Não tem preço esse pedaço de papel, papelão, papel de pão. Não se pode vender, não se pode comprar, nada se pode fazer com ele. Nada daquilo em que você pensa, pelo menos. É um pedacinho de papel, sem mais rodeios, sem mais desculpas, sem mais mentiras. É só uma ponta de iceberg, de rocha, de coração. Vai demorar pra abrir esse papel: dobrar, desdobrar, quase não rasgar, cuidado pra não estragar. É só abrir e ler ali, com calma, com vida. Abrir o coração, a mente, a vida. Abrir a janela do mundo, abrir os olhos e ler. Cada letrinha pode ser reveladora, indicar um risco, um contorno, um traço. Esse colorido não é da caneta. Eu usei o coração, pintei com o sangue – metaforicamente falando! – que circula pelas veias. Às vezes, tanto sangue num lugar só causa infarto, porque não tem por onde passar tanto sentimento, entope tudo. Tem uns riscadinhos meio tortos, mas eu não apaguei nada pra não parecer que fiquei ensaiando pra dizer, pra não parecer que foi tudo armado, treinado. Porque não foi mesmo. Os riscadinhos servem pra indicar, pra dizer, pra mostrar, pra falar que é de verdade. Sinceridade. Identidade. Não tem preço dizer que te amo.
quarta-feira, 21 de setembro de 2011
domingo, 11 de setembro de 2011
Sozinho e saudade
Não me disse aonde ia. Com quem partiria. Não me pediu a ausência pretendida. Me deixou assim, aqui, sem sei-lá-o-quê. Nem me disse se voltaria, se ainda me amaria, se um dia te reveria. Nada disso me fez te perder da memória, nem te deixar sem história no meu coração. Pois aqui você está, vivendo em mim, regando este jardim, roendo como cupim a minha saudade. Vontade de mais um beijo antes do fim da noite, de dar boa noite e fazer um sorriso. Ensaio mais amor pra quando regressar da sua partida. Saudade não tem fim, não tem começo, não me lembro desde quando, mas sei que eu a sinto dentro do peito, nesse amor que eu ajeito pra quando você voltar.
O final feliz de Alice
Alice é uma mulher meio vesga. Ela não consegue enxergar o lado certo dos homens. Vesga nesse sentido, quero dizer. Ela acredita que vai conhecer um cara tão legal como os daqueles filmes americanos que ela vê, aquelas comédias românticas entupidas de babaquices, de clichês. Ela não enxerga que as pessoas são tão mais normais do que a imagem que ela quer comprar. E pior, ela quer pagar baratinho por tanta perfeição. Só pode ser vesga. Cega não seria o adjetivo apropriado, porque cega não vê nada. Alice vê o que quer achar que vai ver. O problema não são as vesgas fisicamente – pode parecer que quero falar mal das vesgas, mas não é isso. Assim como as estrábicas tem os olhos tortinhos, eu quero dizer que essas vesgas das quais eu falo tem a visão torta, a visão da realidade. Mas também não é só delas que falo. Os vesgos também. Há vesgos aos montes, pipocando do outro lado dessa telinha. Aqueles que acreditam no fim das histórias infantis “viveram felizes para sempre”. Bem, não é que não se possa viver feliz pra sempre, é que nos filmes não costumamos ver como foi essa vida pra sempre feliz, e é aí que o perigo se esconde: quem garante que os percalços que as pessoas enfrentam para a felicidade são insignificantes a ponto de serem desprezados no fim dessas historiazinhas?! Hum... talvez exatamente porque o filme já trouxe uma complicaçãozinha antes do final, que foi superada e deu razão à eterna felicidade do fim. Já pensou que simples: resolvemos um problema só e somos felizes para sempre. Que vida morna, coisa chata, sem alma. E o que se conquistaria a partir de então? Nada mais restando a viver, sejamos felizes para sempre? Piada. Rá rá rá rá rá! Neste instante já nem importa mais se é ela, Alice, se é ele, ou quem é o vesgo ou a vesga da história. Sua vidinha medíocre já está no beleléu e você insiste em enxergar o mesmo fim daqueles filmes de Hollywood. Acorda! Enquanto existir vida, não há final pra se chamar de feliz.
sábado, 6 de agosto de 2011
Código do Dinheiro dos Capitalistas
Sim, vocês leram certo: o Código de Defesa do Consumidor é rasgado na sua cara e dá lugar ao Código do Dinheiro dos Capitalistas. Se você tem direitos e não os conhece, deveria procurar se informar! O que vou contar agora aconteceu comigo dia 06/08/2011 na loja Pernambucanas em Marília-SP.
Fui com minha mãe comprar 2 aparelhos de celular para usar a operadora Vivo. Encontramos os modelos que procurávamos e fomos pagá-los no caixa. Enquanto a caixa passava os códigos de barras, víamos no monitor um valor 10 reais menor. Então minha mãe disse que estava sendo cobrado a menos. Foi quando a moça passou outro código de barras e o primeiro celular estava faturado com o 10 reais que faltavam. Qual não foi nossa surpresa quando a descrição do produto foi o Chip da operadora. Assim compramos os dois aparelhos. Eu questionei a moça do caixa se não dava para excluir os chips, porque só queríamos os aparelhos, ao que ela respondeu que ela só cobrava o que a vendedora lhe passava. Então minha mãe foi falar com a vendedora e ouviu a resposta de que só poderia vender assim. Quando perguntamos o valor do celular, na vitrine, a vendedora não havia nos informado que estava embutido o preço do chip de 10 reais. Não havendo meios de não comprar os chips, pagamos o valor cobrado.
