terça-feira, 12 de junho de 2012

Um mês e mais nenhum dia


Hoje é comercialmente o dia dos namorados. E das namoradas. E dos namorados com as namoradas. Na verdade, é mais um dia normal, como todo dia. Mas vou aproveitar a data comercial para falar – mais uma vez – sobre amor e frustração, que é o assunto mais comum neste blog. O relato a seguir é de algo que ocorreu há 7 anos, vejam quanto tempo! Passei o fim de semana revirando CDs com arquivos antigos e encontrei alguns textos perdidos, entre os quais o que segue. Notem que minha vida sentimental quase não mudou nesse período, parece que as histórias sempre se repetem. Será que só comigo isso acontece?

Um mês e mais nenhum dia

Citando uma música do Jota Quest “Essa não é mais uma carta de (des)amor, são pensamentos soltos traduzidos em palavras, pra que você possa entender, o que eu também não entendo. Amar não é ter que ter sempre certeza, é aceitar que ninguém é perfeito pra ninguém, é aceitar ser você mesmo...”

Nº de vezes que enviei e-mail: 3
Nº de vezes que liguei: sem precedentes, sem sucesso
Nº de vezes que chorei: incontável

A solidão às vezes faz bem, mas é melhor quando se está só por escolha própria do que pelo desprezo do próximo. É melhor estar só acompanhado de seus pensamentos positivos e planos, do que acompanhado de uma incerteza, sem saber o motivo que resultou nessa solidão. É muito bom conhecer pessoas novas, diferentes, ainda mais quando existe carisma, atração, quando nasce uma relação do que parece ser um simples encontro. E essa relação – atente-se – pode ser de diferentes formas. Pode ser uma simples amizade, uma amizade colorida, ou ainda uma paixão ardente. Claro que isso ninguém escolhe, ninguém aciona um botão no coração que faz o que você quer, ninguém escolhe se apaixonar, ninguém escolhe ter afinidades, as coisas apenas acontecem no seu fluxo natural. Mas nem sempre esse fluxo nos parece natural. Principalmente quando é interrompido, seja lá qual for o motivo. 

Vejamos um exemplo. Você conheceu uma pessoa. A princípio é apenas uma companhia para falar ao telefone depois do trabalho, para se comunicar pelo celular, por e-mails. Depois tornam-se companheiros de cinema, sempre juntos admirando a 7ª arte. Então passam para algo mais íntimo, ainda no campo da amizade: vão assistir a um DVD, convidado e na casa da sua companhia. DVD é pouco, resolvem fazer pizza juntos. Olha que legal! Assistir a um DVD comendo a pizza que vocês mesmos preparam. É interessante lembrar que sempre deixamos claro qual a nossa intenção nisso tudo: amizade! Bom, a pizza não demora muito e logo está no forno. Ham... Estamos famintos. Enquanto isso vamos ao DVD. 2001 – uma odisséia no espaço. Já tinha ouvido falar, mas nunca havia assistido – e não foi dessa vez que assisti – e confesso não ter me empolgado muito com o filme, o que nos fez desistir no meio do caminho. Mas ainda tinha uma pizza para devorar, o que nos animou. Pronto, a pizza está no ponto, e aparentemente uma delícia... É, confesso que já comi pizzas melhores, e muito melhores, mas tudo bem, não passamos fome. Conversamos mais um pouco, logo fui embora. Apesar de o filme e a pizza não terem sido tão bons assim, a companhia daqueles momentos foi interessante. Combinamos de novo, e lá fomos nós para outra sessão de “cinema em casa”. O filme dessa vez me foge à memória, ou teríamos assistido à TV? Isso pouco importa, porque no meio do filme ou do programa de TV, seja qual for, aconteceu algo que nunca sequer jamais deveria ter acontecido: um toque. Mas para explicar esse “toque” vou descrever a situação em que nos encontrávamos dispostos na “sala de TV”, que na verdade era o próprio quarto, já que a casa não era nada grande. Estávamos sentados na cama, sob o edredom, já que estava frio. Agora volto ao toque. Então, o toque... Aconteceu sob o edredom, senti seus dedos tentando tocar minha mão, meu coração disparou, me vieram zilhões de pensamentos, sem saber o que fazer. Finalmente, decidi que ia deixar rolar. Me arrependo! Não pensem vocês que não foi legal, mas a forma como tudo acabou foi um tanto quanto estranha (acho que nem começou, mas vocês sabem, eu sou muito “bobão” mesmo, acredito em contos de fadas, duendes, Papai Noel, coelhinho da Páscoa, etc.).

