e e queriam explorar com lucros de mercado todos os serviços públicos nos quais o Estado havia investido com recursos da população trabalhadora. Tudo isso tinha a finalidade de aparar as agudas arestas do mercado.
Assim, no entendimento de Friedman, toda essa riqueza deveria ser compartilhada e, como princípio, passada às mãos da iniciativa privada. E apara atrair investimentos, os governos do Cone Sul publicavam caros anúncios nos principais jornais dos Estados Unidos e da Europa nos quais declaravam explicitamente, e sem qualquer pejo, que “poucos governos da história foram tão encorajadores para os investimentos privados. Estamos atravessando uma verdadeira revolução social; procuramos parceiros que ajudem a nos livrar do estatismo e que nos auxiliem a demonstrar o imprescindível papel do setor privado” (anúncio da ditadura argentina na Business Week).
Já sabemos como terminou a atuação dos economistas da escola de Chicago através das políticas econômicas do FMI, do Banco Mundial, da Organização Mundial do Comércio, dos bancos e de outros organismos neoliberais. Na realidade foi um outro e gigantesco golpe financeiro ao estilo do que Bernard Maddof aplicou em investidores de tudo o mundo que acreditaram nele.
As fantásticas quantias de capitais não controlados e a ruptura das estruturas reguladoras, exerceram um impacto de grande escala sobre a economia mundial. Assim, chegamos a uma situação na qual, como diz Joseph Siglitz, “fomos envolvidos por uma mistura tóxica de interesses especiais, políticas econômicas mal-orientadas e ideologias da direita política as quais desembocaram na atual crise global. E alguém como Michael Moore falou “curto e grosso”: “Fomos vítimas de um gigantesco roubo planejado e executado por banqueiros, economistas, políticos e seus acólitos neoliberais”. E agora não há dinheiro estatal que chegue, pois conforme Slavoj Zizek “a solução dos graves problemas da maioria dos países em quebra é o uso de medidas socialistas para salvar o capitalismo”.
Daí a justa e lúcida afirmação de Gore Vidal que abre este texto.


* Médico


SUL 21

Polêmica ou Ignorância?

O texto abaixo é tudo o que eu queria dizer sobre esse assunto. Alguns jornalistazinhos acham que entendem de linguística, fazem um estardalhaço, mas não levam em conta o desenvolvimento dos estudos acadêmicos que tratam do assunto. Só consultam "especialistas" gramaticais, esquecendo-se dos linguistas, que são cientistas com propriedade para falar sobre o assunto. Com vocês, as palavras do professor Marcos Bagno. Os grifos abaixo são meus. (WiLL)


Na semana passada, o site IG noticiou que o Ministério da Educação comprou e distribuiu, para 4.236 mil escolas públicas, um livro que “ensina o aluno a falar errado”. Os jornalistas Jorge Felix e Tales Faria -  do Blog Poder On Line, hospedado no portal – se basearam em exemplos de um capítulo do livro Por Uma Vida Melhor para afirmar que, segundo os autores da coleção organizada pela ONG Ação Educativa, não há nenhum problema em se falar “nós pega o peixe” ou “os menino pega o peixe”. Calçaram sua tese no seguinte trecho de um capítulo que diferencia o uso da língua culta e da falada:”Você pode estar se perguntando: “Mas eu posso falar os livro?”. Claro que pode. Mas fique atento porque, dependendo da situação, você corre o risco de ser vítima de preconceito linguístico”. O fato de haver outros capítulos, no mesmo livro, que propõem a leitura e discussão de obras de autores como Cervantes, Machado de Assis e Clarice Lispector e ensina modos de leitura, produção e revisão de textos não foi citado. Mas a discussão sobre como registrar as diferenças entre o discurso oral e o escrito esquentou, principalmente após o colunista da Folha de S. Paulo Clóvis Rossi vociferar, no último domingo, que tal livro é “criminoso”.