Na hora de retirar a mercadoria, a atendente nos assediou. Explico: ela nos disse que precisaríamos fazer uma recarga em no máximo 2 horas para validar os chips, se não seriam cancelados automaticamente, e sugeriu, enfática: ‘se vocês quiserem, a gente faz a recarga aqui, agora, mas não se esqueçam, em 2 horas os chips serão cancelados!’ Além de eu não querer comprar os chips, depois de tê-los pagado ainda corria o risco de perdê-los (lembrando que duas recargas de 12 reais somariam mais 24 reais à compra). Eu perguntei: ‘mas se eu não fizer a recarga em 2 horas perco os chips pra sempre e tenho que jogá-los fora?’ Ela disse: Sim. Eu fui embora sem fazer a recarga.
Bom, eu não sou tão ignorante sobre meus direitos como consumidor, e achando a história muito estranha, resolvi tirar isso a limpo. Me dirigi a uma loja própria da Vivo e confirmei o que já desconfiava: o que a vendedora de celular tinha dito era mentira. Foi essa palavra que ouvi da atendente da Vivo: MENTIRA. Ela me disse que eu poderia ficar até uns 3 meses sem ativar o chip e, mesmo que tivesse algum problema depois desse período, bastava ir à loja e reativar o número.
Fiquei mais nervoso ainda e voltei na Pernambucanas. Disse para a vendedora que tinha falado na loja da Vivo e que a informação que ela tinha me passado era mentira. Acrescentei, ainda, que ela estava me pressionando para fazer a recarga pra ela ganhar comissão, além de ter feito uma venda casada com a inclusão do chip. O que eu ouvi da vendedora? ‘A gente tem que ganhar dinheiro’. Perguntei o nome do gerente e ela me disse que não sabia. Eu perguntei como ela não sabia o nome do gerente dela, e então ela me disse o nome. Fui procurar o fulano, mas me orientaram a falar com o gerente do setor de eletrônicos. Foi o que fiz. Contei para ele o que tinha acontecido, disse que aquilo era ilegal, que eu estava sendo assediado, que eles não poderiam nem ter feito a venda casada, nem me passado informações erradas sobre a recarga apenas para me obrigarem a fazê-la ali (para quem não sabe, as empresas que vendem aparelho de celular ganham comissão pela ativação de linhas. Daí a venda casada do chip e a insistência para eu ativar o chip na hora. Além disso, ganham comissão sobre a venda de créditos). O gerente me deu razão, disse que realmente o prazo não era de 2 horas, que a vendedora deu informação errada e frisou que as vendedoras de celular não são funcionárias da loja (isso não é problema meu, pois comprei dentro da loja o aparelho). Então, ele disse que eu poderia devolver os chips, já que estavam lacrados, e que poderia escolher outra mercadoria no valor de 20 reais. Resolvido isso, comprei outra mercadoria e fui embora.
Agora fico pensando: e os 99% que aceitam o chip na compra do aparelho e que ainda ativam o número no mesmo momento sob ameaça de ter o chip – muitas vezes desnecessário, porque pode ser apenas uma troca de aparelho e a pessoa vai continuar usando o mesmo chip que já possui – cancelado? Essa maioria paga por um produto que não usa e nem se dá conta de que está sendo enganado. Hoje eu disse ‘basta’, e espero que isso sirva de exemplo e fonte de informação para todos os demais consumidores.
Sei que a Pernambucanas não é a única loja que deve fazer isso. Sei também que a vendedora deve vender, cumprir ordens e bater meta para garantir o salário dela. Mas daí enganar os consumidores... Aqui não!
William Lima
Marília-SP
sexta-feira, 1 de julho de 2011
Por isso
Por essa artéria que irradia algum sentimento.
Por todo esse sangue esnobe que tenta se manter quente.
Por esse ar que se ajeita para chegar ao pulmão, que se ajeita para sair de lá.
Por essa cor que ouço com o olhar, por essa música que tateio com os tímpanos.
Por esse cheiro iluminado de uma vontade desejante.
Por esse caminho todo que transfigura minhas imagens (re)criadas, (re)formadas, (re)feitas.
Por essa mistura (in)advertidamente mandando nos meus impulsos.
Por essas coisas todas, por esses medos todos, por essas desavenças todas, por essas muralhas todas à minha frente, por essas confluências todas.
É por isso que eu te amo!!!
Por todo esse sangue esnobe que tenta se manter quente.
Por esse ar que se ajeita para chegar ao pulmão, que se ajeita para sair de lá.
Por essa cor que ouço com o olhar, por essa música que tateio com os tímpanos.
Por esse cheiro iluminado de uma vontade desejante.
Por esse caminho todo que transfigura minhas imagens (re)criadas, (re)formadas, (re)feitas.
Por essa mistura (in)advertidamente mandando nos meus impulsos.
Por essas coisas todas, por esses medos todos, por essas desavenças todas, por essas muralhas todas à minha frente, por essas confluências todas.
É por isso que eu te amo!!!
domingo, 26 de junho de 2011
Me liga!
Após o sinal, deixe seu recado.