Mas, claro, antes de descrever como “tudo acabou”, vou continuar o que falava. Os toques... Foram emocionantes. Me senti um garotinho tentando seu primeiro beijo, foi SIM-PLES-MEN-TE LIN-DO. Pena que acabou. Os toques... de repente se transformaram em carícias na nuca, afago no rosto, no cabelo, que lindo isso tudo. Nos olhamos nos olhos poucas vezes, mas me lembro até hoje daquele olhar de quem parecia ser ainda criança. Acho que não era mais. Mas para mim sim... Que saudade.
Smack! Ops, nos beijamos... Foi lindo, mágico... Não deveria ter acontecido. Ficamos juntinhos até tantas da madrugada, nos tocando – sem intenções sexuais, obviamente. Fui embora. Nos falamos no dia seguinte. Nos vimos no dia seguinte, e em todos os seguintes dias até o final daquele mês. Nos conhecíamos. Ou não. Percebi, com o tempo, sua timidez e sua introspectividade, não falava de si, não me deixar conhecer seus pensamentos, não me compartilhava seus sentimentos. Eu, particularmente, sou meio “grudento”. Sabe aquela pessoa que vive “lambendo”, beijando toda hora? Então, sou eu. Eu acho que isso não agradou muito, porque depois de uns dias percebi certo distanciamento, me negava beijos, dizia estar sem vontade naquele momento, mas depois, quando eu pedia outro, me negava novamente. Não me importei. Ficar junto estava sendo suficiente para mim. Aquele anjinho dormindo todos os dias depois do trabalho também não me incomodava, e eu acompanhava tudo, fazendo carinho e dando beijinhos enquanto dormia meu anjo. Não pensava em mais nada, só esperava o momento de chegar o fim da tarde e o anoitecer. Chorei na sua frente algumas vezes, duas talvez, cobrando mais proximidade, mas era uma pessoa fria, o que eu poderia fazer, as pessoas são diferentes mesmo, não são? Aceitei, mas sempre tentava entrar no assunto “sentimento”. Inútil. Fugia do assunto, desconversava, fazia tudo parecer natural, como se minhas perguntas não existissem. Não me arrependo de ter “corrido atrás”, insistido da forma como insisti. O que acontece é que não sou tão orgulhoso assim e não tenho vergonha de buscar minha felicidade. Sentimentos para mim não são motivo de humilhação. Amar não é feio! Um dia, mais uma vez no cinema, tentei abordar novamente o assunto, questionando sobre suas intenções a meu respeito. A resposta veio: “Quero com você aquilo que combinamos quando nos conhecemos”. Bom, para quem não se lembra, o “combinado” era apenas “amizade”. Não nego que vivíamos uma amizade, colorida claro... Isso me deixou inquieto demais, e naquela noite insisti até o ponto de me tornar inconveniente, mas nenhuma resposta veio, eu lhe perguntava na sua frente, e parecia que eu nem estava lá, ou que eu não havia dito nada. 