por Marcos Bagno, no seu site, via CartaCapital

Para surpresa de ninguém, a coisa se repetiu. A grande imprensa brasileira mais uma vez exibiu sua ampla e larga ignorância a respeito do que se faz hoje no mundo acadêmico e no universo da educação no campo do ensino de língua.
Jornalistas desinformados abrem um livro didático, leem metade de meia página e saem falando coisas que depõem sempre muito mais contra eles mesmos do que eles mesmos pensam (se é que pensam nisso, prepotentemente convencidos que são, quase todos, de que detêm o absoluto poder da informação).
Polêmica? Por que polêmica, meus senhores e minhas senhoras? Já faz mais de quinze anos que os livros didáticos de língua portuguesa disponíveis no mercado e avaliados e aprovados pelo Ministério da Educação abordam o tema da variação linguística e do seu tratamento em sala de aula. Não é coisa de petista, fiquem tranquilas senhoras comentaristas políticas da televisão brasileira e seus colegas explanadores do óbvio.
Já no governo FHC, sob a gestão do ministro Paulo Renato, os livros didáticos de português avaliados pelo MEC começavam a abordar os fenômenos da variação linguística, o caráter inevitavelmente heterogêneo de qualquer língua viva falada no mundo, a mudança irreprimível que transformou, tem transformado, transforma e transformará qualquer idioma usado por uma comunidade humana.
Somente com uma abordagem assim as alunas e os alunos provenientes das chamadas “classes populares” poderão se reconhecer no material didático e não se sentir alvo de zombaria e preconceito. E, é claro,om a chegada ao magistério de docentes provenientes cada vez mais dessas mesmas “classes populares”, esses mesmos profissionais entenderão que seu modo de falar, e o de seus aprendizes, não é feio, nem errado, nem tosco, é apenas uma língua diferente daquela – devidamente fossilizada e conservada em formol – que a tradição normativa tenta preservar a ferro e fogo, principalmente nos últimos tempos, com a chegada aos novos meios de comunicação de pseudoespecialistas que, amparados em tecnologias inovadoras, tentam vender um peixe gramatiqueiro para lá de podre.
Enquanto não se reconhecer a especificidade do português brasileiro dentro doconjunto de línguas derivadas do português quinhentista transplantados para as colônias, enquanto não se reconhecer que o português brasileiro é uma língua em si, com gramática própria, diferente da do português europeu, teremos de conviver com essas situações no mínimo patéticas.
A principal característica dos discursos marcadamente ideologizados (sejam eles da direita ou da esquerda) é a impossibilidade de ver as coisas em perspectiva contínua, em redes complexas de elementos que se cruzam e entrecruzam, em ciclos constantes. Nesses discursos só existe o preto e o branco, o masculino e o feminino, o mocinho e o bandido, o certo e o errado e por aí vai.
Darwin nunca disse em nenhum lugar de seus escritos que “o homem vem do macaco”. Ele disse, sim, que humanos e demais primatas deviam ter se originado de um ancestral comum. Mas essa visão mais sofisticada não interessava ao fundamentalismo religioso que precisava de um lema distorcido como “o homem vem do macaco” para empreender sua campanha obscurantista, que permanece em voga até hoje (inclusive no discurso da candidata azul disfarçada de verde à presidência da República no ano passado).
Da mesma forma, nenhum linguista sério, brasileiro ou estrangeiro, jamais disse ou escreveu que os estudantes usuários de variedades linguísticas mais distantes das normas urbanas de prestígio deveriam permanecer ali, fechados em sua comunidade, em sua cultura e em sua língua. O que esses profissionais vêm tentando fazer as pessoas entenderem é que defender uma coisa nãosignifica automaticamente combater a outra. Defender o respeito à variedade linguística dos estudantes não significa que não cabe à escola introduzi-los ao mundo da cultura letrada e aos discursos que ela aciona. Cabe à escola ensinar aos alunos o que eles não sabem! Parece óbvio, mas é preciso repetir isso a todo momento.
Não é preciso ensinar nenhum brasileiro a dizer “isso é para mim tomar?”, porque essa regra gramatical (sim, caros leigos, é uma regra gramatical) já faz parte da língua materna de 99% dos nossos compatriotas. O que é preciso ensinar é a forma “isso é para eu tomar?”, porque ela não faz parte da gramática da maioria dos falantes de português brasileiro, mas por ainda servir de arame farpado entre os que falam “certo” e os que falam “errado”, é dever da escola apresentar essa outra regra aos alunos, de modo que eles – se julgarem pertinente, adequado e necessário – possam vir a usá-la TAMBÉM. O problema da ideologia purista é esse também. Seus defensores não conseguem admitir que tanto faz dizer assisti o filme quanto assiti ao filme, que a palavra óculos pode ser usada tanto no singular (o óculos, como dizem 101% dos brasileiros) quanto no plural (os óculos, como dizem dois ou três gatos pingados).
O mais divertido (para mim, pelo menos, talvez por um pouco de masoquismo) é ver os mesmos defensores da suposta “língua certa”, no exato momento em quea defendem, empregar regras linguísticas que a tradição normativa que eles acham que defendem rejeitaria imediatamente. Pois ontem, vendo o Jornal das Dez, da GloboNews, ouvi da boca do sr. Carlos Monforte essa deliciosa pergunta: “Como é que fica então as concordâncias?”. Ora, sr. Monforte, eu lhe devolvo a pergunta: “E as concordâncias, como é que ficam então?

