quinta-feira, 21 de abril de 2011

A impressão, a tradução e a divulgação do conhecimento

Um pouquinho da história da mídia entre a Idade Média e a Modernidade, com enfoque na atividade de tradução.

Na época em que apenas existiam manuscritos, a Igreja controlava a produção e a reprodução dos mesmos, porque tinha influência direta sobre os copistas e escribas. Aproveitando o assunto da censura dos manuscritos, vou falar um pouquinho sobre os manuscritos traduzidos no Brasil colonial. Lia Wyler, tradutora e estudiosa de tradução, em seu livro “Línguas, poetas e bachareis: uma crônica da tradução no Brasil” descreve esse ofício no Brasil colonial: “Todos os textos utilizados na evangelização, no estudo e no lazer, porém, sofriam a tripla censura instituída no império português no século XVI: a do Santo Ofício, a do Ordinário Eclesiástico na respectiva diocese e a do Paço. O relator do Santo Ofício examinava o livro em manuscrito e obrigava o autor a alterá-lo, amputá-lo ou ampliá-lo, antes de lhe conceder a fórmula: ‘nada contém contra a nossa Santa Fé e bons costumes’ (p.62). A autora continua dizendo que eventuais textos literários traduzidos na colônia deveriam ser submetidos à censura da Metrópole para serem impressos lá; ou permaneciam aqui, manuscritos, fugindo da censura, mas esses manuscritos raramente chegaram aos nossos dias.

Com o advento da impressão e a produção de materiais em larga escala, a Igreja não conseguiu mais controlar os impressores do mesmo modo que fazia antes. Por outro lado, em 1485 em Frankfurt houve um caso de censura, quando livros que seriam expostos em uma feira regional foram analisados pelo conselho municipal a pedido de um religioso. A partir disso, a Igreja criou uma lista de livros que seriam proibidos e que era atualizada sempre, valendo pelos próximos quatro séculos.

Outra consequência da dificuldade de se controlar a produção da impressão foi que Lutero se beneficiou desse novo meio durante a Reforma, já que ele traduziu suas teses para línguas vernáculas, as imprimiu e as distribuiu por toda a Alemanha e por toda a Europa.
Os livros impressos passaram a ser usados, também, para a divulgação de obras clássicas com a padronização das traduções (nos tempos dos manuscritos, os copistas faziam cópias não exatamente fiéis aos textos-base. Dessa forma, cada livro copiado manuscrito podia ter divergências de ortografia, por exemplo). Além disso, os livros impressos serviram também para difundir dados do mundo natural e desenvolver sistemas padronizados de classificação, de representação e de práticas. Obras científicas começaram a ser produzidas com a ajuda de professores universitários. Surgiram, também nessa época, obras de ciências populares, como almanaques e manuais práticos e livros de conduta. Obviamente que naquela época a educação não atingia a massa, o povo. Era restrita a uma elite clerical, política, a professores, estudantes e a uma classe social emergente. Isso não quer dizer, no entanto, que a alfabetização era exclusiva dessa elite, mas era dominada por ela. Principalmente mulheres, crianças, operários e trabalhadores rurais não especializados eram marginalizados no que diz respeito a saber ler.

No final do século XVIII, com o incentivo do ensino das ciências, com as expedições científicas, com a divulgação de enciclopédias e com a fundação da Academia Real de Ciências de Lisboa, conforme apresenta Wyler (p.73), houve um movimento nacionalista brasileiro liderado pelo Frei José Mariano da Conceição Veloso, cujo objetivo era produzir, adaptar ou traduzir obras de novas técnicas e culturas desenvolvidas em outros países e que fossem úteis ao desenvolvimento do Brasil. No entanto, como a impressão ainda não chegara aqui nessa época, essas obras eram impressas em Portugal.

Entre tais obras, estavam as que tratavam de “técnicas e culturas de várias plantas úteis, navegação, mineralogia, medicina, eletricidade, língua tupi ou nhegatu, hidrometria, gravura, botânica, zoologia, matemática, economia, política, religião e tecelagem” (Wyler, p.74). Esses livros, geralmente traduzidos do francês, inglês, castelhano, alemão e latim, eram destinados aos agricultores brasileiros. Esses trabalhos foram feitos em várias tipografias de Lisboa para depois o grupo do Frei Veloso ter uma oficina própria em Portugal, a Tipografia Catalográfica, Tipoplástica e Literária do Arco do Cego.

Eu falei sobre a produção das primeiras traduções brasileiras de livros técnicos e científicos para mostrar que o advento da impressão tornou possível o desenvolvimento dos trabalhos de tradução feitos por brasileiros – ainda que realizados em Portugal até a vinda da Corte Real ao Brasil em 1808 e a consequente instalação da Impressão Régia por aqui. Lembrando que, antes desses tipos de textos, já eram traduzidos assuntos educacionais, burocráticos e principalmente religiosos. Além disso, como eu já citei acima, a impressão foi muito útil para a unificação das traduções, uma vez que não eram mais os copistas os responsável pela reprodução dos livros.