Me senti tão triste. E ainda me sinto assim. Nesse momento eu já tinha a certeza do que viria depois. Quando estávamos na porta de sua casa, me deu uma desculpa que estava com muita dor de cabeça e que por isso não me convidaria para entrar, que depois nos falaríamos. Entrou. Chorei. Chorei. Chorei. Ah, bem lembrado, quase todas as vezes em que eu pedia o beijo e que me era recusado, a dor de cabeça era a desculpa de praxe. Foi tudo muito estranho: primeiro amizade, conforme combinado. Mas como sentimento a gente não controla, depois aconteceu algo mais. E, depois de até beijar na boca e me ouvir dizendo que gostava de estar ali e tudo mais, me diz que não tinha nenhuma outra intenção senão amizade. Mas espera aí. Que amizade era essa combinada que permitiu beijo na boca? Sem comentários. E agora parece que nem essa amizade “pura” existe mais. Então acabou assim, eu sem saber porque se “entregou” pra mim num momento e no outro disse que não queria mais nada. Foi muito rápido, muito bom, mas muito sofrido, dolorido, machucado. Não entendo como uma pessoa que aceita uma outra em sua casa todos os dias, recebe carícias, beijos, tortinhas de morango, pode simplesmente sumir no mundo, não atender telefonemas, ou mesmo responder e-mails. Eu até perguntei certa vez “Você gosta de mim?” e veio a resposta “Gosto mais quando você traz tortinha de morango” me disse isso um dia depois de tê-la levado. Como não sei o que se passa naquela mente, fica tudo assim, sem compreensão. Agora me encontro só, acompanhado de uma incerteza, sem saber o motivo que resultou nessa solidão. Eu apenas gostaria de saber o porquê.
Por quê?

sexta-feira, 8 de junho de 2012

A vida pede o tempo todo

o tempo todo
a vida pede socorro
o tempo todo
a vida pede um sorriso
um abraço
a vida pede
o tempo todo
pra todo mundo
basta olhar
bem lá no fundo

sábado, 26 de maio de 2012

Amor de uma tonelada


É mais do que eu pensava e menos do que eu precisava. Uma paixão mais ou menos que me faz sofrer, se é que existe paixão mais ou menos. Acho que existe, sim. Ela te leva ao topo do mundo e te derruba logo em seguida, como se você se aventurasse numa montanha russa. Eu nunca estive numa montanha russa, apenas visitei a paixão mesmo. Amor, paixão, pode-se dizer qualquer coisa sobre isso, que há diferenças, mas para mim o que importa em tudo é que há um eu e um outro em qualquer caso, e é aí que a confusão começa. Quero trazer o outro pra minha vida, pro meu jeito de ser. Quero aceitá-lo em mim, tê-lo por perto, possuí-lo. E espero o mesmo querer da outra parte. As expectativas que crio são tão imensas, impossível não querer o mundo todo e mais a Lua que orbita o planeta. Querer pouco é falta de perspectiva. Eu quero tudo. Mas, como é de se esperar no clichê da minha vida sentimental, quando eu quero demais, não sou querido. Quase visualizo isso como regra do meu batimento cardíaco. Quase, porque em algum momento isso não ocorreu, em outras relações, que agora são passado e por isso não são mais interessantes. Olhar para trás não é repetir o que já fiz, ou dizer de novo o que disse outra vez. Levar as experiências para a vida toda deve ser algo maior que isso, como estar disposto a viver algo novo de novo, sem pensar que já sei tudo como resolver.

É mais do que eu pensava porque eu tenho tanta vontade de grudar no abraço e no beijo na boca, que não me caibo em mim mesmo. E é menos do que eu precisava porque a participação do outro não é tão ativa. Me isolo em tanto sentimento, ilhado. Quando estudei linguística, aprendi que há níveis de leitura de um texto. Está lá nos manuais de semiótica francesa. A paixão deve ter níveis de leitura também, mas não tive acesso a esse tipo de teoria ainda, só fico na especulação. Primeiro nível: o eu ama o outro. Segundo nível: uma pessoa quer ficar junto com outra. Terceiro nível: o amor não é fácil. O grande problema é que me meter a especulador de teorias do amor não me faz melhor. Talvez eu me sinta melhor por traçar algumas ideias, por evidenciar o indecifrável mundo dos amantes, ainda que decifrar apenas aparentemente.