Marcos Bagno é escritor, tradutor, lingüista, professor da Universidade de Brasília  (UnB).

“O pescador tem dois amor”

Professor Zenir Reis invoca Caymmi: “O pescador tem dois amor”

Língua oral e escrita

por Zenir Campos Reis*, sugestão da leitora Maria Salete Magnoni, que foi sua orientanda

Antes de ler e escrever, falamos. A fala requer longo aprendizado. A boca existe prioritariamente para comer. Primum vivere. Aos poucos, desenvolvemos essa habilidade secundária de adaptar a boca, lábios, dentes e língua, para a emissão de sons inteligíveis, distintivos, que vão compor as palavras. No convívio social, os mais velhos ensinam aos mais jovens as regras de com-binação das palavras, isto é, as regras básicas de sintaxe.
A língua oral é econômica e tende à simplificação. Em português, por exemplo, a marca mais comum do plural é o “s” no final das palavras. Se esse fonema está presente no artigo fica entendido que estamos falando de mais de um objeto: o livro, os livro(s), um ou mais de um. Em outras línguas, o francês por exemplo, o “s” do plural nem é pronunciado: le livre, les livre(s). A marca do plural está presente apenas na diferença que a língua oral estabelece entre /le/ e /les/. Existem lingüistas que consideram a repetição da marca do plural uma espécie de pleonasmo, de repetição dispensável. Lembremo-nos da bela canção de Dorival Caymmi, “O bem do mar”, que começa assim:
O pescador tem dois amor
Um bem na terra,
Um bem no mar (bis)

O que fixa a língua é a letra, a escrita, para cuja conquista exige-se outro aprendizado, normalmente feito na escola. Compreende-se que a língua escrita não seja imediatamente acessível.
Antropologicamente, na história da humanidade, o aparecimento da escrita parece estar relacionado ao surgimento de sociedades mais complexas e ao aparecimento da divisão social e da dominação. A posse da letra sinalizava o poder. A imprensa, então, é uma invenção tardia, do século XVI. O primeiro livro impresso foi uma Bíblia e a leitura e interpretação desse livro sagrado começou a ser objeto de disputa.
A língua portuguesa, língua latina, proveio não do latim erudito, mas do chamado “latim vulgar”, o latim oral, falado por soldados (das tropas de ocupa-ção) e colonos iletrados ou pouco letrados. Um escritor de origem húngara, Paulo Rónai, grande conhecedor de línguas, quando tomou contato com a língua portuguesa, diz que lhe parecia um latim falado por pessoas desdentadas. Possivelmente era uma impressão verdadeira. Com certeza eram iletrados, pessoas “simples”, mais ou menos sinônimo de pobres. Muitos deles, desden-tados.

Esses pobres falavam, por exemplo “mágoa” ou “mancha”, em vez de “mácula”. Falavam “logro”, em vez de “lucro”. E diziam bem, diziam certo. Encontrei a palavra “resisto”, num sermão de Antônio Vieira, palavra que se diz em português do Brasil “registro”, ou, em Portugal, “registo”. Tudo muito certo, no contexto apropriado.
A disciplina gramatical costuma vir das camadas letradas, muitas vezes associadas ao poder político, isto é, às normas adotadas pelas autoridades políticas e transformadas em acordos, tratados, normas, transmitidos via minis-térios, academias, escolas oficiais.
A realidade da língua viva é muito mais complexa e indisciplinada, por-que a letra, que fixa a língua oral depende da alfabetização que não é univer-sal, nem neste país nem em muitos outros países, mesmo do mundo dito desenvolvido. Uma longa conversa, como se vê.

