segunda-feira, 23 de maio de 2011

Ser ou não ser

Revolução feminista, neoliberalismo e globalização deslocaram o lugar do jovem na sociedade atual

Publicado em 06 de maio de 2011


Joel Birman

Na atualidade, a imagem da juventude está marcada ao mesmo tempo pela ambiguidade e pela incerteza. Digo ambiguidade pois se, de um lado, a juventude é sempre exaltada na contemporaneidade, cantada que é em prosa e verso pelas potencialidades existenciais que condensaria, por outro a condição jovem caracteriza-se por sua posição de suspensão no espaço social, que se materializa pela ausência de seu reconhecimento social e simbólico.
Seria em decorrência disso que a incerteza é o que se delineia efetivamente como o futuro real para os jovens, em todos os quadrantes do mundo.
Como se pode articular essas diferentes versões da juventude na contemporaneidade, numa narrativa que seja coerente e consistente?
É preciso destacar, antes de tudo, que a possibilidade de experimentação foi o que passou a caracterizar a condição da adolescência no Ocidente, desde o final do século 18, quando as idades da vida foram construídas em conjunção com a família nuclear burguesa, em decorrência da emergência histórica da biopolítica.
Nesse contexto, a adolescência foi delimitada como o tempo de passagem entre a infância e a idade adulta, na qual o jovem podia empreender experiências nos registros do amor e das escolhas profissionais, até que pudesse se inserir no mercado de trabalho e se casar, para reproduzir efetivamente as linhas de força da família nuclear burguesa.
Os romances de formação (Bildung), na tradição literária alemã, descreveram com fartura as sagas dos jovens na abertura da modernidade. Dentre eles é preciso evocar Os Anos de Aprendizado de Wilhelm Meister (Editora 34), de Goethe, que delineou com detalhes requintados o perfil da construção moderna da adolescência, sendo até mesmo sua narrativa paradigmática.
Desde os anos 1980, no entanto, essa figuração da adolescência entrou em franco processo de desconstrução, por diversas razões. Antes de mais nada, pela revolução feminista dos anos 1960 e 70, com a qual as mulheres foram em busca de outras formas sociais de existência, além da condição materna. Isso foi a condição de possibilidade concreta para a desmontagem da família nuclear burguesa.
Com efeito, as mulheres como mães eram as peças fundamentais para fazer funcionar esse modelo familiar, pela articulação que realizavam entre a gestão doméstica e as instituições médica e pedagógica, em nome do imperativo biopolítico, de produção da qualidade de vida da população.
Em seguida, porque o deslocamento das mulheres da posição exclusivamente materna foi o primeiro combate decisivo contra o patriarcado, que forjou nossa tradição desde a Antiguidade. Os posteriores movimentos gay e transexual vieram nos rastros do movimento feminista, inscrevendo-se nas linhas de fuga da crítica do patriarcado.
Com isso, a problemática da autoridade foi efetivamente colocada na berlinda, devendo ser remanejada desde então.
Finalmente, a construção do modelo neoliberal da economia internacional, em conjunção com seu processo de globalização, teve o poder de incidir preferencialmente em dois segmentos da população, no que tange ao mercado de trabalho. De fato, foram os jovens e os trabalhadores da faixa etária dos 50 anos os segmentos sociais mais afetados pela voragem neoliberal.
Com isso, se os primeiros passaram a se inserir mais tardiamente no dito mercado, os segundos passaram a ser descartados para ser substituídos por trabalhadores jovens e mais baratos, pela precariedade que foi então estabelecida no mercado de trabalho.
Foi em consequência desse processo que o tempo de duração da adolescência se alongou bastante, ficando então os jovens fora do espaço social formal e lançados perigosamente numa terra de ninguém.
Assim, graças à ausência de inserção no mercado de trabalho, a juventude foi destituída de reconhecimento social e simbólico, prolongando-se efetivamente, não tendo mais qualquer limite tangível para seu término.
Despossuídos que foram de qualquer reconhecimento social e simbólico, aos jovens restaram apenas o corpo e a força física. É por devidamente a emergência e a multiplicação das formas de violência entre os jovens na contemporaneidade.essa trilha que podemos interpretar devidamente a emergência e a multiplicação das formas de violência entre os jovens na contemporaneidade.
Esse processo ocorre não apenas no Brasil e na América Latina, mas também em escala internacional. Pode-se depreender aqui a constituição de uma cultura agonística na juventude de hoje.
Contudo, essa cultura de combate é apenas a face de uma problemática mais abrangente, na qual o verso é a presença aterrorizante do desamparo, que marca o campo da juventude na contemporaneidade, em que o medo do futuro e a insegurança do existir se perfilam efetivamente como espectros.
No entanto, é preciso evocar ainda que, se a violência e a delinquência sempre foram atribuídas às classes populares, construindo o ethos e o habitus delas em sua estratégia de sobrevivência, elas hoje também se fazem presentes nos segmentos jovens das classes médias e das elites.
Vale dizer que, em consequência das novas condições precárias do mercado de trabalho, regulado pelo ideário neoliberal, as classes médias e as elites passaram a se defrontar com os mesmos impasses, nos registros do reconhecimento social e simbólico, que marcaram outrora apenas as classes populares.
Assim, a violência juvenil transformou-se em delinquência, inserindo-se efetivamente no registro da criminalidade. No Brasil, os jovens de classe média e das elites passaram a atacar gratuitamente certos segmentos sociais com violência. De mulheres pobres confundidas com prostitutas até homossexuais, passando pelos mendigos, a violência disseminou-se nas grandes metrópoles do país.
Ao fazerem isso, no entanto, seus gestos delinquentes inscrevem-se numa lógica social precisa e rigorosa. Com efeito, tais segmentos sociais representam no imaginário desses jovens a decadência na hierarquia social, sendo pois os signos do que eles poderão ser efetivamente no futuro, na ausência do reconhecimento social e simbólico que os marca.
Ao lado disso, a cultura agonística manifesta-se ainda nos combates que se estabelecem entre jovens nas corridas noturnas de carros, assim como nas brigas frequentes que ocorrem nos bairros frequentados pela juventude nas grandes cidades. Foi ainda nesse contexto que se estabeleceu recentemente na tradição brasileira o assassinato de pais pelos filhos, demaneira inesperada e regular.
Finalmente, a cultura da força empreende-se regularmente em academias de ginástica, onde os jovens cultuam os músculos, não apenas para se preparar para os combates cotidianos da vida real, mas para forjar também um simulacro de força na ausência efetiva de potência, isto é, na ausência de reconhecimento social e simbólico, lançados que estão aqueles no desamparo.
É nesse registro que se deve inscrever a disseminação do bullying na contemporaneidade. É preciso dizer, no que concerne a isso, que a provocação e a violência entre os jovens e crianças é uma prática social antiga. O que é novo, contudo, é a ausência de uma autoridade que possa funcionar como mediação no combate entre estes e aqueles, o que incrementou bastante a disseminação dessa prática de violência.
Ao lado disso, é preciso dizer ainda que, pela luta e pelo combate agonístico com os colegas considerados mais frágeis, os valentões preparam- -se já para o futuro, para a selva do mundo neoliberal, restringindo desde cedo o campo da competição pelo estabelecimento da hierarquia entre os corpos, pela serialização da força existente entre eles.
Não obstante tudo isso, a juventude é ainda glorificada como a representação do que seria o melhor dos mundos possíveis. A juventude seria então a condensação simbólica de todas as potencialidades existenciais. Contudo, se fazemos isso é porque não apenas queremos cultivar a aparência juvenil, por meio de cirurgias plásticas e da medicina estética, mas também porque o código de experimentação que caracterizoua adolescência de outrora se disseminou para a idade adulta e para a terceira idade.
Constituiu-se assim uma efetiva adolescência sem fim na tradição ocidental, onde se busca pelo desejo a possibilidade de novos laços amorosos e novas modalidades de realização existencial.
Seria assim o imperativo de ser, custe o que custar, o que se impõe a nós como exigência ética na contemporaneidade de maneira incontornável, consubstanciado nas linhas de fuga do desejo e delineando a figura da adolescência infinita. Por isso mesmo, nas narrativas fundadoras da subjetividade contemporânea, é o mito de Hamlet (Shakespeare) que se impõe efetivamente, deslocando a figura de Édipo que dominou o imaginário ocidental na modernidade, disseminado que foi pela versão dele estabelecida pela psicanálise.

Joel Birman é psicanalista e professor titular do Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro

Revista Cult

Do jeito que você gosta

Representação sexual, cross-dressing e intersexualidade
 
Publicado em 06 de maio de 2011 
 
Marcia Tiburi - Filósofa

Do Jeito que Você Gosta é a peça de William Shakespeare atualmente encenada em São Paulo pela Companhia Elevador de Teatro Panorâmico. Assistir a ela é uma grande oportunidade de reflexão sobre a amizade e o amor e a relação entre natureza e cultura.
Mais ainda, Do Jeito que Você Gosta pode ser lida como um forte ensinamento sobre diferenças de gênero. A protagonista da peça é Rosalinda, uma garota que, fugindo do tio autoritário, precisa travestir-se de homem. É travestida de Ganimedes que ela brincará de seduzir seu amado Orlando.
Não se aproveita bem a brincadeira de Shakespeare sem levar em conta que, naqueles tempos, mulheres não podiam fazer teatro. A encenação dessa peça constituía uma complexa banda projetiva: para representar Rosalinda, um homem se vestia de mulher.
Convencendo como mulher, ele devia, dentro da peça, vestir-se de homem e, desse modo, ser um homem que encena que é uma mulher fingindo que é um homem. Rosalinda vestida de Ganimedes brinca de ser Rosalinda na intenção de testar o amor de Orlando. Se Rosalinda é a personagem mais rica da história quando a vemos encenada por uma mulher (Carolina Fabri, na versão da Companhia Elevador), tanto mais complexa se torna ao ser representada por um ator homem que, no processo de atuação devia, em um complexo jogo de camadas, mostrar que tudo são representações.

Fácil é inscrever Rosalinda na tradição da donzela guerreira junto de Atalanta, Mulan, Joana d’Arc, Iansã, Diadorim e tantas outras. Contudo, indo mais além, o que vemos em Rosalinda é a intuição de que gênero é mais um modo de vestir e de gesticular do que um modo de ser, é mais uma medida cênica do que uma condição natural.
Travestir-se
A ideia de Simone de Beauvoir de que ninguém nasce mulher, mas se torna mulher, diz respeito a esse caráter teatral do gênero. Quando o cartunista Laerte Coutinho resolve aparecer vestido de mulher, é o fato da representação que nos confunde. Cross-dressing é um movimento com adeptos em diversos países justamente porque a “verdade” sobre a relação entre sexo e gênero já não tem mais validade cultural. Gênero é questão cênica. É apenas figurino. E, desse modo, fantasia que deve
importar a quem a escolhe. O que acontece com o sexo, por sua vez, não é diferente. Sexo é construção ideológica baseada no padrão binário (homem e mulher) inventada pela ciência e pela lei. É um padrão que o travestimento vem questionar no ato mesmo em que, confundindo as pessoas, põe em xeque a diferença sexual.