-To na rua tomando uma cerveja e me pergunto por que to pensando em você e te ligando agora. Acho que to a fim de você, mas nem sei mais o que fazer com isso dentro de mim. O máximo que consigo de você é um "quem sabe né". Fazer o quê? Esperar um amor pra me aquecer no inverno recém-chegado. Nem sei mais se devo pedir pra você me retornar essa ligação... Já pedi tantas vezes pra te ver, e você nem aí pra mim. "Vamos sair qualquer dia" é outra constante nessa inconstância que vivo louco por você. Eu sempre espero esse dia qualquer chegar, esse quem sabe ser conhecido. Esperar... Apostar... Conquistar.... Não sei como posso te conquistar, o que tenho que fazer, desaprendi essas coisas, sei lá. Você não ajuda, não dá uma dica, não me diz se realmente ta a fim de mim ou não... Você está saindo com outro cara e ta me enrolando, me mantendo como step caso algo não dê certo por lá? Ou apenas não tem pressa que as coisas aconteçam? Ou apenas não sabe o que quer da vida? Ou não sabe se de fato eu te interesso? Ah... Tudo bem, vai, vou deixar de ser tão chato e pegar no seu pé assim, estou me irritando comigo mesmo. Mas é que sua evasividade me deixa transtornado, aí eu bebi e como to sempre pensando em você, resolvi te ligar. E aí, mais uma vez, não te consigo, falo dessa vez na caixa postal. Ontem eu falei pro vento...
Atenção: seus créditos acabaram! Faça uma recarga pra continuar falando.
-To na rua tomando uma cerveja e me pergunto por que to pensando em você e te ligando agora. Acho que to a fim de você, mas nem sei mais o que fazer com isso dentro de mim. O máximo que consigo de você é um "quem sabe né". Fazer o quê? Esperar um amor pra me aquecer no inverno recém-chegado. Nem sei mais se devo pedir pra você me retornar essa ligação... Já pedi tantas vezes pra te ver, e você nem aí pra mim. "Vamos sair qualquer dia" é outra constante nessa inconstância que vivo louco por você. Eu sempre espero esse dia qualquer chegar, esse quem sabe ser conhecido. Esperar... Apostar... Conquistar.... Não sei como posso te conquistar, o que tenho que fazer, desaprendi essas coisas, sei lá. Você não ajuda, não dá uma dica, não me diz se realmente ta a fim de mim ou não... Você está saindo com outro cara e ta me enrolando, me mantendo como step caso algo não dê certo por lá? Ou apenas não tem pressa que as coisas aconteçam? Ou apenas não sabe o que quer da vida? Ou não sabe se de fato eu te interesso? Ah... Tudo bem, vai, vou deixar de ser tão chato e pegar no seu pé assim, estou me irritando comigo mesmo. Mas é que sua evasividade me deixa transtornado, aí eu bebi e como to sempre pensando em você, resolvi te ligar. E aí, mais uma vez, não te consigo, falo dessa vez na caixa postal. Ontem eu falei pro vento...
Atenção: seus créditos acabaram! Faça uma recarga pra continuar falando.
domingo, 19 de junho de 2011
Pelo menos...
E o meu coração? Nem sei mais dele, viu. Mas ainda bate... Pelo menos parece. Acho que sim, se não, não estaria dizendo isso, né?! Sem sangue quente nas veias, nas artérias, correndo pelo corpo, o que somos todos? Nada, a não ser um monte de carne sem vida, abatida... Ok, meu coração ainda bate. Meus olhos ainda veem. Estou tendo uma visão. Estou vendo mesmo? Acho que alucino. Vejo meu celular com as luzes acesas, como se alguém me ligasse. Olho de novo, de perto. Era uma errada impressão que tive. Uma visão do futuro? Alguém vai me ligar? Ou uma memória apenas? Não toca mais esse aparelho, e talvez não deva tocar logo. Então deve ter sido uma memória mesmo, já que ele já tocou várias vezes... Nossa, meu coração é como meu celular? Não, porque meu coração ainda bate, biologicamente bate... Meu celular não tem veias... Vi as luzes novamente. Outra visão. Memória, melhor dizer. Ou seria uma vontade? Vontade de receber uma ligação. Mas e o meu coração nisso tudo? Ah... Já que ele 'pelo menos' bate, que meu celular pelo menos toque! Afff... Que triste isso. Será que 'pelo menos' estar vivo é algo bom? Não quero viver com tão pouco... Quero meu coração bombeando amor por todo meu corpo!
domingo, 12 de junho de 2011
Amor caliente
-Já pensou se um dia você conhecesse um estrangeiro, um francês? Assim do nada, cruzando a rua?
-Hahahahaha Claro que já pensei. Queria cruzar com aqueles atores de Hollywood... Ai, ai...
-Não to falando desses... To falando de um desconhecido. Nem precisa ser bonitão. Mas já se imaginou esbarrando com um desses?
-E por que tem que ser de outro país? Ta... Eu cruzo com um estrangeiro, a gente se olha, se apaixona e se beija. E depois? Eu não falo francês. E se ele não falar português? Como faremos?
-Ai, entra num curso, mulher... Sei lá... Aprende a língua do amor!
-Minha filha, presta atenção: a única língua que quero aprender é a desse francês no meu corpo se eu cruzar com ele na rua. Mas se não for ele, pode ser outro. Hahahahaha.
-Nossa, eu falando de amor e você pensando em sexo!!!
-Hahahahaha. E você acha que o amor vai existir sem sexo? Eu ia falar só com a velhice, mas estaria errada. Nem na terceira idade o sexo acaba!
-Que horror, falando dos velhinhos.