Não me importa se alguém vai ler isto. Ou, em lendo, se vai gostar. O imperativo é eu escrever, dizer, rascunhar as ideias, os sentimentos, as batidas do meu coração, que ainda não aprenderam a dançar, descompassadas que são. Teimoso como só ele, ainda vai insistir um pouco mais; pra que desistir tão fácil e achar que a paixão é impossível, de tanta dor que causa? Para os cristãos, todo o sofrimento de Jesus não é traduzido exatamente em amor? Por que, então, a dor da minha paixão será toda ruim sempre? Não sou Jesus, mas tenho dor. O meu sofrimento é outro, aquele do “amor não é fácil” que eu já citei e que me remete a Marisa Monte:

Não é fácil não pensar em você. É estranho não te contar meus planos. Não te encontrar todo dia de manhã, enquanto eu tomo meu café amargo...

Já disse meu poeta favorito, Marcelino Freire, que o amor deixa marcas inesquecíveis:

Amor é a mordida de um cachorro pitbull que levou a coxa da Laurinha e a bochecha do Felipe. Amor que não larga. Na raça. Amor que pesa uma tonelada. Amor que deixa. Como todo grande amor. A sua marca.

É isso. O amor vai embora e tudo que sobra são as lembranças, as frustrações e as palavras – as ditas e as pensadas, as não ditas e as ensaiadas.

domingo, 22 de abril de 2012

Inútil

Não sabia que não poderia fazer tudo quanto quisesse. Pensava que a vida apresentada seria sempre igual, comigo ganhando. Lucrando com a vantagem de ser sempre superior, caminhando pelos "s" tortuosos por onde só eu conseguia andar. As palavras que tentavam me convencer não surtiam efeito, como se estivessem vencidas, ou como se fossem placebos. Mais inutilidade, apenas no modo como me descrevem agora. Me transformei naquilo que eu ignorava: inúteis eram aquelas palavras comigo... Me resta apenas - e sempre o que resta é a inutilidade que sobra -, falar comigo mesmo sobre uma vida que não aconteceu.

domingo, 8 de abril de 2012

Porta aberta


O portão estava aberto. O portão do prédio estava aberto. E eu entrei. E eu fechei o portão quando entrei. Suava frio, um tanto nervoso, com medo, ansioso. Subi as escadas. Térreo. Um lance de escadas. Primeiro andar. Pensei que seria mais pra cima. Segundo lance de escadas. Segundo andar. Acho que falta mais um pouco. Terceiro andar. A porta estava aberta, nem pude confirmar o número do apartamento. A luz acesa e a porta aberta. Deveria ser ali. Bati na porta. Chamei. “Entra”, veio em resposta. Fechei a porta. Tranquei a porta, porque essa não podia ficar aberta mais. Abrira-se para mim, mais ninguém. Naquela noite. Não sabia bem o que esperar, como dizer oi, sei lá. Demos as mãos, e ganhei um selinho: “Oi”. Fascinei. Conversamos, falamos da vida, dos dias, das noites. Do sono, da falta de dormir. Das conquistas mais recentes, das histórias mais tristes, dos abandonos e das carências. Falamos de nós, ouvi mais. Havia algo diferente naquilo. Pensemos. Portão aberto. Porta aberta. Beijo como oi. Era só chegar. Bastaria estar lá que tudo aconteceria. Parecia. O mundo fluía. E se eu voltasse lá outro dia e não fosse mais o mesmo lugar, a mesma pessoa, a mesma porta? Se fosse para fluir, tudo seria diferente. Não. Eu não voltaria depois. Eu participaria desse fluir de rio, eu estaria no rio, não voltaria para vê-lo depois. Pronto. Era isso mesmo. Me agarrei em seus cabelos e nadei, não me afoguei. Sigo até agora os caminhos que suas águas comandam. Espero não chegar a destino algum ainda, continuar nesse nadar contigo me segurando, me protegendo, me comandando. Águas que se parecem turvas às vezes, que se agitam tanto outras vezes. Águas que lavam as tristezas, que me tiram das profundezas da solidão. Águas que ameaçam me afogar, parece, só para terem o prazer de me salvar... Águas que desaguam no mar, mas o mar é tão imenso, que nem sei se quero chegar lá. Posso me perder de você, encontrar a porta fechada e não te ter mais para abri-la.