Entra em cena a precariedade do padrão desde que o binário cedeu lugar às múltiplas combinações. Intersexualidade é a categoria que surge quando homem e mulher como grau zero, como identidades naturais, tornam-se insustentáveis. Assim, em primeiro lugar, é preciso rever o ponto de vista sobre gênero: se um homem pode vestir-se de mulher, uma mulher também pode vestir-se de mulher. Uma mulher, por sua vez, pode vestir-se de homem, como um homem pode vestir-se de homem.Só que, em lugar da natureza, é a representação que surge como prática concreta dos indivíduos. Roupas são apenas representações: debaixo delas restam indivíduos singulares que não se encaixam em padrões senão por esforços discursivos e práticos que negam a realidade do particular.
Em segundo lugar, é preciso pensar a intersexualidade, nome amplo para a diversidade sexual de nossos tempos que é em si mesma a prova de que a ideia de uma natureza sexual já não se sustenta mais. O hermafroditismo tão ocultado entre nós é uma das formas de intersexualidade. Desde que a medicina criou técnicas cirúrgicas e hormonais de “correção” das sexualidades não binárias, quem nasce com um sexo “inadequado” ou “fora da norma” é sumariamente “consertado”. Mas o que a intersexualidade nos faz pensar é que não podemos mais considerar a existência de “erro” na ordem sexual. Certo é que os corpos são marcados por discursos científicos, jurídicos e essencialistas que definem sexo e gênero com base em um padrão binário.
Não há como sustentar que a anatomia de um hermafrodita seja menos “natural” do que a de outros indivíduos. A diferença é que, enquanto as anatomias bipolares são identidades construídas, o amplo campo que abriga a corporeidade hermafrodita é colocado sempre no lugar da não identidade. E quem não tem identidade não tem grupo, e quem não tem grupo é excluído quando o padrão que rege a vida em sociedade é a identidade. Quem troca de sexo usa a medicina num ato de inversão da norma.
Por essa lógica, parece bem mais razoável afirmar que todos somos intersexuais: assim como não há um rosto comum, mas apenas semelhante, os corpos e as genitálias humanas não são uniformes, jamais serão idênticos. Derivar daí uma “roupa de mulher” ou “de homem” prova apenas o caráter ideológico das representações. Contra a ideologia, a liberdade é a inversão do jogo: vestir-se “do jeito que você gosta”.

marciatiburi@revistacult.com.br

Revista Cult

Conceito de honra se diluiu e chegou até os escravos

Estudo discute a idéia de que o escravo não tinha honra e mostra como essa distinção social chegou até eles

Agência USP

Entre os séculos 16 e 18, o conceito de honra sofreu diversas modificações dentro da América Portuguesa sendo que a escravidão foi o grande mediador dessas mudanças. "A historiografia do Brasil sempre considerou que o escravo não tinha honra. Mas ao estudarmos o tema, constatamos que este conceito foi se adaptando em função do escravo, que se tornou peça importante no jogo da honra", destaca o pesquisador Jackson Fergson Costa de Farias.
Farias é autor da dissertação de mestrado Honra e escravidão: um estudo de suas relações na América Portuguesa, séculos XVI-XVIII. A pesquisa foi apresentada na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP e teve como base fontes de época como documentos de administradores oficiais, relatos de padres, sermões, relatos de viajantes e outros retratos coloniais do período. "Optei por usar o termo América Portuguesa em vez de sociedade brasileira, pois a ideia de 'Brasil' é posterior a esse período", explica.
O conceito de honra, de acordo com o pesquisador, foi se modificando com o passar dos séculos. "Na sociedade medieval, o termo honra estava associado a um pedaço de terra que a pessoa recebia diretamente do rei em pagamento por serviços prestados. Eram as chamadas 'terras honradas' destinadas, principalmente, aos nobres de origem militar", afirma Farias. "Já na passagem da Idade Média para a Moderna, a honra passou a ser associada a valores como reputação, virtude, castidade, respeito, estima e consideração, e começou a ser encarada como um atributo de distinção social", completa.
Os senhores, os escravos e a honra
Segundo Farias, na América Portuguesa esse conceito de honra foi se diluindo. "A honra passou a ser mediada pela escravidão. Ser dono de escravos colocava a pessoa numa posição diferenciada em relação aos outros e uma das formas de se tornar um homem honrado era adquirir escravos", informa. "Em Portugal, a honra havia se tornado um fator de hierarquia societária: lá vigoravam rígidos mecanismos de distinção social com a finalidade de excluir os cristãos novos [judeus que haviam se convertido ao catolicismo] e os trabalhadores mecânicos, por exemplo. Na América Portuguesa a propriedade de escravos já garantia honra a qualquer pessoa."

Mas este conceito de honra, conta o pesquisador, também chegou até o escravo. Farias cita um dos sermões do padre Antonio Vieira, dirigido aos escravos no século XVII: "ele afirma que, sendo temente a Deus, o bom escravo não foge ou se rebela, e com seu trabalho e dedicação honra ao seu senhor e ao próprio Deus", relata. Segundo o texto, conta Farias, o escravo em si não tem honra, mas se ele vive honrando a Deus, levando uma vida correta, poderá ter uma vida honrada no paraíso. "Ao analisar a construção do argumento, percebemos que o padre se dirige ao escravo como se este escravo soubesse e entendesse o conceito de honra. É um argumento usado para seduzi-lo, oferecendo algo que, tradicionalmente, a historiografia diz que ele não tinha ou, no limite, usando um argumento retórico de um jogo do qual, mesmo sem participar ativamente, o escravo conhecia e sabia das regras", conta.
A partir do século 18, alguns padres tentaram, por meio de seus sermões, a ideia de que o escravo também compartilhava da honra de seus senhores. Este argumento era usado como um modo de convencer os senhores a tratar melhor seus escravos, como uma crítica à situação que a maioria deles vivia: má alimentação, castigos, chibatadas, má qualidade das vestimentas e até mesmo a exploração sexual.
"Nos textos, quase sempre dirigidos aos senhores de escravos, aparecia a seguinte ideia: se para sobreviver o escravo precisasse se prostituir, a má fama do escravo atingiria a honra do seu senhor", explica. Ou seja, se o escravo tivesse um comportamento considerado desonroso, ele estaria desonrando ao seu senhor. Outra ideia difundida nos documentos analisados - principalmente as fontes religiosas - é que acima dos poderes do senhor de escravo, existiam os poderes de Deus. "Então se o senhor não for punido no plano terreno pelo mau tratamento dispensado ao escravo, na argumentação dos padres o senhor seria punido por Deus", conta.
Farias destaca que realizou uma pesquisa com base em documentos já publicados e conhecidos dos historiadores que lidam com o assunto e que analisou o princípio argumentativo dessas fontes. Entretanto, a avaliação dos efeitos práticos desses argumentos permanece como um tema a ser explorado. A pesquisa foi apresentada na FFLCH em agosto de 2008 e teve a orientação do professor Rafael de Bivar Marquese.

UOL

Capitalismo para os pobres, socialismo para os ricos

Franklin Cunha *

Gore Vidal disse, certa vez, preferir morar em Ravello na costa Amalfitana, do que viver nos Estados Unidos, onde os pobres viviam no capitalismo e os ricos, no socialismo. E explicou: enquanto 80% da população disputam os 20% da riqueza do país, numa luta encarniçada e sem quartel por empregos, saúde, educação, moradia, aposentadoria — isto dentro das regras de um capitalismo neoliberal pós-keinesiano e da política laissez-faire e ao arbítrio da mágica mão do mercado, os 20% dos donos dos poderes, num verdadeiro regime socialista, distribuem entre si os 80% do PIB restante da nação.
A virada do capitalismo social e includente para o brutal e excludente foi representada, em suas bases teóricas, na Sociedade Mont Pèlerin, fundada na cidade suíça do mesmo nome em 1947. Seus idealizadores foram economistas como Frederick Hayek, Karl Popper e Milton Friedman, Ludwig Von Mises, Joseph Schumpeter entre outros, que se propunham a defender o liberalismo clássico, a liberdade de expressão, o livre mercado e os valores políticos de uma sociedade aberta. Os “manuais operacionais” da Mont Pèlerin foram os livros “O caminho da servidão”, de Hayek, de 1944, e “A sociedade aberta e seus inimigos”, de Karl Popper, de 1945. As ideias básicas desses textos eram que a atividade empresarial deveria ser deixada livre, sem amarras para governar o mundo como bem entendesse.
Muito desse purismo vinha de Hayek, o guru de Milton Friedman, líder da escola econômica da Universidade de Chicago, o qual em tons severos dizia que qualquer envolvimento governamental na economia seria capaz de lançar a sociedade no “caminho da servidão” e, portanto, deveria ser implacavelmente extirpado.
Nos anos 50, os sociaisdemocratas e os keynesianos dos países ricos comemoravam uma série de histórias de sucesso em vários países que adotaram as políticas econômicas da escola de Chigago e da turma de Mont Pélerin. O laboratório mais avançado do desenvolvimento era o Cone Sul da América: Chile, Argentina, Uruguai, o sudeste brasileiro e seu epicentro foi a CEPAL, de Raul Prebisch, que treinou diversas equipes de economistas desenvolvimentistas para atuarem como assessores dos governos da região. Durante esse período de expansão espetacular, o Cone Sul parecia mais a Europa do que o resto da América Latina.
E o que receitavam esses assessores? Em primeiro lugar os governos deveriam abolir todas as regras e regulamentações que se interpunham no caminho da acumulação de capitais. Em segundo, deveriam vender todos os ativos que possuíam e que poderiam ser administrados com lucro. Em terceiro, deveriam cortar drasticamente os fundos destinados aos programas sociais. Além disso, os impostos deveriam ser baixos, taxando os ricos e pobres na mesma proporção. As corporações ficariam livres para vender seus produtos para todo o mundo e os governos deveriam ser impedidos de proteger as indústrias de seus países. Todos os preços, inclusive o dos salários, seriam definidos pelo mercado, e o salário mínimo, abolido. Friedman e seus sequazes ainda ofereciam à iniciativa privada os serviços de saúde, de correios, a educação, os transportes, as aposentadorias e até a água e os parques nacionais.
Enfim, a contrarrevolução da Escola de Chicago pretendia eliminar todas as formas de proteção que os trabalhadores haviam conquistado por meio de lutas antigas e sangrentas e e queriam explorar com lucros de mercado todos os serviços públicos nos quais o Estado havia investido com recursos da população trabalhadora. Tudo isso tinha a finalidade de aparar as agudas arestas do mercado.
Assim, no entendimento de Friedman, toda essa riqueza deveria ser compartilhada e, como princípio, passada às mãos da iniciativa privada. E apara atrair investimentos, os governos do Cone Sul publicavam caros anúncios nos principais jornais dos Estados Unidos e da Europa nos quais declaravam explicitamente, e sem qualquer pejo, que “poucos governos da história foram tão encorajadores para os investimentos privados. Estamos atravessando uma verdadeira revolução social; procuramos parceiros que ajudem a nos livrar do estatismo e que nos auxiliem a demonstrar o imprescindível papel do setor privado” (anúncio da ditadura argentina na Business Week).
Já sabemos como terminou a atuação dos economistas da escola de Chicago através das políticas econômicas do FMI, do Banco Mundial, da Organização Mundial do Comércio, dos bancos e de outros organismos neoliberais. Na realidade foi um outro e gigantesco golpe financeiro ao estilo do que Bernard Maddof aplicou em investidores de tudo o mundo que acreditaram nele.
As fantásticas quantias de capitais não controlados e a ruptura das estruturas reguladoras, exerceram um impacto de grande escala sobre a economia mundial. Assim, chegamos a uma situação na qual, como diz Joseph Siglitz, “fomos envolvidos por uma mistura tóxica de interesses especiais, políticas econômicas mal-orientadas e ideologias da direita política as quais desembocaram na atual crise global. E alguém como Michael Moore falou “curto e grosso”: “Fomos vítimas de um gigantesco roubo planejado e executado por banqueiros, economistas, políticos e seus acólitos neoliberais”. E agora não há dinheiro estatal que chegue, pois conforme Slavoj Zizek “a solução dos graves problemas da maioria dos países em quebra é o uso de medidas socialistas para salvar o capitalismo”.
Daí a justa e lúcida afirmação de Gore Vidal que abre este texto.