-Ai, para com isso hem... Ou você acha que os idosos pararam de viver?
-Ai, não é isso, eu só acho que...
-Ai, não diga asneira hem... O amor não se reduz apenas a sexo. Não é isso que eu quis dizer. Mas é inegável que amor e sexo tenham tudo a ver. Quer dizer, quando você faz sexo com amor é bom. Mas você pode transar sem gostar, sem se apaixonar pela pessoa, e ter momentos de muita felicidade. Hahahahaha.
-Nossa, será? Não consigo me imaginar na cama com um homem sem estar namorando, ou casada. Sei lá. Não me imagino saindo com um desconhecido.
-Hahahahaha. Mais um motivo pra sair. Assim, na cama, você o conhece melhor. Quem sabe depois dessa transa descompromissada não role novos encontros e um namoro?
-Olha o que você está me dizendo: pra sair com um desconhecido, transar com ele e depois ver o que acontece!!! Que horror!!!
-Horror nada. É algo natural. Você tem um corpo, o cara tem outro. Dá pra encaixar tudo, gozar e ser feliz!!! Ou você acha que vai namorar dez anos e se casar? E se quando finalmente for pra cama com ele perceber que não é o que esperava? Vai resistir em nome do amor?
-Ai, você está complicando demais as coisas. Eu só pensei num amor estrangeiro, repentino, bonitinho...
-Ah, 'bonitinho'? Não quero um amor bonitinho. Quero um amor de verdade, inclusive sexualmente verdadeiro. Eu me entrego toda, me derreto na cama pro meu amor, mas ele tem que dar conta hahahahaha.
-Ai, como você ta fogosa hoje hem...
-Acordei realista demais, só isso. É que, já que não consigo namorar, quero pelo menos ser feliz no sexo! O que tem isso de tão fora da realidade?
-Não é ser ou não real. É que não consigo me ver numa relação casual como essa que você sugere...
-É porque você nunca sentiu um prazer gostoso de ser tratada como mulher de verdade.
-Eu vou sentir esse prazer de ser bem tratada quando achar o homem certo...
-Pelo jeito, o homem certo vai trabalhar enquanto você fica em casa cozinhando, não?!
-Não sei como vai ser meu casamento, mas cozinhar é normal.
-Tanto quanto fazer sexo, amiga!!!
-Ai, chega desse assunto, vai...
-To adorando a conversa...
-Eu não, por isso vou embora. Depois nos falamos. Tchau.
-Ok... Tchauzinho!
E a amiga dita 'certinha' foi embora pensando com seus botões e toda molhadinha: "Como essa vaca consegue ser tão feliz e eu me prendo tanto? Como seria esse sexo casual?"
-Hahahahaha Claro que já pensei. Queria cruzar com aqueles atores de Hollywood... Ai, ai...
-Não to falando desses... To falando de um desconhecido. Nem precisa ser bonitão. Mas já se imaginou esbarrando com um desses?
-E por que tem que ser de outro país? Ta... Eu cruzo com um estrangeiro, a gente se olha, se apaixona e se beija. E depois? Eu não falo francês. E se ele não falar português? Como faremos?
-Ai, entra num curso, mulher... Sei lá... Aprende a língua do amor!
-Minha filha, presta atenção: a única língua que quero aprender é a desse francês no meu corpo se eu cruzar com ele na rua. Mas se não for ele, pode ser outro. Hahahahaha.
-Nossa, eu falando de amor e você pensando em sexo!!!
-Hahahahaha. E você acha que o amor vai existir sem sexo? Eu ia falar só com a velhice, mas estaria errada. Nem na terceira idade o sexo acaba!
-Que horror, falando dos velhinhos.
-Ai, para com isso hem... Ou você acha que os idosos pararam de viver?
-Ai, não é isso, eu só acho que...
-Ai, não diga asneira hem... O amor não se reduz apenas a sexo. Não é isso que eu quis dizer. Mas é inegável que amor e sexo tenham tudo a ver. Quer dizer, quando você faz sexo com amor é bom. Mas você pode transar sem gostar, sem se apaixonar pela pessoa, e ter momentos de muita felicidade. Hahahahaha.
-Nossa, será? Não consigo me imaginar na cama com um homem sem estar namorando, ou casada. Sei lá. Não me imagino saindo com um desconhecido.
-Hahahahaha. Mais um motivo pra sair. Assim, na cama, você o conhece melhor. Quem sabe depois dessa transa descompromissada não role novos encontros e um namoro?
-Olha o que você está me dizendo: pra sair com um desconhecido, transar com ele e depois ver o que acontece!!! Que horror!!!
-Horror nada. É algo natural. Você tem um corpo, o cara tem outro. Dá pra encaixar tudo, gozar e ser feliz!!! Ou você acha que vai namorar dez anos e se casar? E se quando finalmente for pra cama com ele perceber que não é o que esperava? Vai resistir em nome do amor?
-Ai, você está complicando demais as coisas. Eu só pensei num amor estrangeiro, repentino, bonitinho...
-Ah, 'bonitinho'? Não quero um amor bonitinho. Quero um amor de verdade, inclusive sexualmente verdadeiro. Eu me entrego toda, me derreto na cama pro meu amor, mas ele tem que dar conta hahahahaha.
-Ai, como você ta fogosa hoje hem...
-Acordei realista demais, só isso. É que, já que não consigo namorar, quero pelo menos ser feliz no sexo! O que tem isso de tão fora da realidade?