"me agarrei em seus cabelos, sua boa quente pra não me afogar... tua língua correnteza, lambe minhas pernas como faz o mar... eu que não sei quase nada do mar, descobri que não sei nada de mim"

sábado, 7 de abril de 2012

Meu eu que ama


Eu quero te amar. Seu abraço me protege, me acolhe, me faz sentir-me seguro, amado, querido. Você me faz sentir. Isso basta. Eu gosto muito do modo como você conversa, do seu sorriso de meninão levado. Eu me prendo ao seu cheiro, me lembro de suas mãos todo o tempo, porque elas me tocam, eles não pedem passagem, elas são avassaladoras, teimosas. Faz ano que gosto de tudo isso em você. Quem sabe um dia ouça um eu te amo dessa boca que me beija loucamente? Mas tanto carinho já deve demonstrar isso... eu me prendo a formalidades, quando simplesmente nosso laço já existe. Mas a não oficialização me parece sempre ser a porta aberta para você sair e dizer que nunca disse que seria diferente. Morro de ansiedade. De amor. Morrer tem tudo a ver com a paixão. Tanto sofrimento, tanta insegurança, tudo é agora, aqui, tudo somos eu e você. ‘Você é um homem mais velho que eu, gosto dos mais velhos’. Sou? Gosta? Sim. É indizível quão cativante você é. Ou estou cego demais, carente demais e me amando de menos. Mas não acho que seja esse o ponto na minha vida agora. Eu converso com você pelo toque, pela língua. Sinto um desejo de te ver todo dia, de te abraçar a todo instante. Não quero pegar no seu pé, apenas abraçar... Há tanto na vida com que se preocupar, por que alguém se preocuparia tanto com abraços? Apenas abraços... Seus abraços, afinal! Os que me fazem sair do planeta, viajar como super-homem. Viver intensamente. O que seria isso? Permitir-se o amor? Viver um amor por dia, ou um por mês? Como deixar acontecer, se já está acontecendo? Nossa vida já está no gerúndio. Vivendo. Indo. Amando. Sofrendo. Abraçando. Beijando. Estamos sendo o tempo todo. Deixar acontecer e viver intensamente é poder fazer o que se quer o tempo todo? É não se apegar, não criar vínculos? Impossível. Se nos conhecemos, nos relacionamos, já estamos ligados de alguma forma. Seus braços já te marcaram no meu corpo. Já estou me moldando ao seu carinho. Suas mãos já são bem-vindas sem medo nos meus cabelos. Se eu não te vejo no escuro, consigo te ouvir, te cheirar, te lamber, te morder, te tocar. E assim te recebo na falta de luz. Amor não se implora. Ou não se deveria implorar por algo tão básico, mas tão escasso. Não é o momento certo? Como assim?! Há uma bondade imensurável quando se permite o amor. Há uma vida nova que nasce dessa brasa. Não deveria dizer essas coisas, mostram minha fraqueza. Mesmo? Entregar-se significa fraqueza agora. Sim, sou bem fraquinho, mesmo. Um papelzinho que se molha e se desmancha. Inútil. Não tenho culpa de me apaixonar por um abraço tão envolvente, que me seduz. Culpa? Não gosto de fazer as coisas e sentir culpa. Faço porque quero. Tudo que eu quero, inclusive dizer tudo que quero e parecer tão... fraco. Você pode levar tudo da minha vida. Meu amor, meus abraços, meu sorriso, minha vontade de acordar, minha inspiração para lutar cada dia, minha companhia no sofá, na cama, no café, na bebida. Você pode levar o seu cigarro embora também. Você pode tirar tudo de mim, até as esperanças de reviver um amor e de me ver sorrindo para mim mesmo no espelho. Você tem esse poder, se quiser. No entanto, uma coisa, apenas uma você nunca me privará de reviver: minhas memórias. E elas incluem tudo o que eu sou e tudo o que você me é. Pode levar tudo, dizer que é para meu bem, ou para o seu próprio. Que precisa de um momento egoísta, pensar em si. Eu não ligo. Também penso em mim mesmo, por isso que digo sem medo que tenho essa paixão toda dentro de mim. Declarar-me é também pensar em mim, porque não consigo viver com tanto sentimento me sufocando, preciso dividir esse rolo compressor que me abate com quem estiver por perto, inclusive com você. Esta é uma declaração que talvez você vá saber, porque eu a fiz para você de outro modo. Isso aqui é outra coisa. Isso sou eu falando com meu eu.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Letargia