* Médico


SUL 21

Polêmica ou Ignorância?

O texto abaixo é tudo o que eu queria dizer sobre esse assunto. Alguns jornalistazinhos acham que entendem de linguística, fazem um estardalhaço, mas não levam em conta o desenvolvimento dos estudos acadêmicos que tratam do assunto. Só consultam "especialistas" gramaticais, esquecendo-se dos linguistas, que são cientistas com propriedade para falar sobre o assunto. Com vocês, as palavras do professor Marcos Bagno. Os grifos abaixo são meus. (WiLL)


Na semana passada, o site IG noticiou que o Ministério da Educação comprou e distribuiu, para 4.236 mil escolas públicas, um livro que “ensina o aluno a falar errado”. Os jornalistas Jorge Felix e Tales Faria -  do Blog Poder On Line, hospedado no portal – se basearam em exemplos de um capítulo do livro Por Uma Vida Melhor para afirmar que, segundo os autores da coleção organizada pela ONG Ação Educativa, não há nenhum problema em se falar “nós pega o peixe” ou “os menino pega o peixe”. Calçaram sua tese no seguinte trecho de um capítulo que diferencia o uso da língua culta e da falada:”Você pode estar se perguntando: “Mas eu posso falar os livro?”. Claro que pode. Mas fique atento porque, dependendo da situação, você corre o risco de ser vítima de preconceito linguístico”. O fato de haver outros capítulos, no mesmo livro, que propõem a leitura e discussão de obras de autores como Cervantes, Machado de Assis e Clarice Lispector e ensina modos de leitura, produção e revisão de textos não foi citado. Mas a discussão sobre como registrar as diferenças entre o discurso oral e o escrito esquentou, principalmente após o colunista da Folha de S. Paulo Clóvis Rossi vociferar, no último domingo, que tal livro é “criminoso”.

por Marcos Bagno, no seu site, via CartaCapital

Para surpresa de ninguém, a coisa se repetiu. A grande imprensa brasileira mais uma vez exibiu sua ampla e larga ignorância a respeito do que se faz hoje no mundo acadêmico e no universo da educação no campo do ensino de língua.
Jornalistas desinformados abrem um livro didático, leem metade de meia página e saem falando coisas que depõem sempre muito mais contra eles mesmos do que eles mesmos pensam (se é que pensam nisso, prepotentemente convencidos que são, quase todos, de que detêm o absoluto poder da informação).
Polêmica? Por que polêmica, meus senhores e minhas senhoras? Já faz mais de quinze anos que os livros didáticos de língua portuguesa disponíveis no mercado e avaliados e aprovados pelo Ministério da Educação abordam o tema da variação linguística e do seu tratamento em sala de aula. Não é coisa de petista, fiquem tranquilas senhoras comentaristas políticas da televisão brasileira e seus colegas explanadores do óbvio.
Já no governo FHC, sob a gestão do ministro Paulo Renato, os livros didáticos de português avaliados pelo MEC começavam a abordar os fenômenos da variação linguística, o caráter inevitavelmente heterogêneo de qualquer língua viva falada no mundo, a mudança irreprimível que transformou, tem transformado, transforma e transformará qualquer idioma usado por uma comunidade humana.
Somente com uma abordagem assim as alunas e os alunos provenientes das chamadas “classes populares” poderão se reconhecer no material didático e não se sentir alvo de zombaria e preconceito. E, é claro,om a chegada ao magistério de docentes provenientes cada vez mais dessas mesmas “classes populares”, esses mesmos profissionais entenderão que seu modo de falar, e o de seus aprendizes, não é feio, nem errado, nem tosco, é apenas uma língua diferente daquela – devidamente fossilizada e conservada em formol – que a tradição normativa tenta preservar a ferro e fogo, principalmente nos últimos tempos, com a chegada aos novos meios de comunicação de pseudoespecialistas que, amparados em tecnologias inovadoras, tentam vender um peixe gramatiqueiro para lá de podre.
Enquanto não se reconhecer a especificidade do português brasileiro dentro doconjunto de línguas derivadas do português quinhentista transplantados para as colônias, enquanto não se reconhecer que o português brasileiro é uma língua em si, com gramática própria, diferente da do português europeu, teremos de conviver com essas situações no mínimo patéticas.
A principal característica dos discursos marcadamente ideologizados (sejam eles da direita ou da esquerda) é a impossibilidade de ver as coisas em perspectiva contínua, em redes complexas de elementos que se cruzam e entrecruzam, em ciclos constantes. Nesses discursos só existe o preto e o branco, o masculino e o feminino, o mocinho e o bandido, o certo e o errado e por aí vai.
Darwin nunca disse em nenhum lugar de seus escritos que “o homem vem do macaco”. Ele disse, sim, que humanos e demais primatas deviam ter se originado de um ancestral comum. Mas essa visão mais sofisticada não interessava ao fundamentalismo religioso que precisava de um lema distorcido como “o homem vem do macaco” para empreender sua campanha obscurantista, que permanece em voga até hoje (inclusive no discurso da candidata azul disfarçada de verde à presidência da República no ano passado).
Da mesma forma, nenhum linguista sério, brasileiro ou estrangeiro, jamais disse ou escreveu que os estudantes usuários de variedades linguísticas mais distantes das normas urbanas de prestígio deveriam permanecer ali, fechados em sua comunidade, em sua cultura e em sua língua. O que esses profissionais vêm tentando fazer as pessoas entenderem é que defender uma coisa nãosignifica automaticamente combater a outra. Defender o respeito à variedade linguística dos estudantes não significa que não cabe à escola introduzi-los ao mundo da cultura letrada e aos discursos que ela aciona. Cabe à escola ensinar aos alunos o que eles não sabem! Parece óbvio, mas é preciso repetir isso a todo momento.
Não é preciso ensinar nenhum brasileiro a dizer “isso é para mim tomar?”, porque essa regra gramatical (sim, caros leigos, é uma regra gramatical) já faz parte da língua materna de 99% dos nossos compatriotas. O que é preciso ensinar é a forma “isso é para eu tomar?”, porque ela não faz parte da gramática da maioria dos falantes de português brasileiro, mas por ainda servir de arame farpado entre os que falam “certo” e os que falam “errado”, é dever da escola apresentar essa outra regra aos alunos, de modo que eles – se julgarem pertinente, adequado e necessário – possam vir a usá-la TAMBÉM. O problema da ideologia purista é esse também. Seus defensores não conseguem admitir que tanto faz dizer assisti o filme quanto assiti ao filme, que a palavra óculos pode ser usada tanto no singular (o óculos, como dizem 101% dos brasileiros) quanto no plural (os óculos, como dizem dois ou três gatos pingados).
O mais divertido (para mim, pelo menos, talvez por um pouco de masoquismo) é ver os mesmos defensores da suposta “língua certa”, no exato momento em quea defendem, empregar regras linguísticas que a tradição normativa que eles acham que defendem rejeitaria imediatamente. Pois ontem, vendo o Jornal das Dez, da GloboNews, ouvi da boca do sr. Carlos Monforte essa deliciosa pergunta: “Como é que fica então as concordâncias?”. Ora, sr. Monforte, eu lhe devolvo a pergunta: “E as concordâncias, como é que ficam então?

Marcos Bagno é escritor, tradutor, lingüista, professor da Universidade de Brasília  (UnB).

“O pescador tem dois amor”

Professor Zenir Reis invoca Caymmi: “O pescador tem dois amor”

Língua oral e escrita

por Zenir Campos Reis*, sugestão da leitora Maria Salete Magnoni, que foi sua orientanda

Antes de ler e escrever, falamos. A fala requer longo aprendizado. A boca existe prioritariamente para comer. Primum vivere. Aos poucos, desenvolvemos essa habilidade secundária de adaptar a boca, lábios, dentes e língua, para a emissão de sons inteligíveis, distintivos, que vão compor as palavras. No convívio social, os mais velhos ensinam aos mais jovens as regras de com-binação das palavras, isto é, as regras básicas de sintaxe.
A língua oral é econômica e tende à simplificação. Em português, por exemplo, a marca mais comum do plural é o “s” no final das palavras. Se esse fonema está presente no artigo fica entendido que estamos falando de mais de um objeto: o livro, os livro(s), um ou mais de um. Em outras línguas, o francês por exemplo, o “s” do plural nem é pronunciado: le livre, les livre(s). A marca do plural está presente apenas na diferença que a língua oral estabelece entre /le/ e /les/. Existem lingüistas que consideram a repetição da marca do plural uma espécie de pleonasmo, de repetição dispensável. Lembremo-nos da bela canção de Dorival Caymmi, “O bem do mar”, que começa assim:
O pescador tem dois amor
Um bem na terra,
Um bem no mar (bis)

O que fixa a língua é a letra, a escrita, para cuja conquista exige-se outro aprendizado, normalmente feito na escola. Compreende-se que a língua escrita não seja imediatamente acessível.
Antropologicamente, na história da humanidade, o aparecimento da escrita parece estar relacionado ao surgimento de sociedades mais complexas e ao aparecimento da divisão social e da dominação. A posse da letra sinalizava o poder. A imprensa, então, é uma invenção tardia, do século XVI. O primeiro livro impresso foi uma Bíblia e a leitura e interpretação desse livro sagrado começou a ser objeto de disputa.
A língua portuguesa, língua latina, proveio não do latim erudito, mas do chamado “latim vulgar”, o latim oral, falado por soldados (das tropas de ocupa-ção) e colonos iletrados ou pouco letrados. Um escritor de origem húngara, Paulo Rónai, grande conhecedor de línguas, quando tomou contato com a língua portuguesa, diz que lhe parecia um latim falado por pessoas desdentadas. Possivelmente era uma impressão verdadeira. Com certeza eram iletrados, pessoas “simples”, mais ou menos sinônimo de pobres. Muitos deles, desden-tados.