Eu fiz uma abordagem da relação entre a impressão e a tradução, mas é possível descrever também o que o John B. Thompson fala sobre a impressão e o desenvolvimento da economia em seu livro "A mídia e a modernidade: uma teoria social da mídia". O autor diz que as máquinas de impressão movimentaram a economia no fim da Idade Média e começo da Idade Moderna. Além disso, a indústria gráfica fez surgir novos centros de poder que não estavam ligados ao poder da Igreja ou do Estado, embora estes útimos procurassem usá-la em seu benefício.
 
Outro aspecto econômico do desenvolvimento gráfico foi o seguinte: quem tinha dinheiro editava, imprimia e vendia livros. Quem não possuía recursos financeiros suficientes para isso, fazia empréstimos ou trabalhava para a Igreja ou para o Estado (o uso da impressão em benefício da Igreja e do Estado há pouco citado, já que era conveniente para estes manterem a impressão a seu serviço, tanto quanto para os impressores sem recursos manterem seus negócios). Essa relação próxima entre religião e política se deu, também, pelo interesse na venda de formas simbólicas que só a impressão podia oferecer, e que fizeram estreitar ainda mais essas relações. Esse interesse na forma simbólica oferecida pela impressão se dava porque as tiopografias e editoras do inícia da Idade Moderna eram de organizações culturais e econômicas, como observou Thompson. Desse modo, desvinculadas do poder eclesiástico e governamental, essas instituições gozavam de certo prestígio e influência social, sendo relativamente "independentes" e "neutras" por não representarem nem o Governo nem a Igreja.

terça-feira, 19 de abril de 2011

Aqui

Quero desfazer o tempo. Quero desfazer as luzes do caminho. Quero caminhar apenas com a iluminação do coração, quero seguir a trilha da emoção, sem pensar muito. Quero esquecer que teve um ontem e que hoje é apenas um momento. Deixar pra trás a ideia do amanhã - aquele que a gente sonha ser melhor... Quero apenas confiar no meu instinto humano (como se fosse fácil ser humano, tão cheio de contradições, mudanças, vontades, sentimentos, frustrações, sonhos) e na parte mais humana de mim: me derreter diante de um belo sorriso e de um quente abraço, porque sentir um calor humano é um destaque bom no meio de tanta frieza que pode nos envolver por aí. Quero um amor - não vou dizer um amor pra sempre, porque eu já desfiz o tempo... - que me acompanhe no caminhar com a luz do coração; mais que isso, quero um amor que me ilumine ele mesmo, a ponto de unir os corações e formar uma luz resplandecente, gigante! Quero um amor que me desafie, que me ensine, que me faça pensar. Quero alguém fora do normal, extraordinário, surpreendente. Quero alguém que cante para mim, como um grilo avisando: estou aqui do seu lado, pertinho do seu coração. Não importa o tempo, quero aqui!

Música de hoje: Nada valgo sin tu amor, do Juanes

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Felicidade

O que haveria de ser de mim sem minhas amarras, já gritadas aqui? Há uma necessidade de compartilhar momentos, carícias, sonhos... Me sinto bem quando consigo compartilhar a vida com alguém especial, que me dá atenção e que se dispõe a se abrir também. É gostoso criar intimidade, gerar confiança, ir tendo segurança. A gente encara tantos desafios ao longo da vida: no trabalho, em casa, na escola, e ter o desafio de aprender a amar é ampliar o horizonte que se quer viver. Eu só queria registrar aqui a minha felicidade!

Música de hoje: Try, da Natasha Bedingfield

sábado, 26 de março de 2011

Desejos, depravações e um pouco de hipocrisia

Mostra na Suécia explora 500 anos de 'desejos e depravações'

(A mostra parece ótima, pena que não está no Brasil)