Quero chorar. Estranha letargia me comove. Vontade sem vontade da falência múltipla de todas as possibilidades de ser. Um cansaço que ultrapassa os limites do físico, da dor nas costas, do ombro inclinado pra frente, retraído. Um peso da falta de vida, que tanto se tateia e se diz existir. Nada de mais sólido existe que seja verdadeiro. Tudo são aparências, mentiras, contos da esperança de se poder ser feliz, de um desejo de querer ser aquilo que se parece. Todos parecem felizes, e todos querem parecer felizes como os outros parecem. Isso se desmancha no ar, em casa, na cama, no sofá. Ainda que fugindo da realidade vendo a TV no domingo, comungando da bebida no barzinho, ainda assim nada muda. Nem o sorriso falso que cola alegria na fotografia. É sempre o mesmo. Letal.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

A Juventude é agora

Muito se fala em participação popular nos governos, em representação da sociedade civil. Mas será que o muito que se fala é suficiente para que se saiba o que isso significa?
Acompanhamos, no ano de 2011, a chamada pelo Governo Federal da II Conferência Nacional de Juventude, que foi um espaço de debates e onde surgiram propostas de políticas públicas para esse segmento. O processo de conferência começou nos municípios, depois passou pela fase estadual e, por último, as propostas foram levadas a nível federal. A partir daí, vão guiar as ações governamentais a nível nacional.
Durante o processo de conferência municipal, também conseguimos discutir projetos a serem implementados pelo governo local, além de podermos eleger o Conselho Municipal da Juventude, que é formado por membros da sociedade civil e por representantes do Poder Público Municipal. Nesse espaço, os cidadãos temos o poder de participar das discussões e da implementação de projetos e políticas públicas para a juventude que serão desenvolvidos no âmbito municipal, por meio da Secretaria da Juventude. Mas não apenas isso.
O Conselho também lida com questões da Juventude que envolvem promoção da saúde, propostas que contemplem os jovens em vulnerabilidade social, questões relativas a preconceito e discriminação de jovens em suas diversas diferenças sociais, econômicas, sexuais e raciais. Esse trabalho, por ser complexo, exige articulação dos conselheiros, da Secretaria da Juventude e de outros órgãos municipais, estaduais e federais, além do apoio fundamental de outros setores da sociedade civil, ONGs, associações e entidades religiosas que já trabalham com a questão da juventude em diferentes aspectos.
Embora esse Conselho seja o segundo eleito no município de Marília, é o primeiro formalizado e, por isso, o primeiro capaz de se articular com outros setores. Além disso, teremos a oportunidade de propor a criação do Fundo Municipal da Juventude, o que efetivará a importância do trabalho do Conselho na nossa cidade, já que conseguiremos obter recursos legais para a execução de serviços para os jovens pelo próprio Conselho, além de apoiar projetos da Secretaria Municipal da Juventude.
Enquanto o mundo vive uma crise neoliberal, gerada pelo próprio sistema neoliberal, cujo principal ideal é a menor presença possível do Estado na vida das pessoas, vivemos uma situação de fortalecimento do Poder Público Municipal, que começou com a criação da Secretaria Municipal da Juventude e agora chega à discussão do Fundo próprio, após a formalização do Conselho. Na contramão, a Inglaterra, por exemplo, fecha centros comunitários que desenvolvem trabalhos para jovens carentes, deixando-os à mercê da vulnerabilidade e da violência. Enquanto o Velho Mundo diz para os jovens que eles devem “se virar”, nós, no interior do Novo Mundo, mandamos um recado aos governantes de todo o planeta: a jventude não tem que ser vista como o futuro das nações, mas como o presente, e por isso precisa ser valorizada e receber todo o apoio do Poder Público. Dizer que os jovens são o futuro é querer varrer para debaixo do tapete essa questão, é deixar sempre para o próximo governante resolver isso. Não haverá futuro para os jovens que não conseguirem sobreviver ao agora.