Esses pobres falavam, por exemplo “mágoa” ou “mancha”, em vez de “mácula”. Falavam “logro”, em vez de “lucro”. E diziam bem, diziam certo. Encontrei a palavra “resisto”, num sermão de Antônio Vieira, palavra que se diz em português do Brasil “registro”, ou, em Portugal, “registo”. Tudo muito certo, no contexto apropriado.
A disciplina gramatical costuma vir das camadas letradas, muitas vezes associadas ao poder político, isto é, às normas adotadas pelas autoridades políticas e transformadas em acordos, tratados, normas, transmitidos via minis-térios, academias, escolas oficiais.
A realidade da língua viva é muito mais complexa e indisciplinada, por-que a letra, que fixa a língua oral depende da alfabetização que não é univer-sal, nem neste país nem em muitos outros países, mesmo do mundo dito desenvolvido. Uma longa conversa, como se vê.

Zenir Campos Reis é professor aposentado de Literatura Brasileira na USP.

Vi o Mundo

Um coração que te quer

Pra que acabar com todo amor que sempre existiu entre nós? Pra que fazer isso assim, de sopetão, deixando meu coração sem explicação? Como viver mais um dia sem seu boa noite? Como terminar uma tarde sem o seu "estou com saudade"? Como fazer para reaquecer minha vida nesse frio que me sobe pelos pés nas noites de outono? Não me aguento, só questiono, porque não aceito esse abandono. Esse deixar ir, esse viver a vida. Cada um seguindo seu destino. Destino? Não quero seguir nada que esteja pronto, ordenado, não quero nada anunciado... Só quero seu amor, seu coração sentindo o meu pelo beijo. Quero continuar sendo sua necessidade, seu desejo. Não quero não ter sua alma pra compartilhar minhas angústias. Não quero não poder te ligar pra dizer que a reunião foi um sucesso. Não quero não ter meu amor pra sempre... Espero ansioso uma resposta sua, uma meia-volta ao meu mundo, um retorno pra me ver, agora todo moribundo, esquecido no amor, vivendo na dor, na falta de sentimento teu. Me diga que está tudo bem, que você me quer também e que nosso recomeço será a continuação do mesmo amor. Me diga o que precisar dizer, mas me abrace todo entardecer, me tenha ao anoitecer e me queira todo amanhecer. De novo. Pra sempre. Não vou morrer sem você, mas sinto um vazio, algo incompleto. Não quero dar um tempo pra superar sua falta, quero você do meu lado, na minha frente, nos meus beijos. Não quero um recomeço, quero uma continuação do que sempre existiu...

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Amor e dor de barriga

Às vezes o amor é incomoda tanto que parece uma dor de barriga. Engraçado? Bem que poderia ser engraçado, mas veja se isso é hilário: quando você está com uma dor de barriga violenta, uma diarréia sem fim, o que você mais quer é melhorar logo, certo? E você sabe que só vai melhorar depois que eliminar toda a bactéria ou todo o causador de tal sintoma. Então você vai ao banheiro, sofre e pensa: gostaria que isso acabasse logo, não aguento mais!
Penso que com o amor é a mesma coisa: tantas vezes há muito sofrimento, e o que mais queremos é que acabe logo essa tortura. Como? Eliminando toda a fonte de tal sofrimento: acabando o amor que nos consome.
Pode parecer estranho, podem me achar maluco de pedra, mas é fato que quando estamos envolvidos num relacionamento, temos preocupações, temos que fazer malabarismos para chegar a alguns acordos, como decidir aonde ir, com qual turma sair, o que fazer no fim de semana, essas coisas que nos parecem tão simples a princípio, mas que tomam proporções desmedidas quando não há um consenso.
Pior que isso é nunca se chegar a um acordo e ter aquela dor de barriga constante, sempre dolorosa e que nos traz tanto sofrimento quanto decepção. Agora, a coisa fica complicada quando a dor de barriga não tem cura e você vive em constante dor e com aquele pensamento diário: quando isso vai passar? É como se você tivesse mudado todo seu hábito alimentar, higiênico e ainda sofresse com a diarréia. No amor, é como você fazer inúmeras concessões, abrir mão de tanta coisa, e depois ser tratado com indiferença, como se seu par se lixasse para sua dor.
Aí a coisa complica: o egoísmo toma conta como se fosse uma virose! É preciso tomar um soro, quem sabe um remédio e ser muito adulado, além de mudar a alimentação. Todo cuidado é pouco nessa situação. Com o amor é a mesma coisa: há que se moderar o causador do sofrimento, mudar hábitos, se não será preciso uma medida mais radical para eliminar esse incômodo da sua vida, porque amor que incomoda não é mais amor.

E é aí que o amor se difere da dor de barriga: a gente nunca quer repetir a dor de barriga, mas dá pra ficar longe de uma paixão? Acho que não...

quinta-feira, 21 de abril de 2011

A impressão, a tradução e a divulgação do conhecimento

Um pouquinho da história da mídia entre a Idade Média e a Modernidade, com enfoque na atividade de tradução.

Na época em que apenas existiam manuscritos, a Igreja controlava a produção e a reprodução dos mesmos, porque tinha influência direta sobre os copistas e escribas. Aproveitando o assunto da censura dos manuscritos, vou falar um pouquinho sobre os manuscritos traduzidos no Brasil colonial. Lia Wyler, tradutora e estudiosa de tradução, em seu livro “Línguas, poetas e bachareis: uma crônica da tradução no Brasil” descreve esse ofício no Brasil colonial: “Todos os textos utilizados na evangelização, no estudo e no lazer, porém, sofriam a tripla censura instituída no império português no século XVI: a do Santo Ofício, a do Ordinário Eclesiástico na respectiva diocese e a do Paço. O relator do Santo Ofício examinava o livro em manuscrito e obrigava o autor a alterá-lo, amputá-lo ou ampliá-lo, antes de lhe conceder a fórmula: ‘nada contém contra a nossa Santa Fé e bons costumes’ (p.62). A autora continua dizendo que eventuais textos literários traduzidos na colônia deveriam ser submetidos à censura da Metrópole para serem impressos lá; ou permaneciam aqui, manuscritos, fugindo da censura, mas esses manuscritos raramente chegaram aos nossos dias.

Com o advento da impressão e a produção de materiais em larga escala, a Igreja não conseguiu mais controlar os impressores do mesmo modo que fazia antes. Por outro lado, em 1485 em Frankfurt houve um caso de censura, quando livros que seriam expostos em uma feira regional foram analisados pelo conselho municipal a pedido de um religioso. A partir disso, a Igreja criou uma lista de livros que seriam proibidos e que era atualizada sempre, valendo pelos próximos quatro séculos.

Outra consequência da dificuldade de se controlar a produção da impressão foi que Lutero se beneficiou desse novo meio durante a Reforma, já que ele traduziu suas teses para línguas vernáculas, as imprimiu e as distribuiu por toda a Alemanha e por toda a Europa.
Os livros impressos passaram a ser usados, também, para a divulgação de obras clássicas com a padronização das traduções (nos tempos dos manuscritos, os copistas faziam cópias não exatamente fiéis aos textos-base. Dessa forma, cada livro copiado manuscrito podia ter divergências de ortografia, por exemplo). Além disso, os livros impressos serviram também para difundir dados do mundo natural e desenvolver sistemas padronizados de classificação, de representação e de práticas. Obras científicas começaram a ser produzidas com a ajuda de professores universitários. Surgiram, também nessa época, obras de ciências populares, como almanaques e manuais práticos e livros de conduta. Obviamente que naquela época a educação não atingia a massa, o povo. Era restrita a uma elite clerical, política, a professores, estudantes e a uma classe social emergente. Isso não quer dizer, no entanto, que a alfabetização era exclusiva dessa elite, mas era dominada por ela. Principalmente mulheres, crianças, operários e trabalhadores rurais não especializados eram marginalizados no que diz respeito a saber ler.

No final do século XVIII, com o incentivo do ensino das ciências, com as expedições científicas, com a divulgação de enciclopédias e com a fundação da Academia Real de Ciências de Lisboa, conforme apresenta Wyler (p.73), houve um movimento nacionalista brasileiro liderado pelo Frei José Mariano da Conceição Veloso, cujo objetivo era produzir, adaptar ou traduzir obras de novas técnicas e culturas desenvolvidas em outros países e que fossem úteis ao desenvolvimento do Brasil. No entanto, como a impressão ainda não chegara aqui nessa época, essas obras eram impressas em Portugal.

Entre tais obras, estavam as que tratavam de “técnicas e culturas de várias plantas úteis, navegação, mineralogia, medicina, eletricidade, língua tupi ou nhegatu, hidrometria, gravura, botânica, zoologia, matemática, economia, política, religião e tecelagem” (Wyler, p.74). Esses livros, geralmente traduzidos do francês, inglês, castelhano, alemão e latim, eram destinados aos agricultores brasileiros. Esses trabalhos foram feitos em várias tipografias de Lisboa para depois o grupo do Frei Veloso ter uma oficina própria em Portugal, a Tipografia Catalográfica, Tipoplástica e Literária do Arco do Cego.

Eu falei sobre a produção das primeiras traduções brasileiras de livros técnicos e científicos para mostrar que o advento da impressão tornou possível o desenvolvimento dos trabalhos de tradução feitos por brasileiros – ainda que realizados em Portugal até a vinda da Corte Real ao Brasil em 1808 e a consequente instalação da Impressão Régia por aqui. Lembrando que, antes desses tipos de textos, já eram traduzidos assuntos educacionais, burocráticos e principalmente religiosos. Além disso, como eu já citei acima, a impressão foi muito útil para a unificação das traduções, uma vez que não eram mais os copistas os responsável pela reprodução dos livros.

Eu fiz uma abordagem da relação entre a impressão e a tradução, mas é possível descrever também o que o John B. Thompson fala sobre a impressão e o desenvolvimento da economia em seu livro "A mídia e a modernidade: uma teoria social da mídia". O autor diz que as máquinas de impressão movimentaram a economia no fim da Idade Média e começo da Idade Moderna. Além disso, a indústria gráfica fez surgir novos centros de poder que não estavam ligados ao poder da Igreja ou do Estado, embora estes útimos procurassem usá-la em seu benefício.
 