-Não é ser ou não real. É que não consigo me ver numa relação casual como essa que você sugere...
-É porque você nunca sentiu um prazer gostoso de ser tratada como mulher de verdade.
-Eu vou sentir esse prazer de ser bem tratada quando achar o homem certo...
-Pelo jeito, o homem certo vai trabalhar enquanto você fica em casa cozinhando, não?!
-Não sei como vai ser meu casamento, mas cozinhar é normal.
-Tanto quanto fazer sexo, amiga!!!
-Ai, chega desse assunto, vai...
-To adorando a conversa...
-Eu não, por isso vou embora. Depois nos falamos. Tchau.
-Ok... Tchauzinho!
E a amiga dita 'certinha' foi embora pensando com seus botões e toda molhadinha: "Como essa vaca consegue ser tão feliz e eu me prendo tanto? Como seria esse sexo casual?"
Você
Ouço sons
Suaves sinais
Soando saudosos.
Saudades suaves.
Sons saudosos.
Ouço sinais
Soando suaves.
Sons saudosos
Soando sinais.
Suaves saudades.
Ouço o sopro.
Sua saudade.
Sinto você...PS: não tenho a quem dedicar essa poesia, que escrevi alguns anos atrás. Mas fica pra tod@s @s apaixonad@s de hoje. Feliz dia dos (sem) namorados.
sábado, 11 de junho de 2011
Dia dos (sem) namorados
-Queria passar o dia dos namorados sem medo...
-Mas do que você tem medo?
-De passar o dia dos namorados sempre assim. É sempre o mesmo medo.
-Mas isso que você sente é medo mesmo?
-Você quer filosofar sobre meus sentimensos? Eu chamo isso que sinto de medo. Talvez seja apenas uma vontade de não estar sozinho. Talvez seja a solidão gritando dentro de mim, se impondo. Talvez eu queira seguir um roteiro de filme: sofrer, lutar, amar, ser feliz pra sempre... É até engraçado (se é que se tem graça nisso mesmo), mas eu queria ter mais segurança dentro de mim, ser mais confiante, menos arrogante. "Valorize quem está ao seu lado" é balela isso. Não consigo enxergar ninguém aqui perto. Se você souber de algo, me avise por favor.
-rsrs Dramático!
-Agora o nome do meu sentimento é drama? Hahahahaha Você tem que se definir, porque está me arrumando zilhões de definições, mas está meio perdido nas suas...
-Agora você me confundiu.
-E você, não tem essa vontade de ter alguém por perto também?
-Claro que sim, mas não tenho pensado muito nisso. Quer dizer, pensar eu penso, mas tenho me ocupado com outras coisas pra não dar tanta atenção a esse assunto.
-Mas por que foge de si mesmo?
-Porque eu sei o quão importante isso é pra mim, e como estou sozinho, não quero sofrer em dobro: pensar em estar com alguém e aceitar minha solidão. Prefiro me ocupar com outros pensamento.
-Ocupar-se com outros pensamentos... Sei. Isso é o que você está me dizendo, é o que diz para os outros. Mas o que pensa pra si mesmo é isso também?
-Agora você que quer filosofar sobre minha vida?
-A gente está conversando, não?!
-É...
-Levanta a cabeça, vamos continar o papo. Pra que devemos fugir de nós mesmos? Não quero continuar me trancando no quarto. Quero ser eu mesmo o tempo todo. Com ou sem medo. Com ou sem alguém...
-É... Mas é difícil aceitar a vida que eu levo. É difícil ser aceito assim. Em todo lugar que vou tem gente acompanhada. E eu sempre sozinho. Ninguém fala nada, mas sinto olhares...
-Você e seus sentimentos, hem...
-rsrs Eles me encaram. Os meus sentimentos, quero dizer.
-Hahahahaha. Eles sempre estão conosco, se você não "sentiu" ainda...
-Engraçadinho!!!
-Mas é verdade.
-Eu sei que é verdade.... Infelizmente o medo de ficar sozinho todo dia dos namorados ainda está comigo. Talvez porque eu esteja sozinho este ano de novo.
-Você está sendo radical. Se estivesse com alguém, teria outra reclamação, tenho certeza!
-Pode ser, mas preferiria ter outra reclamação, porque a mesma todo ano me deixa com mais medo. Hahahahaha. Seria bom variar os sentimentos, se não, quando enfim estiver com alguém, não vou saber como agir.
-Você tem razão. Hahahahaha
-Viu, agora estamos até rindo.
-Nem todo sentimento tem que ser negativo o tempo todo.
-Obrigado pela conversa, mas estou no meu horário.
-Foi bom te encontrar aqui no Café.
-Nem perguntei seu nome...
-Você está sempre por aqui esse horário?
-Algumas vezes na semana. E o seu nome?
-Em alguma dessas vezes eu te conto. Pra que saber tudo num dia só?
-É o medo de ficar sozinho...
-Não tem jeito, hem... Viva outro sentimento um pouco. Tenho que ir agora.
-Até mais! Vou deixar o medo pra lá e viver meu desespero, então!
-Mas do que você tem medo?
-De passar o dia dos namorados sempre assim. É sempre o mesmo medo.
-Mas isso que você sente é medo mesmo?