William César Ramos Lima
Membro do Conselho Municipal da Juventude de Marília-SP

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Meu paladar fala comigo

Bebi café e senti nojo de mim mesmo. Me lembrei de um beijo mal dado, com gosto de cigarro, de um amor malfadado. Me lembrei da ilusão de um amor salvador, de uma expectativa cheia de amor, de alguém que ia me tirar da dor... Me lembrei que o beijo fora sequestrado, que meu coração fora imprudentemente enganado - talvez por mim mesmo! O café é geralmente reconfortante, me coloca em companhia de pessoas de quem gosto, me traz conversas íntimas, revelações da vida, me faz pôr os pensamentos na mesa, junto com a xícara. No entanto, dessa vez o café não seguiu essa rotina. Me trouxe esse beijo nojento à tona, escrito à tinta em minhas lembranças, sem que eu possa apagá-lo. Um tonto a martelar essas ideias, a repensar nos esquecidos momentos de outrora. Não queria isso agora. Outra hora. Mas meu sentido me denuncia: "gosto do beijo nojento? Se pensa isso, melhor rever o que lhe incomoda!". Agora é assim, meu paladar fala comigo. E dizem que não sou louco.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Minitextos sobre a vida


Olhar que atravessa a pupila, que ultrapassa a íris, que vai além da retina. Olhar sem o olho que vê, mas olhar diferente, como sentir sem o toque...


1- Rir de tudo é desespero

Rindo da vida o tempo todo, Mateus não consegue parar e pensar em nada de sério. Não quer. Porque pensar seriamente sobre a vida lhe trará certezas que ele prefere evitar; a verdade sobre si mesmo é demasiadamente deprimente, uma repetição, assim, do vazio, um eco ininteligível. Rindo, ele consegue não ser o que não querem ver. Sofrendo com toda mentira, não se importa com a verdade. Pensa que não. Mas é tudo sobre a verdade. O tal do sentido que se busca na vida é quase uma piada. Daí tantos risos de desespero, de melancolia. Mateus não sabe que o sentido é o que ele mesmo dá para seus atos, mas acredita que deve haver um sentido extraordinário que todos sabem qual é, menos ele. E viver sem o sentido da vida é viver rindo o tempo todo. Uma alegria forçada, uma mentira de verdade. Mateus vive a promessa de saber por que ri, de saber que ri de uma felicidade consciente. Vive numa tristeza clandestina, sob os escombros de um ideal que não entra em sua mente. Não importa nada do que ele faça, continua sem saber o porquê disso tudo, e ter apenas a incerteza como única certeza é não conseguir ser. Uma existência em pó é o que lhe sobra. Um pó que se une, esfumaçando uma tentativa de vida, mas que se desfaz com tão pouco, não restando forma capaz de ser, ou parecer.