Outro aspecto econômico do desenvolvimento gráfico foi o seguinte: quem tinha dinheiro editava, imprimia e vendia livros. Quem não possuía recursos financeiros suficientes para isso, fazia empréstimos ou trabalhava para a Igreja ou para o Estado (o uso da impressão em benefício da Igreja e do Estado há pouco citado, já que era conveniente para estes manterem a impressão a seu serviço, tanto quanto para os impressores sem recursos manterem seus negócios). Essa relação próxima entre religião e política se deu, também, pelo interesse na venda de formas simbólicas que só a impressão podia oferecer, e que fizeram estreitar ainda mais essas relações. Esse interesse na forma simbólica oferecida pela impressão se dava porque as tiopografias e editoras do inícia da Idade Moderna eram de organizações culturais e econômicas, como observou Thompson. Desse modo, desvinculadas do poder eclesiástico e governamental, essas instituições gozavam de certo prestígio e influência social, sendo relativamente "independentes" e "neutras" por não representarem nem o Governo nem a Igreja.

terça-feira, 19 de abril de 2011

Aqui

Quero desfazer o tempo. Quero desfazer as luzes do caminho. Quero caminhar apenas com a iluminação do coração, quero seguir a trilha da emoção, sem pensar muito. Quero esquecer que teve um ontem e que hoje é apenas um momento. Deixar pra trás a ideia do amanhã - aquele que a gente sonha ser melhor... Quero apenas confiar no meu instinto humano (como se fosse fácil ser humano, tão cheio de contradições, mudanças, vontades, sentimentos, frustrações, sonhos) e na parte mais humana de mim: me derreter diante de um belo sorriso e de um quente abraço, porque sentir um calor humano é um destaque bom no meio de tanta frieza que pode nos envolver por aí. Quero um amor - não vou dizer um amor pra sempre, porque eu já desfiz o tempo... - que me acompanhe no caminhar com a luz do coração; mais que isso, quero um amor que me ilumine ele mesmo, a ponto de unir os corações e formar uma luz resplandecente, gigante! Quero um amor que me desafie, que me ensine, que me faça pensar. Quero alguém fora do normal, extraordinário, surpreendente. Quero alguém que cante para mim, como um grilo avisando: estou aqui do seu lado, pertinho do seu coração. Não importa o tempo, quero aqui!

Música de hoje: Nada valgo sin tu amor, do Juanes

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Felicidade

O que haveria de ser de mim sem minhas amarras, já gritadas aqui? Há uma necessidade de compartilhar momentos, carícias, sonhos... Me sinto bem quando consigo compartilhar a vida com alguém especial, que me dá atenção e que se dispõe a se abrir também. É gostoso criar intimidade, gerar confiança, ir tendo segurança. A gente encara tantos desafios ao longo da vida: no trabalho, em casa, na escola, e ter o desafio de aprender a amar é ampliar o horizonte que se quer viver. Eu só queria registrar aqui a minha felicidade!

Música de hoje: Try, da Natasha Bedingfield

sábado, 26 de março de 2011

Desejos, depravações e um pouco de hipocrisia

Mostra na Suécia explora 500 anos de 'desejos e depravações'

(A mostra parece ótima, pena que não está no Brasil)

Claudia Varejão Wallin
De Estocolmo para a BBC Brasil
'Danaë and the shower of gold', de Adolf Ulrik WertmülleExposição mostra como a virtude e o pecado são representados na arte
"Desejo & Depravação" é o tema provocante da mostra que o Museu Nacional de Estocolmo exibe na capital sueca a partir de 24 de março, com mais de 200 obras que ilustram as mudanças na percepção de sexualidade e moralidade através dos séculos.
A exposição vai reunir trabalhos que vão desde o século 16 até a atualidade, explorando os contrastes na forma como a virtude e o pecado têm sido representados na arte em diferentes épocas.
"Queremos que os visitantes tenham as suas próprias interpretações sobre o que é desejo e o que é depravação", disse à BBC Brasil a gerente de divulgação do Museu, Anna Jansson.
"A arte erótica sempre foi produzida por homens e para homens. Quisemos mudar essa perspectiva, e por isso incluímos várias artistas mulheres na parte contemporânea da mostra."
Pinturas de traseiros femininos vão decorar a primeira sala da mostra, em uma referência considerada pecaminosa em outros tempos: os organizadores da exibição observam que, no passado, os valores vigentes rezavam que o sexo, além de restrito ao casamento, exigia contato visual frontal entre o casal a fim de ser moralmente aceitável.
'Satyre and nymph', de Agostino Carracci Artistas faziam insinuações moralistas contra estilos de vida pecaminosos
Vida virtuosa
Uma das montagens da exposição mostra como as meninas eram educadas para viver uma vida virtuosa, a fim de arranjarem um bom marido. Entre os itens em exibição estará um cinto de castidade cedido pelo Nordiska Museet de Estocolmo.
Obras dos séculos 16 estarão representando a rígida moral religiosa do período. Nessa época, muitos artistas pintavam detalhes eróticos em cenas míticas ou bíblicas, em geral carregadas de insinuações moralistas sobre as consequências de um estilo de vida pecaminoso.
No século 18, pinturas de tom erótico eram em grande parte restritas aos aposentos privados dos homens. Até a metade do século 19, os museus ainda enfrentavam dilemas para exibir obras com nuances eróticas. Como observa Anna Jansson, alguns museus chegavam a encomendar folhas de figueira para encobrir as partes íntimas representadas em esculturas antigas.
'Nicklas', de Sara-Vide Ericson/Galleri Magnus Karlsson Obras de artistas mulheres também estão na exposição
Havia, no entanto, uma enorme diferença entre o comportamento que a Igreja pregava para as massas e as liberdades que as elites se davam. A mostra examina a visão das classes altas no século 18, para as quais o casamento era essencialmente uma instituicão social – paixões ardentes eram buscadas com frequência longe da bênção dos padres. (Olha a hipocrisia aí, gente)
A partir do século 19, com a expansão da urbanização e o crescimento das cidades, os encontros sexuais anônimos e a prostituição trouxeram novas interpretações de sexualidade e moralidade.
A visão contemporânea de virtude e pecado estará representada na mostra por obras de artistas suecos e dinamarqueses como Kristina Jansson, Gisela Schink e Lars Nilsson.
"Desejo & Depravacão" estará aberta ao público até 14 de agosto.

BBC Brasil

Língua que discrimina

Acho que devemos refletir sobre o modo adequado e o não adequado de uso da língua. Em primeiro lugar, devemos distinguir a língua escrita da língua falada. Depois, reconhecer as diferenças entre diversas regiões do país, entre as diferentes comunidades/tribos, entre as diferentes classes sociais: de fato, justificar que apenas os padrões linguísticos dos grandes autores é o correto é segregar os comuns, que não são grandes autores. Por outro lado, não devemos fazer apologia à não educação, ao não ensino da língua escrita. É importante que todos tenhamos acesso à história da nossa língua e que saibamos também que há diferentes usos: um modo mais formal em certa situação, outro menos polido. Se todo mundo falasse errado, então ninguém se comunicaria, cada um teria sua própria língua!

Segue um texto para leitura e reflexão

Preconceito que cala, língua que discrimina

Marcos Bagno, escritor e linguista brasileiro, deixa à mostra a ideologia de exclusão social e de dominação política pela língua