Claudia Varejão Wallin
De Estocolmo para a BBC Brasil
'Danaë and the shower of gold', de Adolf Ulrik WertmülleExposição mostra como a virtude e o pecado são representados na arte
"Desejo & Depravação" é o tema provocante da mostra que o Museu Nacional de Estocolmo exibe na capital sueca a partir de 24 de março, com mais de 200 obras que ilustram as mudanças na percepção de sexualidade e moralidade através dos séculos.
A exposição vai reunir trabalhos que vão desde o século 16 até a atualidade, explorando os contrastes na forma como a virtude e o pecado têm sido representados na arte em diferentes épocas.
"Queremos que os visitantes tenham as suas próprias interpretações sobre o que é desejo e o que é depravação", disse à BBC Brasil a gerente de divulgação do Museu, Anna Jansson.
"A arte erótica sempre foi produzida por homens e para homens. Quisemos mudar essa perspectiva, e por isso incluímos várias artistas mulheres na parte contemporânea da mostra."
Pinturas de traseiros femininos vão decorar a primeira sala da mostra, em uma referência considerada pecaminosa em outros tempos: os organizadores da exibição observam que, no passado, os valores vigentes rezavam que o sexo, além de restrito ao casamento, exigia contato visual frontal entre o casal a fim de ser moralmente aceitável.
'Satyre and nymph', de Agostino Carracci Artistas faziam insinuações moralistas contra estilos de vida pecaminosos
Vida virtuosa
Uma das montagens da exposição mostra como as meninas eram educadas para viver uma vida virtuosa, a fim de arranjarem um bom marido. Entre os itens em exibição estará um cinto de castidade cedido pelo Nordiska Museet de Estocolmo.
Obras dos séculos 16 estarão representando a rígida moral religiosa do período. Nessa época, muitos artistas pintavam detalhes eróticos em cenas míticas ou bíblicas, em geral carregadas de insinuações moralistas sobre as consequências de um estilo de vida pecaminoso.
No século 18, pinturas de tom erótico eram em grande parte restritas aos aposentos privados dos homens. Até a metade do século 19, os museus ainda enfrentavam dilemas para exibir obras com nuances eróticas. Como observa Anna Jansson, alguns museus chegavam a encomendar folhas de figueira para encobrir as partes íntimas representadas em esculturas antigas.
'Nicklas', de Sara-Vide Ericson/Galleri Magnus Karlsson Obras de artistas mulheres também estão na exposição
Havia, no entanto, uma enorme diferença entre o comportamento que a Igreja pregava para as massas e as liberdades que as elites se davam. A mostra examina a visão das classes altas no século 18, para as quais o casamento era essencialmente uma instituicão social – paixões ardentes eram buscadas com frequência longe da bênção dos padres. (Olha a hipocrisia aí, gente)
A partir do século 19, com a expansão da urbanização e o crescimento das cidades, os encontros sexuais anônimos e a prostituição trouxeram novas interpretações de sexualidade e moralidade.
A visão contemporânea de virtude e pecado estará representada na mostra por obras de artistas suecos e dinamarqueses como Kristina Jansson, Gisela Schink e Lars Nilsson.
"Desejo & Depravacão" estará aberta ao público até 14 de agosto.

BBC Brasil

Língua que discrimina

Acho que devemos refletir sobre o modo adequado e o não adequado de uso da língua. Em primeiro lugar, devemos distinguir a língua escrita da língua falada. Depois, reconhecer as diferenças entre diversas regiões do país, entre as diferentes comunidades/tribos, entre as diferentes classes sociais: de fato, justificar que apenas os padrões linguísticos dos grandes autores é o correto é segregar os comuns, que não são grandes autores. Por outro lado, não devemos fazer apologia à não educação, ao não ensino da língua escrita. É importante que todos tenhamos acesso à história da nossa língua e que saibamos também que há diferentes usos: um modo mais formal em certa situação, outro menos polido. Se todo mundo falasse errado, então ninguém se comunicaria, cada um teria sua própria língua!

Segue um texto para leitura e reflexão

Preconceito que cala, língua que discrimina

Marcos Bagno, escritor e linguista brasileiro, deixa à mostra a ideologia de exclusão social e de dominação política pela língua