-Você quer filosofar sobre meus sentimensos? Eu chamo isso que sinto de medo. Talvez seja apenas uma vontade de não estar sozinho. Talvez seja a solidão gritando dentro de mim, se impondo. Talvez eu queira seguir um roteiro de filme: sofrer, lutar, amar, ser feliz pra sempre... É até engraçado (se é que se tem graça nisso mesmo), mas eu queria ter mais segurança dentro de mim, ser mais confiante, menos arrogante. "Valorize quem está ao seu lado" é balela isso. Não consigo enxergar ninguém aqui perto. Se você souber de algo, me avise por favor.
-rsrs Dramático!
-Agora o nome do meu sentimento é drama? Hahahahaha Você tem que se definir, porque está me arrumando zilhões de definições, mas está meio perdido nas suas...
-Agora você me confundiu.
-E você, não tem essa vontade de ter alguém por perto também?
-Claro que sim, mas não tenho pensado muito nisso. Quer dizer, pensar eu penso, mas tenho me ocupado com outras coisas pra não dar tanta atenção a esse assunto.
-Mas por que foge de si mesmo?
-Porque eu sei o quão importante isso é pra mim, e como estou sozinho, não quero sofrer em dobro: pensar em estar com alguém e aceitar minha solidão. Prefiro me ocupar com outros pensamento.
-Ocupar-se com outros pensamentos... Sei. Isso é o que você está me dizendo, é o que diz para os outros. Mas o que pensa pra si mesmo é isso também?
-Agora você que quer filosofar sobre minha vida?
-A gente está conversando, não?!
-É...
-Levanta a cabeça, vamos continar o papo. Pra que devemos fugir de nós mesmos? Não quero continuar me trancando no quarto. Quero ser eu mesmo o tempo todo. Com ou sem medo. Com ou sem alguém...
-É... Mas é difícil aceitar a vida que eu levo. É difícil ser aceito assim. Em todo lugar que vou tem gente acompanhada. E eu sempre sozinho. Ninguém fala nada, mas sinto olhares...
-Você e seus sentimentos, hem...
-rsrs Eles me encaram. Os meus sentimentos, quero dizer.
-Hahahahaha. Eles sempre estão conosco, se você não "sentiu" ainda...
-Engraçadinho!!!
-Mas é verdade.
-Eu sei que é verdade.... Infelizmente o medo de ficar sozinho todo dia dos namorados ainda está comigo. Talvez porque eu esteja sozinho este ano de novo.
-Você está sendo radical. Se estivesse com alguém, teria outra reclamação, tenho certeza!
-Pode ser, mas preferiria ter outra reclamação, porque a mesma todo ano me deixa com mais medo. Hahahahaha. Seria bom variar os sentimentos, se não, quando enfim estiver com alguém, não vou saber como agir.
-Você tem razão. Hahahahaha
-Viu, agora estamos até rindo.
-Nem todo sentimento tem que ser negativo o tempo todo.
-Obrigado pela conversa, mas estou no meu horário.
-Foi bom te encontrar aqui no Café.
-Nem perguntei seu nome...
-Você está sempre por aqui esse horário?
-Algumas vezes na semana. E o seu nome?
-Em alguma dessas vezes eu te conto. Pra que saber tudo num dia só?
-É o medo de ficar sozinho...
-Não tem jeito, hem... Viva outro sentimento um pouco. Tenho que ir agora.
-Até mais! Vou deixar o medo pra lá e viver meu desespero, então!
sexta-feira, 3 de junho de 2011
Último suspiro
Passava pela rua de cima, diferente da que costumava ir para casa, porque recebera uma carona até ali perto. No segundo quarteirão, viu um jovem sentado na calçada, de frente para um terreno baldio, soluçando de tanto chorar. O homem parecia muito abalado. Não costumava ser um cara que se preocupava tanto com os outros, não excessivamente, não era ligado em direitos humanos, em lutas coletivas, mas teve um estalo e resolveu intervir:
-Ei, moço, o que você tem? Está passando mal? - perguntou, meio timidamente.
-Não se preocupe. Estou bem. - disse o homem, soluçando, olhando para cima para ver quem o interpelava.
-Me conte o que aconteceu. Por que você chora? Parece tão transtornado!
-É difícil você se tornar invisível, ninguém pra saber da sua vida, se está tudo bem, se quer sair pra conversar. Não dá mais pra continar nessa vidinha. Nem vidinha posso chamar esse vazio...
-Mas você tem que aguentar, tem que superar toda essa tristeza. - insistia, agora sentado ao lado do homem na calçada.
-Eu não consigo me imaginar mais assim. Não sou apenas triste, vivo na solidão. Chega uma hora que a gente cansa de chorar sozinho...
Chorou sua solidão nos ombros daquele que o ouvira por dois minutos, mas que representava tanto tempo, tão longo tempo na sua tristeza... Suspirou e sua alma finalmente teve um último momento de vida. Era o fim de sua tristeza e de sua solidão. Na hora da morte, encontrou sua última conversa.
PS: a título de curiosidade, este texto foi escrito do fim pro começo, eu comecei com o último parágrafo até chegar ao primeiro. Depois só fiz uns ajustes. Foi um exercício bem legal.
-Ei, moço, o que você tem? Está passando mal? - perguntou, meio timidamente.
-Não se preocupe. Estou bem. - disse o homem, soluçando, olhando para cima para ver quem o interpelava.
-Me conte o que aconteceu. Por que você chora? Parece tão transtornado!
-É difícil você se tornar invisível, ninguém pra saber da sua vida, se está tudo bem, se quer sair pra conversar. Não dá mais pra continar nessa vidinha. Nem vidinha posso chamar esse vazio...