Por Joana Moncau*

Marcos Bagno, escritor e linguista brasileiro, deixa à mostra a ideologia de exclusão social e de dominação política pela língua, típica das sociedades ocidentais. “Podemos amar e cultivar nossas línguas, mas sem esquecer o preço altíssimo que muita gente pagou para que elas se implantassem como idiomas nacionais e línguas pátrias”.
O preconceito linguístico é um preconceito social. Para isso aponta a afiada análise do escritor e linguista Marcos Bagno, brasileiro de Minas Gerais. Autor de mais de 30 livros, entre obras literárias e de divulgação científica, e professor da Universidade de Brasília, atualmente é reconhecido sobretudo por sua militância contra a discriminação social por meio da linguagem. No Brasil, tornou-se referência na luta pela democratização da linguagem e suas ideias têm exercido importante influência nos cursos de Letras e Pedagogia.
A importância de atingir esse meio, segundo ele, é que o combate ao preconceito linguístico passa principalmente pelas práticas escolares: é preciso que os professores se conscientizem e não sejam eles mesmos perpetuadores do preconceito linguístico e da discriminação. Preconceito mais antigo que o cristianismo, para Bagno, a língua desde longa data é instrumentalizada pelos poderes oficiais como um mecanismo de controle social. Dialeto e língua, fala correta e incorreta: na entrevista concedida a Desinformémonos, ele desnaturaliza esses conceitos e deixa à mostra a ideologia de exclusão e de dominação política pela língua, tão impregnada nas sociedades ocidentais.
“A língua é um dialeto com exército e marinha”, Max Weinreich
O controle social é feito oficialmente quando um Estado escolhe uma língua ou uma determinada variedade linguística para se tornar a língua oficial. Evidentemente qualquer processo de seleção implica um processo de exclusão. Quando, em um país, existem várias línguas faladas, e uma delas se torna oficial, as demais línguas passam a ser objeto de repressão.
É muito antiga a tradição de distinguir a língua associada ao símbolo de poder dos dialetos. O uso do termo dialeto sempre foi carregado de preconceito racial ou cultural. Nesse emprego, dialeto é associado a uma maneira errada, feia ou má de se falar uma língua. Também é uma maneira de distinguir a língua dos povos civilizados, brancos, das formas supostamente primitivas de falar dos povos selvagens. Essa forma de classificação é tão poderosa que se erradicou no inconsciente da maioria das pessoas, inclusive as que declaram fazer um trabalho politicamente correto.
De fato, a separação entre língua e dialeto é eminentemente política e escapa aos critérios que os linguistas tentam estabelecer para delimitar dita separação. A eleição de um dialeto, ou de uma língua, para ocupar o cargo de língua oficial, renega, no mesmo gesto político, todas as outras variedades de língua de um mesmo território à terrível escuridão do não-ser. A referência do que vem de cima, do poder, das classes dominantes, cria aos falantes das variedades de língua sem prestígio social e cultural um complexo de inferioridade, uma baixo auto-estima linguística, a qual os sociolinguistas catalães chamam de “auto-ódio”.
Falar de uma língua é sempre mover-se no terreno pantanoso das crenças, superstições, ideologia e representações. A Língua é um objeto criado, normatizado, institucionalizado para garantir a unidade política de um Estado sob o mote tradicional: “um país, um povo, uma língua”. Durante muitos séculos, para conseguir a desejada unidade nacional, muitas línguas foram e são emudecidas, muitas populações foram e são massacradas, povos inteiros foram calados e exterminados. No continente americano, temos uma história tristíssima de colonização construída sobre milhares de cadáveres de indígenas que já estavam aqui quando os europeus invadiram suas terras ancestrais e dos africanos escravizados que foram trazidos para cá contra sua vontade.
Não podemos esquecer que o que chamamos de “língua espanhola”, “língua portuguesa”, ou “língua inglesa” tem um rico histórico, não é algo que nasceu naturalmente. Podemos amar e cultivar essas línguas, mas sem esquecer o preço altíssimo que muita gente pagou para que elas se implantassem como idiomas nacionais e línguas pátrias.
Breve histórico linguístico da América Latina
A história linguística da América Latina foi e é marcada por muita violência contra as populações não-brancas, em todos os sentidos, dos massacres propriamente ditos, passando pela escravização e chegando aos dias de hoje com a exclusão social e o racismo.
No caso específico das línguas, as potências coloniais (Portugal e Espanha) se empenharam sistematicamente em impor suas línguas. As situações variam de país a país. Na Argentina, por exemplo, depois da independência, o governo traçou um plano explícito de extermínio dos indígenas, a chamada “Conquista do Deserto”, pagando em dinheiro às pessoas que levassem escalpos como prova do assassinato. Com isso, a população indígena da Argentina, principalmente do centro para o sul, desapareceu quase completamente, e com ela suas línguas.
No Peru e na Bolívia, a língua quéchua, que era uma espécie de idioma internacional do império inca, é muito empregada até hoje, havendo mesmo comunidades mais isoladas cujos falantes não sabem falar espanhol.
No Brasil, o trabalho de imposição do português foi muito bem feito, de maneira que é a língua homogênea da população. O extermínio dos índios fez desaparecer centenas de línguas: hoje sobrevivem cerca de 180, mas faladas por muito pouca gente, algumas já em vias de extinção. Durante boa parte do período colonial, a língua mais usada no Brasil foi a chamada “língua geral”, baseada no tupi antigo, que os jesuítas empregaram para catequizar os índios. Com a expulsão dos jesuítas no século XVIII e a proibição do ensino em qualquer língua que não fosse o português, a língua geral desapareceu. É uma pena que não tenhamos uma riqueza linguística como no México, que possui mais de 50 línguas diferentes, sendo que o nahua é falado por cerca de 1 milhão de pessoas. Ainda assim, essas minorias linguísticas no Brasil estão cada vez mais reconhecendo seus direitos e lutando por eles.
Quanto às línguas africanas no Brasil, elas não puderam sobreviver porque os portugueses tomavam cuidado para separar as famílias em lotes diferentes bem como os falantes de uma mesma língua, de modo que fossem obrigados a aprender o português para se comunicar entre si e com os brancos. Mesmo assim, as línguas africanas, sobretudo as do grupo banto, influíram fortemente na formação do português brasileiro, fazendo com que ele se tornasse o que é hoje, uma língua bem diferente do português europeu.
No Paraguai, como não houve expulsão dos jesuítas, a língua geral empregada por eles, o abanheenga (guarani), permanece até hoje como elemento importante da vida dos paraguaios, que são bilíngues em sua maioria: espanhol e guarani.
Falar errado? Para quem?
Também existe uma ideologia linguística que não é oficializada, mas que ao longo do tempo se instaura na sociedade. Em qualquer tipo de comunidade humana sempre existe um grupo que detém o poder e que considera que seu modo de falar é o mais interessante, o mais bonito, é aquele que deve ser preservado e até imposto aos demais.
Nas sociedades ocidentais as línguas oficiais sempre foram objetos de investimento político. As línguas são codificadas pelas gramáticas, pelos dicionários, elas são objetos de pedagogias, são ensinadas. Claro que essa língua que é normatizada nunca corresponde às formas usuais da língua, sempre há uma distância muito grande entre o que as pessoas realmente falam no seu dia-a-dia, na sua vida íntima e comunitária, e a língua oficializada e padronizada.
A questão da língua é a única que une todo o espectro linguístico, ou seja, a pessoa da mais extrema esquerda e da mais extrema direita geralmente concordam, por exemplo, diante da afirmação de que os brasileiros falam português muito mal. É uma ideologia muito antiga, eu digo que é uma religião mais antiga que o cristianismo, porque surgiu entre os gramáticos gregos 300 anos antes de Cristo e se impregnou na nossa cultura ocidental de maneira muito forte.
Entretanto, ao mesmo tempo em que as classes dominantes diziam que era preciso impor o padrão para todo o mundo, elas não permitiam às classes dominadas o acesso a ele. Havia essa contradição, que na verdade não é uma contradição, mas uma estratégia político-ideológica: “Você tem que se comportar assim, mas não vou te ensinar como”. Isso, para as classes dominantes terem, além de outros instrumentos de controle social, também o controle da língua. É o que Pierre Bourdieu chama de a ‘língua legítima’: as classes dominadas reconhecem a língua legitima, mas não a conhecem. Ou seja, elas sabem que existe um modo de falar que é considerado bonito, importante, mas elas não têm acesso a ele.
O preconceito linguístico nas sociedades ocidentais é derivado principalmente das práticas escolares. A escola sempre foi muito autoritária, muitas vezes as pessoas tinham que esquecer a língua que já sabiam e aprender um modelo de língua. Qualquer manifestação fora desse modelo era considerada erro, e a pessoa era reprimida, censurada, ridicularizada.
Outro grande perpetuador da discriminação linguística são os meio de comunicação. Infelizmente, pois eles poderiam ser instrumentos maravilhosos para a democratização das relações linguísticas da sociedade. No Brasil, por serem estreitamente vinculados às classes dominantes e às oligarquias, assumiram o papel de defensores dessa língua portuguesa que supostamente estaria ameaçada. Não interessa se 190 milhões de brasileiros usam uma determinada forma linguística, eles estão todos errados e o que apregoam como certo é aquela forma que está consolidada há séculos. Isso ficou muito evidente durante todas as campanhas presidenciais de que Lula participou. Uma das principais acusações que seus adversários faziam era essa: como um operário sem curso superior, que não sabe falar, vai saber dirigir o país? Mesmo depois de eleito, não cessaram as acusações de que falava errado. A mídia se portava como a preservadora de um padrão linguístico ameaçado inclusive pelo presidente da República.
Nessas sociedades e nessas culturas muito centradas na escrita, o padrão sempre se inspira na escrita literária. Falar como os grandes escritores escreveram é o objetivo místico que as culturas letradas propõem. Como ninguém fala como os grandes escritores escrevem, a população inteira em teoria fala errado, porque esse ideal é praticamente inalcançável.
Entretanto, isso é muito contraditório, porque os ensinos tradicionais de língua dizem que temos que imitar os clássicos, mas ao mesmo tempo somos proibidos de fazer o que os grandes autores fazem, que é a licença poética. Como aprendemos nas escolas, ela é permitida àquele que em teoria sabe tão bem a língua que pode se dar ao luxo de desrespeitar as normas. A diferença entre a licença poética e o erro gramatical é, basicamente, de classe social. Uma pessoa pela sua própria origem social se dá ao direito e tem esse direito reconhecido de falar como quiser, outra, também por sua origem social não tem esse direito.
Cria-se um padrão linguístico muito irreal, muito distante da realidade vivida da língua. É a partir desse confronto entre a maneira de falar das pessoas e essa língua codificada, que surgem esses conflitos linguísticos. A pessoa, ao comparar seu modo de falar com aquilo que aprende na escola ou com o que é codificado, vê a distância que existe entre essas duas entidades e passa a achar que seu modo de falar é feio, é errado.
Qualquer tipo de imposição linguística acaba gerando um efeito contrário que é a auto-rejeição linguística ou a promoção de um preconceito linguístico por parte das camadas sociais dominantes.
Luta contra o preconceito linguístico
Acabar com o preconceito linguístico é uma coisa difícil. É preciso sempre que façamos a distinção entre preconceito e discriminação. O que nós temos que combater é a discriminação, ou seja, quando esse preconceito deixa de ser apenas uma atitude ou um modo de pensar das pessoas e se transforma em práticas sociais.
Primeiro é preciso reconhecer a existência do preconceito linguístico, conhecer os modos como ele se manifesta concretamente como atitudes e práticas sociais, denunciar isso e criar modos de combatê-lo.
Justamente pelo fato de o preconceito linguístico nas sociedades ocidentais ser derivado das práticas escolares, na minha opinião, o grande mecanismo para começar a desfazer o preconceito linguístico, a discriminação linguística, está também na pratica escolar. É muito importante que a escola, em sociedades letradas como a nossa, permita ao aluno esse processo do acesso ao letramento a partir de práticas pedagógicas democratizadoras, em que as variações linguísticas sejam reconhecidas como prática da cultura nacional, que não sejam ridicularizadas. E é claro que isso tem um funcionamento político muito importante, não só na escola, mas em toda a sociedade.
Por isso que no Brasil, eu e um conjunto de outros linguistas e educadores estamos sempre atacando muito o preconceito linguístico e propondo práticas pedagógicas democratizadoras. Que a criança, ao chegar na escola falando uma variedade regional menos próxima do padrão, não seja discriminada. Nosso trabalho atualmente se centra muito na escola, nos materiais didáticos e na formação dos professores de português, para que não sejam eles mesmos perpetuadores do preconceito linguístico e da discriminação.
Além disso, vale considerar que, em menos de meio século, a proporção mundial entre a população urbana e a rural ficou muito desigual, com a população mundial muito mais urbanizada. A urbanização implica o contato com formas linguísticas de maior prestigio, na televisão, na escola, na leitura etc. Isso vai implicar também uma espécie de nivelamento linguístico. Embora as variedades linguísticas se mantenham, quanto mais pessoas souberem ler e escrever e tiverem ascensão social, é mais provável que haja um nivelamento linguístico maior.
No caso específico do Brasil, nos últimos oito anos, quase 30 milhões de pessoas saíram da linha da pobreza e com isso vão impor também sua maneira de falar. Outro dado muito importante é que a grande maioria das pessoas que se formam professores (de português, principalmente) vem dessas camadas sociais. Portanto, o professor que está indo para sala de aula já é falante dessas variedades linguísticas que antigamente eram estigmatizadas. Isso vai provocar um grande movimento de valorização dessas variedades menos prestigiadas. Estamos assistindo a um momento muito importante da história sociolinguística do Brasil.

*Matéria do Brasil de Fato, reproduzida na Carta Capital

O poder da escrita

Vou reproduzir um texto que escrevi num curso de extensão que estou fazendo online pela UNESP de Marília.  O breve comentário refere-se ao prefácio, capítulos 2 e 3 do livro "História da Escrita", de Steven Roger Fischer. 