Zenir Campos Reis é professor aposentado de Literatura Brasileira na USP.

Vi o Mundo

Um coração que te quer

Pra que acabar com todo amor que sempre existiu entre nós? Pra que fazer isso assim, de sopetão, deixando meu coração sem explicação? Como viver mais um dia sem seu boa noite? Como terminar uma tarde sem o seu "estou com saudade"? Como fazer para reaquecer minha vida nesse frio que me sobe pelos pés nas noites de outono? Não me aguento, só questiono, porque não aceito esse abandono. Esse deixar ir, esse viver a vida. Cada um seguindo seu destino. Destino? Não quero seguir nada que esteja pronto, ordenado, não quero nada anunciado... Só quero seu amor, seu coração sentindo o meu pelo beijo. Quero continuar sendo sua necessidade, seu desejo. Não quero não ter sua alma pra compartilhar minhas angústias. Não quero não poder te ligar pra dizer que a reunião foi um sucesso. Não quero não ter meu amor pra sempre... Espero ansioso uma resposta sua, uma meia-volta ao meu mundo, um retorno pra me ver, agora todo moribundo, esquecido no amor, vivendo na dor, na falta de sentimento teu. Me diga que está tudo bem, que você me quer também e que nosso recomeço será a continuação do mesmo amor. Me diga o que precisar dizer, mas me abrace todo entardecer, me tenha ao anoitecer e me queira todo amanhecer. De novo. Pra sempre. Não vou morrer sem você, mas sinto um vazio, algo incompleto. Não quero dar um tempo pra superar sua falta, quero você do meu lado, na minha frente, nos meus beijos. Não quero um recomeço, quero uma continuação do que sempre existiu...

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Amor e dor de barriga

Às vezes o amor é incomoda tanto que parece uma dor de barriga. Engraçado? Bem que poderia ser engraçado, mas veja se isso é hilário: quando você está com uma dor de barriga violenta, uma diarréia sem fim, o que você mais quer é melhorar logo, certo? E você sabe que só vai melhorar depois que eliminar toda a bactéria ou todo o causador de tal sintoma. Então você vai ao banheiro, sofre e pensa: gostaria que isso acabasse logo, não aguento mais!
Penso que com o amor é a mesma coisa: tantas vezes há muito sofrimento, e o que mais queremos é que acabe logo essa tortura. Como? Eliminando toda a fonte de tal sofrimento: acabando o amor que nos consome.
Pode parecer estranho, podem me achar maluco de pedra, mas é fato que quando estamos envolvidos num relacionamento, temos preocupações, temos que fazer malabarismos para chegar a alguns acordos, como decidir aonde ir, com qual turma sair, o que fazer no fim de semana, essas coisas que nos parecem tão simples a princípio, mas que tomam proporções desmedidas quando não há um consenso.
Pior que isso é nunca se chegar a um acordo e ter aquela dor de barriga constante, sempre dolorosa e que nos traz tanto sofrimento quanto decepção. Agora, a coisa fica complicada quando a dor de barriga não tem cura e você vive em constante dor e com aquele pensamento diário: quando isso vai passar? É como se você tivesse mudado todo seu hábito alimentar, higiênico e ainda sofresse com a diarréia. No amor, é como você fazer inúmeras concessões, abrir mão de tanta coisa, e depois ser tratado com indiferença, como se seu par se lixasse para sua dor.
Aí a coisa complica: o egoísmo toma conta como se fosse uma virose! É preciso tomar um soro, quem sabe um remédio e ser muito adulado, além de mudar a alimentação. Todo cuidado é pouco nessa situação. Com o amor é a mesma coisa: há que se moderar o causador do sofrimento, mudar hábitos, se não será preciso uma medida mais radical para eliminar esse incômodo da sua vida, porque amor que incomoda não é mais amor.

E é aí que o amor se difere da dor de barriga: a gente nunca quer repetir a dor de barriga, mas dá pra ficar longe de uma paixão? Acho que não...

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