-Mas você tem que aguentar, tem que superar toda essa tristeza. - insistia, agora sentado ao lado do homem na calçada.
-Eu não consigo me imaginar mais assim. Não sou apenas triste, vivo na solidão. Chega uma hora que a gente cansa de chorar sozinho...
Chorou sua solidão nos ombros daquele que o ouvira por dois minutos, mas que representava tanto tempo, tão longo tempo na sua tristeza... Suspirou e sua alma finalmente teve um último momento de vida. Era o fim de sua tristeza e de sua solidão. Na hora da morte, encontrou sua última conversa.
PS: a título de curiosidade, este texto foi escrito do fim pro começo, eu comecei com o último parágrafo até chegar ao primeiro. Depois só fiz uns ajustes. Foi um exercício bem legal.
segunda-feira, 23 de maio de 2011
Entulho Humano
O Bicho
(Manuel Bandeira)
Vi ontem um bicho
Na imundície do pátio
Catando comida entre os detritos.
Quando achava alguma coisa,Na imundície do pátio
Catando comida entre os detritos.
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.
O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.
O bicho, meu Deus, era um homem.
Do Antônio Mello: Entulho Humano
A foto acima foi tirada em Ipanema/RJ dia 23/04/2011 e divulgada pelo Twitter do @blogdomello e no Blog do Mello
Famílias saem do armário
Mais que novo direito, unanimidade no STF é recusa a uma discriminação injusta, diz pesquisadora
A astúcia do relator alçou voos mais do que poéticos como é sua marca na corte. O ministro Britto falou de sexo e prazer e lançou a norma heterossexista para escanteio, ao inspirar-se em Nietzsche para proclamar a supremacia da liberdade individual no campo da sexualidade. Sem rodeios, declarou que a repressão sexual era uma “criação dos homens”, em uma citação sem lirismo de Foucault. Mas foi sóbrio e reafirmou os limites à liberdade sexual: estupro, incesto e pedofilia estão fora desse quadro argumentativo, pois são violações da liberdade sexual de outras pessoas. Os limites foram como um aposto ao vocativo de abertura do advogado que representou a voz da CNBB na tribuna – “poligâmicos, incestuosos, alegrai-vos. Eis aqui uma excelente tese para justificar os seus comportamentos”, disse, em tom jocoso, já prevendo qual seria a decisão do tribunal.
A verdade é que somente como retórica popular e conservadora a ação de união civil poderia ser comparada a um novo estado de anomia no campo da regulação da sexualidade na sociedade brasileira. O que o STF decidiu foi uma demanda justa por reconhecimento – casais gays serão protegidos pelo Estado e terão seus direitos garantidos. Uma demanda simples, devendo ser entendida antes como uma recusa às interpretações injustas e restritivas que mesmo como um novo direito. Todos os ministros citaram o artigo 3º da Constituição Federal, que veda a discriminação por sexo. Impedir que duas mulheres sejam reconhecidas como uma entidade familiar para fins de proteções jurídicas é, portanto, uma discriminação injusta. Foi com essa simplicidade argumentativa que a ação saiu vitoriosa da corte.
Nem tão simples foram os flertes com as teorias feministas e de gênero para sustentar que a anatomia não é um destino para os corpos. Vencer a tese de que a descrição anatômica das genitálias demarca o campo das sexualidades possíveis foi um desafio mais tortuoso que sustentar a igualdade entre heterossexuais e homossexuais. Alguns ministros optaram por escapar desse terreno movediço que levou Simone de Beauvoir a afirmar que “o corpo é uma situação” ou que “não nascemos mulheres, mas nos tornamos mulheres”, para concluir que nossos desejos sexuais não estão programados por nossas genitálias. Grande parte dos ministros fez uso de uma categoria romântica e bem recebida aos ouvidos de uma sociedade patriarcal – o afeto. Afeto é o que aproxima os fora da lei de gênero da norma heterossexista sobre como devem se guiar as relações familiares. Para um homem e uma mulher, há o amor e a paixão; para os gays, a felicidade e o afeto. Mesmo não sendo um jogo retórico inocente, essa foi a estratégica argumentativa possível para o sucesso de uma ação que provoca os fundamentos de uma ordem social centrada na família heteronormativa, que falsamente presume a biologia como um destino.
O ministro Gilmar Mendes anunciou que a ação pode ter sido o início de um novo tempo em que o “pensamento do possível” nos mostrará os desdobramentos de famílias gays serem legitimamente entidades para a vida pública. Se por “pensamento do possível” surgirem demandas por comparação entre a união civil e o casamento, adoção de crianças, acesso às tecnologias reprodutivas, além de conquistas mais prosaicas, como representação dos novos arranjos familiares nos livros didáticos, nas histórias infantis ou nos programas de televisão, um verdadeiro horizonte de igualdade foi aberto com essa decisão do STF. Não há por que temer as mais diversas surpresas que essa ação nos provocará – a igualdade é ambiciosa e a força do movimento gay mostrará o conjunto de domínios da vida que as novas famílias ocuparão.
O STF considerou que essa decisão rompeu um longo “silêncio eloquente”. A origem do silêncio é a homofobia, um falso preconceito moral que subordina e oprime os fora da lei de gênero heterossexista. Mas a ordem jurídica democrática mostrou seu vigor – mesmo sem a devida mudança de mentalidades da sociedade brasileira, o princípio da igualdade saiu vitorioso. As 60 mil famílias que se declararam gays para o Censo 2010 podem sair do armário sem medo da insegurança jurídica. A mais alta corte do País declarou o fim da clandestinidade para elas.