Na página 10, o autor Fischer diz que “a escrita se torna a mais moderna máquina do tempo”. Ele está se referindo à possibilidade de podermos reler o que já foi escrito, à possibilidade de sabermos da nossa história com a leitura que os antepassados nos deixaram. Podemos entrar nessa “máquina do tempo” a qualquer momento e saber o que aconteceu no instante em que um texto foi escrito, porque ele é, por si mesmo, a descrição do que procuramos. Entretanto, um texto escrito tem muito das impressões de quem o escreveu, tornando-o pessoal e mostrando um ponto de vista particular. Assim, podemos, muitas vezes, ter acesso a algo da história cujo narrador/escritor pode não mostrar todos os lados da moeda. Na continuação do texto, Fischer diz que “a escrita continua sendo um artifício, um instrumento imperfeito aparentemente modelado, ainda que à primeira vista para reproduzir a fala humana”. Acredito que a escrita não tente reproduzir apenas a fala humana, mas sobretudo o pensamento. Talvez nem a fala consiga reproduzir fielmente o que temos em mente. Falar e escrever são formas distintas de uso da linguagem. Algumas pessoas tem dificuldade em articular a escrita de textos, mas conversam bem.
A escrita é um meio de se comunicar, como a fala. No entanto, o que escrevemos pode ser acessado novamente, ao passo em que a fala acaba no seu instante de produção, a não ser que seja gravada, claro! E é essa característica de reler que faz da escrita uma máquina do tempo: reler é recontar a mesma história várias vezes.
A escrita usando papiro, argila ou pergaminho remonta aos mais antigos registros que conhecemos do seu uso. Atualmente, escrevemos sem tinta e sem papel. Fischer faz uma descrição poética do uso dos computadores: “tinta eletrônica sobre telas de plástico, finas como papel”, e segue dizendo que “a escrita muda à medida que a humanidade se transforma. É uma dimensão da condição humana”. Por isso mesmo, enquanto sociedade que vem se desenvolvendo ao longo de séculos e milênios, a humanidade cria novas tecnologias para suprir novas necessidades. O próprio Fischer reconhece que a escrita era “considerada o caminho para a sabedoria” e que era a “ferramenta perfeita para a ascensão social” por representar a ideologia de um grupo.
Assim como o texto de Fischer cita os diferentes sistemas de escrita, logografia, silabografia e alfabeto, a língua portuguesa, especificamente, teve três períodos de desenvolvimento da escrita: o período fonético (ou arcaico, quando do surgimento da língua portuguesa, do século XIII até metade do século XVI, aproximadamente, em que se escrevia consultando o ouvido, se escrevia como se ouvia, mas sem nenhuma normatização), o pseudo-etimológico (erudição, aproximação da escrita greco-latina, mas também sem nenhuma normatização) e o etimológico (o português normatizado que usamos atualmente, desde 1904, tendo sofrido poucas alterações desde então).
Durante muito tempo a escrita ficou restrita a pequenos grupos, a uma elite de ricos e poderosos. Com o tempo, passou a ser usada por todos, porque era mais fácil uma elite dominar um povo se todos se comunicassem uniformemente. Além disso, com o advento da escrita, o domínio pôde ser mais fácil para além das fronteiras internas, com a imposição da cultura dominante. Pensemos no que os jesuítas portugueses fizeram com os índios no Brasil: alfabetizaram quem não usava a escrita como prova de domínio. Outro exemplo: A cultura literária e científica ficou muito restrita aos clérigos durante um longo período em Portugal, especialmente durante a Idade Média, tendo sido disseminada nos conventos, como o de Alcobaça, a maior livraria medieval portuguesa. Até o século XIII, apenas nesses conventos havia a produção de manuscritos, único meio de reprodução dos livros antes do surgimento da imprensa, e esses documentos eram restritos apenas aos estudiosos desses lugares.
Nesse momento histórico em que o latim era a língua das literaturas, aprendido principalmente pelos clérigos e usado por eles na transmissão de seus ensinamentos e valores religiosos, a formação do reinado português, com todas as mudanças sociais, políticas e culturais instaladas, foi determinante para o surgimento de uma literatura de ambiente citadino, inspirado pelo espírito antifeudal e anticlerical. Diante disso, a Igreja resolveu escrever e divulgar seus textos nas línguas regionais para, a todo custo, custo levar seu conhecimento antes destinado apenas aos clérigos, à população leiga. Foi a massificação do conhecimento religioso que arrebanhou novos fiéis, dando nova dimensão para a Igreja Católica na Idade Média. Livros e mais livros passaram a ser traduzidos, dando trabalho a muitos copistas, que eram responsáveis fazer cópia dos livros, já que naquela época não havia a imprensa. Algo interessante para se observar nessa questão dos copistas é que houve cópia de textos escrita com mudanças na grafia de várias palavras, porque nessa época ainda não existia uma ortografia, uma norma de escrita. A título de curiosidade, o primeiro trabalho organizado que descreve a ortografia da língua portuguesa foi publicado em 1904 por Gonçalves Viana: Ortografia nacional.

O prazer e a culpa

Vou comentar um texto do Contardo Calligaris que foi publicado esta semana na Folha de S. Paulo. Primeiramente, vamos esclarecer quem escreveu o texto abaixo: Contardo Calligaris é um psicanalista. A psicanálise é uma área da psicologia desenvolvida por Freud. Há outras teorias da psicologia além da psicanálise. A psicologia se apresenta como Ciência (tem um objeto de estudo, uma metodologia) embora haja algumas discussões sobre esse objeto, a 'alma', mas isso é outro assunto...
Como psicanalista, acredito que o Contardo queira não discutir se Deus existe ou não, mas ele lida com a questão do prazer e da culpa. Eu não entendo muito de psicanálise, mas vou tentar dizer o que sei sobre prazer (veja, prazer aqui não se refere necessariamente a sexo, mas ao prazer geral, como comer, fazer coisas das quais goste etc.) segundo a teoria de Freud: Todos nós, quando nascemos, buscamos o seio da mãe para nos alimentar, já sabemos o que temos que fazer: mamar. Essa ânsia, esse desejo de mamar e saciar a fome é o prazer inicial, o nosso primeiro prazer, o mamar. O segundo momento de prazer na nossa vida é quando conseguimos ter o controle do esfincter: quando conseguimos controlar nossa vontade de ir ao banheiro, podemos controlar essa necessidade de nos sentirmos aliviados. O mais importante é focarmos no prazer inicial, que é o mamar, o saciar a fome. Ao longo da vida, sempre vamos buscar alguma realização: é a nossa pulsão de vida. Assim que você conquistar algo que almeja, começa outra busca, e assim por diante. O dia em que você não mais desejar nada, será o dia em que você terá uma pulsão de morte, não mais vontade de viver, nenhum prazer mais para realizar.
Todos nós, segundo Freud, buscamos saciar o prazer inicial ao longo da vida, e colocamos nossas energias nessas atividades a que nos propomos fazer. Por outro lado, algumas pessoas buscam esse prazer original de uma forma 'descontrolada', se é que posso dizer assim: perdida, a pessoa come em excesso, se exercita em excesso, ou faz alguma coisa de forma 'incomum'. Inclusive aqueles que só enxergam a igreja, como os evangélicos cegos, ou mesmos católicos, ou mesmo os homens-bomba que matam em nome do Alá (mas no caso dos homens-bomba acho que é diferente, porque eles cresceram aprendendo que aquela é a única verdade, cegos, ignorantes e alienados). Mesmo o beijo, segundo a psicanálise, é uma tentativa de busca do prazer original. Essa busca de 'mamar na mãe' nos persegue para sempre, inconscientemente.
Como mais de 90% das pessoas do planeta não são atéias (acreditam em Deus, em algum Deus, em alguma entidade, força superior etc.), é inevitável tratar da culpa e do prazer sem falar em Deus.
Particularmente, não vejo a contradição que alguns possam enxergar no texto, se quiserem dizer que o autor fala que Deus existe mas que nega que ele possa agir em nossa vida : "No fim do primeiro milênio, cada vila europeia vivia no medo de bandos errantes. Quando eles se aproximavam, o povo se reunia na igrejinha e rezava. Isso não impedia nem saques nem estupros. O que pensar quando os bandidos iam embora? Deus não nos protege porque não existe? Deus existe, mas não dá a menor para a gente? Devia triunfar a versão que conciliava o desastre com a existência de Deus: o próprio Deus mandou os bandidos para nos punir de nossos pecados.". Veja que ele está descrevendo o que faziam as pessoas no primeiro milênio da era cristã: quando se aproximavam esses bandos errantes, as pessoas iam para a igreja e rezavam, e 'mesmo assim' não conseguiam evitar roubos e estupros. Conseqência: "se meus prazeres culpados são a causa dos males, (...) bastará modificar minha conduta de modo que minhas ofensas sejam perdoadas". O próprio autor deixa claro: o homem é que age e que muda sua conduta. A nós, que acreditamos em Deus, sabemos que Ele nos ilumina. Mas, em última instância, não podemos nos esquecer de que temos o Livre Arbítrio: a escolha final do que fazer sempre será nossa, agir ou ficar parado esperando... Por exemplo, se algo bom nos acontece, o que dizemos? "Graças a Deus". Ou não é assim que nos comportamos? E quando uma desgraça acontece, como uma tragédia natural? É importante refletirmos sobre isso, porque dizer que as desgraças acontecem com quem não reza e não crê me parece, isso sim, contraditário: por que tanta gente que reza e crê morre em situações terríveis, sofrem tragédias etc.? Não podemos oferecer respostas simplórias para assuntos tão complexos. Há inúmeras possibilidades sobre o que refletirmos, e essas muitas possibilidades me agradam de um tanto...
Segue o texto do Contardo:

CONTARDO CALLIGARIS (Folha de S. Paulo)
O prazer e a culpa

Os jovens são levados a pensar que é só frustrando seus próprios desejos que ganham o amor dos adultos


ADMIREI A reação dos japoneses diante do desastre -terremoto, tsunami, contaminação nuclear. Nas declarações oficiais e nas palavras das vítimas, a catástrofe é apenas um acidente: pode haver responsáveis por falhas na prevenção, na segurança ou nos socorros, mas a catástrofe em si não tem sentido algum. Será que nós, ocidentais, seríamos capazes da mesma atitude? Não sei.
A peste assolou repetidamente a Europa do século 14 ao 18. A primeira grande epidemia, de 1347 a 1352, matou um quarto da população europeia. Para que o horror não induzisse ninguém a pensar que o universo era sem sentido, duas reações populares: 1) perseguir judeus e bruxas, supostamente responsáveis pelo contágio, 2) juntar-se aos flagelantes, penitentes que erravam pelo continente se fustigando até o sangue.
Para o flagelante, a peste era um castigo pelos pecados do mundo; portanto, punir-se por eles talvez fosse o jeito de tornar a peste desnecessária.
Naqueles quatro séculos, a Europa se cobriu de igrejas que eram construídas como oferendas para que a epidemia se acalmasse; nelas, homens e mulheres faziam promessas, pedindo para serem poupados.
Ainda hoje, na calamidade e no medo, a promessa que acompanha o pedido feito a Deus ou aos santos sempre propõe uma renúncia: o pedinte se engaja a se privar de algo, do sexo ao chocolate. Funciona assim: 1) meu prazer e meu gozo são sempre culpados, 2) portanto, qualquer mal que me assole se explica como punição de minhas culpas, 3) a renúncia aos meus prazeres pode me redimir e estancar a punição.
Como chegamos a fazer esse estranho uso dos prazeres, ou melhor, da renúncia aos nossos prazeres? Três respostas, não excludentes (e insuficientes).
1) Bem ou mal, educar implica conter, impor frustrações e renúncias. Com isso, a aprovação dos educadores sempre parece proporcional à aceitação das renúncias pelos educandos. Ou seja, os jovens podem ser levados a pensar que é só frustrando seus próprios desejos que eles ganham o amor dos adultos.
2) No fim do primeiro milênio, cada vila europeia vivia no medo de bandos errantes. Quando eles se aproximavam, o povo se reunia na igrejinha e rezava. Isso não impedia nem saques nem estupros. O que pensar quando os bandidos iam embora? Deus não nos protege porque não existe? Deus existe, mas não dá a menor para a gente? Devia triunfar a versão que conciliava o desastre com a existência de Deus: o próprio Deus mandou os bandidos para nos punir de nossos pecados.
3) Talvez seja menos angustiante viver num mundo que faz sentido do que num mundo que não teria sentido algum. Por exemplo, como é que você aguentaria o pensamento da morte futura sem o conforto da ideia de que ela está incluída numa ordem cósmica ou num plano divino?
Infelizmente, esse conforto tem um custo alto, pois o jeito mais fácil de garantir a existência de um sentido do mundo consiste em me atribuir a culpa por todos os males. Ou seja, minha culpa e meu esforço para me redimir "provam" que existe uma ordem (justamente, a que eu ofendia quando me entregava a meus prazeres).
Corolário: se meus prazeres culpados são a causa dos males, não preciso responder "adequadamente" às calamidades, bastará modificar minha conduta de modo que minhas ofensas sejam perdoadas.
Além de dar sentido ao meu mundo, a culpa me oferece a ilusão de agir de maneira eficaz: como o flagelante, posso esperar que minha renúncia ao prazer suspenda a punição. De repente, doenças e catástrofes talvez parem diante de minha conduta meritória. Em vez (ou além) de procurar as condições de prevenir um terremoto ou de debelar um câncer resistente, rezarei noite e dia e me fustigarei em penitência. Se, de qualquer forma, o terremoto vier ou o câncer triunfar, será porque não me açoitei o suficiente.
Pois bem, não acredito que, em nossa cultura, esse bizarro uso dos prazeres e da culpa tenha mudado substancialmente nos últimos sete séculos. Continuamos fundamentalmente inimigos do nosso prazer.
Prova disso: há, hoje como no século 14, bandos errantes que denunciam nossos tempos "hedonistas" e nossa voracidade por prazeres e gozos. São os flagelantes verbais: criticam o prazer para fomentar a culpa. É o jeito (custoso) que eles acharam para dar sentido ao mundo.