2- Um desejo

A mão se aproxima da mesa. Fixo o olhar nos detalhes, nos dedos, nas unhas. Pintas, manchas. Uma cutícula fora do lugar. As dobras dos dedos enrugadas, as unhas irregulares. Ela se aproxima da mesa e eu olho sem parar, sem querer. A mão, que afaga, que seduz, que me chama. Ela se mostra tão macia, carinhosa, caridosa. A mão me convida para o mundo, me puxa para conhecer seu braço, seu ombro. Me liga ao corpo. Aquele corpo sustentado pela mão. Mas não posso fazer nada, preciso de ética, fazer a mão assinar o contrato. Segura o papel, o indicador acompanha a leitura das linhas, volta para reler uma frase. Essa mão devia ler e reler meu corpo. Minha face. Meus cabelos. Puxa meu queixo para cima, provocando um beijo. Puxa meu rosto para perto do seu, segurando meus cabelos com firmeza, a mesma da língua que me beija. Enquanto as línguas se entrelaçam, nossas mãos que estão livres fazem o mesmo. Estamos presos pelo cabelo/mão, língua/língua e mão/mão. Só nos falta enroscar os sexos. Interrompe o meu pensamento: onde eu assino?


3- O alívio da vida

João e sua irmã, Maria, andam juntos pela rua, no caminho de algum lugar. Conversam sem parar, falam de programas de televisão, de cinema, de música. Discutem sobre as melhores bandas, as melhores cenas, os melhores shows. Melhores para um, piores para o outro. Tão próximos e tão diferentes. Irmãos. Começam a se desentender em alguns pontos, irmãos sempre se desentendem, brigam. Andam pela calçada, passam em frente a uma casa, ao lado de um terreno vazio. À noite, um terreno escuro, nem há poste perto para iluminá-lo. Os irmãos seguem a discussão enquanto passam por esse terreno e, num momento só, um motociclista chega perto deles, mantém a moto ligada, aponta uma arma para o irmão e dispara duas vezes: uma em casa lado do peito. O mundo parece assustador, a morte tão próxima, como seria morrer? Um medo do depois consume o irmão, ferido, baleado. Onde está minha irmã? Sumiu. Não há mais ninguém no mundo, apenas o tiro disparado que parece ecoar sem parar pelo terreno vazio, que de tanto eco, enche-se de dor. Um sobressalto só. Os olhos do rapaz abrem-se. Tudo escuro, sob o edredom. Pensa: não posso me mexer, levei dois tiros. Apenas os olhos se movem nesse instante, quando dá conta de que acabou de sonhar. Um alívio. O dia ainda será cheio de vida.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

As meninas

O que duas moças que se conheceram agora conversam após a sessão de cinema? Aonde elas vão? Como elas se olham? Elas se desejam, ou se repelem... elas se querem, ou se envergonham?
Elas escolheram o cinema pra se conhecer, mas como se conhecer vendo um filme? Sem conversa...
Depois do cinema, o dilema. Aonde ir. Não podem ser vistas em público, porque as pessoas vão falar delas, aquelas cosias “olha aquelas duas”... No entanto, não podem se esconder de si mesmas, essa é a realidade. E o que fazer, então? Sentar na calçada pra conversar, descontrair, descobrir?
As mãos sobre as pernas cruzadas denunciam a vergonha, o mau jeito do que fazer. O olhar pra longe, a vergonha de se encarar. O que dizer nessas horas, não sabem paquerar. O que fazer, não sabem como chegar. São meninas. Adolescentes. Como elas vão agir, como um dia poderão se despir com tanta vergonha? Talvez se se agarrassem ali mesmo, na calçada daquela rua escura atrás da igreja, escondidas do crucifixo, do pecado, da imoralidade.
Atrás da igreja, da casa santa. Um beijo quebra o gelo, tira o silêncio, tira o fôlego, tira a língua pra fora... pra dentro da outra boca. Atrás da igreja tanta coisa se esconde. O padre se agarra com a secretária. Com o coroinha. E agora as meninas se beijam, descobrindo o que se tem por debaixo de tanto enigma do que é um beijo...
Escondidas, descobrem o que mais desejavam naquela noite. Descobrem que viver é mais fácil do que parece e que um beijo não acaba com o mundo.

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