DEBORA DINIZ É PROFESSORA DA UNB E PESQUISADORA DA ANIS – INSTITUTO DE BIOÉTICA, DIREITOS HUMANOS E GÊNERO
Blog do Favre
Debora Diniz – O Estado de S.Paulo
Imagine um juiz da mais alta corte do País proclamar que “sexo não é uma reprimenda dos deuses frente ao gênero humano, mas um regalo da natureza”. Ou que “pertencer ao sexo masculino ou feminino é apenas um fato que se inscreve nas tramas do imponderável, do incognoscível, da química da própria natureza”. Pois foi assim que o ministro Ayres Britto, relator da ação de união civil entre pessoas do mesmo sexo, abriu a votação histórica que considerou a união civil um direito que independe das práticas sexuais dos casais. Se afetos e desejos regem as relações intersubjetivas para o projeto de família, casais heterossexuais e homossexuais igualmente devem ser protegidos por nosso ordenamento jurídico. A votação foi unânime.A astúcia do relator alçou voos mais do que poéticos como é sua marca na corte. O ministro Britto falou de sexo e prazer e lançou a norma heterossexista para escanteio, ao inspirar-se em Nietzsche para proclamar a supremacia da liberdade individual no campo da sexualidade. Sem rodeios, declarou que a repressão sexual era uma “criação dos homens”, em uma citação sem lirismo de Foucault. Mas foi sóbrio e reafirmou os limites à liberdade sexual: estupro, incesto e pedofilia estão fora desse quadro argumentativo, pois são violações da liberdade sexual de outras pessoas. Os limites foram como um aposto ao vocativo de abertura do advogado que representou a voz da CNBB na tribuna – “poligâmicos, incestuosos, alegrai-vos. Eis aqui uma excelente tese para justificar os seus comportamentos”, disse, em tom jocoso, já prevendo qual seria a decisão do tribunal.
A verdade é que somente como retórica popular e conservadora a ação de união civil poderia ser comparada a um novo estado de anomia no campo da regulação da sexualidade na sociedade brasileira. O que o STF decidiu foi uma demanda justa por reconhecimento – casais gays serão protegidos pelo Estado e terão seus direitos garantidos. Uma demanda simples, devendo ser entendida antes como uma recusa às interpretações injustas e restritivas que mesmo como um novo direito. Todos os ministros citaram o artigo 3º da Constituição Federal, que veda a discriminação por sexo. Impedir que duas mulheres sejam reconhecidas como uma entidade familiar para fins de proteções jurídicas é, portanto, uma discriminação injusta. Foi com essa simplicidade argumentativa que a ação saiu vitoriosa da corte.
Nem tão simples foram os flertes com as teorias feministas e de gênero para sustentar que a anatomia não é um destino para os corpos. Vencer a tese de que a descrição anatômica das genitálias demarca o campo das sexualidades possíveis foi um desafio mais tortuoso que sustentar a igualdade entre heterossexuais e homossexuais. Alguns ministros optaram por escapar desse terreno movediço que levou Simone de Beauvoir a afirmar que “o corpo é uma situação” ou que “não nascemos mulheres, mas nos tornamos mulheres”, para concluir que nossos desejos sexuais não estão programados por nossas genitálias. Grande parte dos ministros fez uso de uma categoria romântica e bem recebida aos ouvidos de uma sociedade patriarcal – o afeto. Afeto é o que aproxima os fora da lei de gênero da norma heterossexista sobre como devem se guiar as relações familiares. Para um homem e uma mulher, há o amor e a paixão; para os gays, a felicidade e o afeto. Mesmo não sendo um jogo retórico inocente, essa foi a estratégica argumentativa possível para o sucesso de uma ação que provoca os fundamentos de uma ordem social centrada na família heteronormativa, que falsamente presume a biologia como um destino.
O ministro Gilmar Mendes anunciou que a ação pode ter sido o início de um novo tempo em que o “pensamento do possível” nos mostrará os desdobramentos de famílias gays serem legitimamente entidades para a vida pública. Se por “pensamento do possível” surgirem demandas por comparação entre a união civil e o casamento, adoção de crianças, acesso às tecnologias reprodutivas, além de conquistas mais prosaicas, como representação dos novos arranjos familiares nos livros didáticos, nas histórias infantis ou nos programas de televisão, um verdadeiro horizonte de igualdade foi aberto com essa decisão do STF. Não há por que temer as mais diversas surpresas que essa ação nos provocará – a igualdade é ambiciosa e a força do movimento gay mostrará o conjunto de domínios da vida que as novas famílias ocuparão.
O STF considerou que essa decisão rompeu um longo “silêncio eloquente”. A origem do silêncio é a homofobia, um falso preconceito moral que subordina e oprime os fora da lei de gênero heterossexista. Mas a ordem jurídica democrática mostrou seu vigor – mesmo sem a devida mudança de mentalidades da sociedade brasileira, o princípio da igualdade saiu vitorioso. As 60 mil famílias que se declararam gays para o Censo 2010 podem sair do armário sem medo da insegurança jurídica. A mais alta corte do País declarou o fim da clandestinidade para elas.
DEBORA DINIZ É PROFESSORA DA UNB E PESQUISADORA DA ANIS – INSTITUTO DE BIOÉTICA, DIREITOS HUMANOS E GÊNERO
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