segunda-feira, 21 de março de 2011

Devaneio de uma noite de outono

Eu estava entorpecido naquela noite gelada. Não era um torpor pelo frio, menos ainda pelas drogas que eu não uso, era reflexo de uma vida toda. Eu estava paralisado, tranquilizado. Acho que eu sonhava naquele momento, porque parecia tudo incrível. Eu estava deitado no colchão, sendo velado, observado quietamente. A conversa parecia distante, longe lá no fundo. Me lembro dos rostos, dos sorrisos nossos. Ficamos conversando, conversando... O tempo não era mais um tigre, era uma estátua no jardim. Fazia Tic e custava a vir o Tac, longamente, para meu prazer e para a manutenção dessa foto que trago na memória. Ficamos juntos tanto tempo, com abraços, beijos - era muito carinho, coisa de cinema! Era uma cena rara: deitados no colchão, eu sendo observado e ouvindo: como você é lindo... Acho que sonhava acordado, um devaneio. Fecho os olhos e revejo aquele momento todo de torpor, de amor, do calor que me aqueceu naquela noite fria...

Trilha sonora: Wish you were here, da Avril Lavigne

sexta-feira, 18 de março de 2011

Histórias pra contar

Há algum mistério nesse olhar. No movimento desses cabelos com o vento. Há algo a descobrir em você. Ou você se esconde, ou resiste... Há uma certa firmeza nos seus riscos, nos seus traços há uma exatidão. Para uma descrição, narração de uma emoção. Há algum mistério nesse olhar, um amor pra conquistar, um abraço pra apertar. Há medo nesse olhar, ou apenas uma incerteza (daquelas que todos nós podemos ter quando acordamos e pensamos: será?) relutante que te faz expressar esse ar de mistério? Há um carinho nessa mão, que traça firme sobre a folha em branco: um toque de amor, de aconchego. Há uma força nesses braços que envolvem: a força da paz, como se oferecesse uma bênção - ou como se a pedisse. Quando abertos, esses braços parecem enormes, mas ao abraçar, fechando-se, ficam pequenos porque juntam os dois corpos num só instante, numa só luz, o mais apertado possível, inseparável e indizível. Há uma suavidade na sua voz, um doce que fala da vida, do dia: 'o bom na vida é ter histórias pra contar'. Quero recomeçar a minha história, quer ser protagonista comigo? A gente pode desvendar esses mistérios juntos, descobrir novas histórias pra contar. A gente pode escrever um livro. Com gravuras, figuras, desenhos. Pintados, em preto e branco, riscados. A gente pode escrever uma história de duas pessoas, ou duas histórias que uma hora se encontram, num daqueles capítulos que lemos ansiosamente esperando o resolver de tudo. Queria descobrir o mistério desse olhar e viver esse capítulo ansioso pra sempre, sem chegar ao fim do livro, a não ser com final feliz.

terça-feira, 15 de março de 2011

EUA e as experiências desumanas

Traduzo abaixo um texto que li hoje no site do jornal espanhol El País e que me deixou muito inconformado com a brutalidade com que os EUA tratam pessoas, ainda que sejam presos por terem cometido algum crime e, pior ainda, se forem pacientes com problemas mentais ou órfãos. É a barbárie - sim, os EUA não governam pessoas, o Governo americano é ele mesmo o bárbaro. Eles governam dinheiro e poder. Deveriam, por isso mesmo, chamar-se Estados Unidos dos Bárbaros.
Segue o texto:

Apresentada uma demanda contra os EUA por experimentos com sífilis na Guatemala

Tradução: William César Ramos Lima
Fonte: El País

Cerca de 700 prisioneiros, soldados, pacientes mentais e órfãos procuram uma compensação financeira pelos problemas de saúde desenvolvidos pela doença

EFE - Washington - 14/03/2011

Centenas de guatemaltecos submetidos a experimentos com sífilis pelos Estados Unidos na Guatemala na década de quarenta do século passado apresentaram hoje uma demanda em Washington contra o Governo à procura de indenização. A ação coletiva, segundo o escritório de advocacia Parker, Waichman e Alonso que os representa, procura uma compensação financeira pelos problemas de saúde desenvolvidos por cerca de 700 prisioneiros, soldados, pacientes mentais e órfãos em razão dos experimentos.
Os representantes legais haviam dado o prazo de até sexta-feira passada para que o Governo norteamericano estabelecesse um processo de compensação fora dos tribunais para as pessoas que “foram adversamente afetadas por este experimento”. Como não obtiveram resposta, apresentaram hoje a demanda. O outro escritório de advocacia envolvido na demanda coletiva é o Conrad and Scherer.
A ação judicial se deu depois que, em outubro de 2010, havia sido divulgada informação sobre os experimentos com sífilis feitos sem a permissão ou o conhecimento das pessoas afetadas. Naquela ocasião, tanto a secretária de Estado, Hillary Clinton, como a da Saúde, Kathleen Sebelius, criticaram tais experimentos e divulgaram uma desculpa pública. O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, também pediu desculpas telefônicas ao seu homólogo guatemalteco, Álvaro Colom, e ordenou a criação de uma comissão especial para estudar os aspectos éticos dos estudos médicos internacionais.
Entre 1946 e 1948, cientistas norteamericanos contaminaram deliberadamente os sujeitos dos experimentos com o vírus da sífilis para provar a eficácia da penicilina contra essa doença. Segundo documentos judiciais, a equipe de médicos norteamericanos persuadiu funcionários em orfanatos e em prisões da Guatemala para que permitissem os experimentos em troca de equipamentos como refrigeradores e remédios para o tratamento da malária e da epilepsia.
Em alguns casos, os médicos ofereceram cigarros a alguns dos sujeitos que aceitaram participar dos experimentos e os presos foram infectados por prostitutas. A demanda compara os experimentos na Guatemala com um estudo feito em Tuskegee (Alabama), que começou em 1932 e durou 40 anos, período no qual os médicos observaram o avanço da sífilis em cerca de 400 homens afroamericanos já infectados por essa doença.
Esses homens nunca foram informados de que haviam contraído a doença venérea e nunca foram tratados, mesmo que tenham sido submetidos a exames médicos gratuitos, tenham recebido alimentos e cobertura de gastos fúnebres. Na ação pelos experimentos em Tuskegee, as vítimas foram indenizadas.

Tradução: William César Ramos Lima
Fonte: El País

terça-feira, 8 de março de 2011

No país das quinquilharias do Leo

Hoje vou dedicar meu post a um novo amigo, também blogueiro e poeta. Vou apresentar-lhes o Leo. No país das quinquilharias é o blog dele. Vale a pena conferir. De cara, eu me senti atraído por esta poesia AQUI:
[...]

É doce seu beijo,
Me desnudo para recebê-lo.
Como é doce seu beijo
Quando deito na cama,
encabeçando os travesseiros.
É doce o beijo que nos transborda
para dentro.
A pele é uma fronteira mais pacífica
Quando seu beijo encontro
Em bocas imprevistas.


Achei linda a imagem da pele como fronteira pacífica da fricção que os corpos provocam. Um esfrega da paz, não da guerra, mas dos gritos. De prazer, não de dor. Um beijo que transborda pra dentro (da boca do outro).  Em meio a tantas guerras, tanta violência presente no nosso cotidiano, ver essa luta pelo amor, pela sensualidade faz relembrar esses momentos sensuais que vivemos. Esses encontros que fazemos na busca do prazer: cada encontro deve nos trazer marcas - boas ou ruins - que, de algum modo, vão nos ajudar na construção de quem somos.

A você, Leo, minha homenagem de hoje!

quinta-feira, 3 de março de 2011

Sonhos e frustrações de uma mocinha

Eu queria ter a sorte de encontrá-lo na rua. Aquele moço bonito que conheci outro dia, assim, sem querer. Nessa andança todo dia na hora do almoço, no caminho para o restaurante. Às vezes vou para uma lanchonete ou para um café. No caminho vejo tantas lojas que chamam a atenção - ou pela cor da vitrine ou pela bagunça que se mostra! Eu queria ter dinheiro para fazer esses móveis planejados. Como os da vitrine. Ficariam perfeitos na minha nova casa. Fui sorteada no programa do governo. Ganhei uma casa. Não ganhei, porque vou pagar, mas ganhei o sorteio. Terei que pagar pela casa! Com prazer. E com meus móveis planejados... Ficará linda...
Passando na frente do laboratório, fiquei com medo de pegar o exame. Transei com o ex várias vezes sem camisinha. Deu até um arrepio agora. Grávida não estou, porque tomo pílula. Pelo menos. Amanhã penso em retirar esses resultados. Não quero ser sorteada nesse exame! Esse não é o tipo de sorteio que nos dá prêmios. Na verdade nem é um sorteio. É uma escolha - não escolhemos a contaminação, mas escolhemos a não prevenção... Caso sério, vive dando na TV, o Ministério da Saúde sempre fala pra usar camisinha... Mas a gente é boba, acha que aqueles homens lindos são imunes a todo mal, inclusive dessas doenças. Eles nos enganam, ou nós nos enganamos, com tanto elogio, tanto amor que nos mostram... Só depois descobrimos que são sem-vergonhas, que querem apenas nos levar pra cama, sem amor, sem roupa, sem nada. Nem com a camisinha. Eles nos ganham com um papo que nos faz sentir deusas, as mais belas, lindas e gostosas. Gostosas. Aí traçam, comem, devoram. Nosso sexo, nosso corpo, nossa alma. Lá se vai toda nossa saúde. Sem camisinha. Lá se vai a esperança de comprar os móveis planejados. Sem dinheiro, sem vontade de viver. Não vou mais procurar as vitrines depois de adoecer. Condenada. Chega com essas ideias. Deixa eu ir almoçar. Amanhã vejo o resultado do exame.

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