Por Joana Moncau*

Marcos Bagno, escritor e linguista brasileiro, deixa à mostra a ideologia de exclusão social e de dominação política pela língua, típica das sociedades ocidentais. “Podemos amar e cultivar nossas línguas, mas sem esquecer o preço altíssimo que muita gente pagou para que elas se implantassem como idiomas nacionais e línguas pátrias”.
O preconceito linguístico é um preconceito social. Para isso aponta a afiada análise do escritor e linguista Marcos Bagno, brasileiro de Minas Gerais. Autor de mais de 30 livros, entre obras literárias e de divulgação científica, e professor da Universidade de Brasília, atualmente é reconhecido sobretudo por sua militância contra a discriminação social por meio da linguagem. No Brasil, tornou-se referência na luta pela democratização da linguagem e suas ideias têm exercido importante influência nos cursos de Letras e Pedagogia.
A importância de atingir esse meio, segundo ele, é que o combate ao preconceito linguístico passa principalmente pelas práticas escolares: é preciso que os professores se conscientizem e não sejam eles mesmos perpetuadores do preconceito linguístico e da discriminação. Preconceito mais antigo que o cristianismo, para Bagno, a língua desde longa data é instrumentalizada pelos poderes oficiais como um mecanismo de controle social. Dialeto e língua, fala correta e incorreta: na entrevista concedida a Desinformémonos, ele desnaturaliza esses conceitos e deixa à mostra a ideologia de exclusão e de dominação política pela língua, tão impregnada nas sociedades ocidentais.
“A língua é um dialeto com exército e marinha”, Max Weinreich
O controle social é feito oficialmente quando um Estado escolhe uma língua ou uma determinada variedade linguística para se tornar a língua oficial. Evidentemente qualquer processo de seleção implica um processo de exclusão. Quando, em um país, existem várias línguas faladas, e uma delas se torna oficial, as demais línguas passam a ser objeto de repressão.
É muito antiga a tradição de distinguir a língua associada ao símbolo de poder dos dialetos. O uso do termo dialeto sempre foi carregado de preconceito racial ou cultural. Nesse emprego, dialeto é associado a uma maneira errada, feia ou má de se falar uma língua. Também é uma maneira de distinguir a língua dos povos civilizados, brancos, das formas supostamente primitivas de falar dos povos selvagens. Essa forma de classificação é tão poderosa que se erradicou no inconsciente da maioria das pessoas, inclusive as que declaram fazer um trabalho politicamente correto.
De fato, a separação entre língua e dialeto é eminentemente política e escapa aos critérios que os linguistas tentam estabelecer para delimitar dita separação. A eleição de um dialeto, ou de uma língua, para ocupar o cargo de língua oficial, renega, no mesmo gesto político, todas as outras variedades de língua de um mesmo território à terrível escuridão do não-ser. A referência do que vem de cima, do poder, das classes dominantes, cria aos falantes das variedades de língua sem prestígio social e cultural um complexo de inferioridade, uma baixo auto-estima linguística, a qual os sociolinguistas catalães chamam de “auto-ódio”.
Falar de uma língua é sempre mover-se no terreno pantanoso das crenças, superstições, ideologia e representações. A Língua é um objeto criado, normatizado, institucionalizado para garantir a unidade política de um Estado sob o mote tradicional: “um país, um povo, uma língua”. Durante muitos séculos, para conseguir a desejada unidade nacional, muitas línguas foram e são emudecidas, muitas populações foram e são massacradas, povos inteiros foram calados e exterminados. No continente americano, temos uma história tristíssima de colonização construída sobre milhares de cadáveres de indígenas que já estavam aqui quando os europeus invadiram suas terras ancestrais e dos africanos escravizados que foram trazidos para cá contra sua vontade.
Não podemos esquecer que o que chamamos de “língua espanhola”, “língua portuguesa”, ou “língua inglesa” tem um rico histórico, não é algo que nasceu naturalmente. Podemos amar e cultivar essas línguas, mas sem esquecer o preço altíssimo que muita gente pagou para que elas se implantassem como idiomas nacionais e línguas pátrias.
Breve histórico linguístico da América Latina
A história linguística da América Latina foi e é marcada por muita violência contra as populações não-brancas, em todos os sentidos, dos massacres propriamente ditos, passando pela escravização e chegando aos dias de hoje com a exclusão social e o racismo.
No caso específico das línguas, as potências coloniais (Portugal e Espanha) se empenharam sistematicamente em impor suas línguas. As situações variam de país a país. Na Argentina, por exemplo, depois da independência, o governo traçou um plano explícito de extermínio dos indígenas, a chamada “Conquista do Deserto”, pagando em dinheiro às pessoas que levassem escalpos como prova do assassinato. Com isso, a população indígena da Argentina, principalmente do centro para o sul, desapareceu quase completamente, e com ela suas línguas.
No Peru e na Bolívia, a língua quéchua, que era uma espécie de idioma internacional do império inca, é muito empregada até hoje, havendo mesmo comunidades mais isoladas cujos falantes não sabem falar espanhol.
No Brasil, o trabalho de imposição do português foi muito bem feito, de maneira que é a língua homogênea da população. O extermínio dos índios fez desaparecer centenas de línguas: hoje sobrevivem cerca de 180, mas faladas por muito pouca gente, algumas já em vias de extinção. Durante boa parte do período colonial, a língua mais usada no Brasil foi a chamada “língua geral”, baseada no tupi antigo, que os jesuítas empregaram para catequizar os índios. Com a expulsão dos jesuítas no século XVIII e a proibição do ensino em qualquer língua que não fosse o português, a língua geral desapareceu. É uma pena que não tenhamos uma riqueza linguística como no México, que possui mais de 50 línguas diferentes, sendo que o nahua é falado por cerca de 1 milhão de pessoas. Ainda assim, essas minorias linguísticas no Brasil estão cada vez mais reconhecendo seus direitos e lutando por eles.
Quanto às línguas africanas no Brasil, elas não puderam sobreviver porque os portugueses tomavam cuidado para separar as famílias em lotes diferentes bem como os falantes de uma mesma língua, de modo que fossem obrigados a aprender o português para se comunicar entre si e com os brancos. Mesmo assim, as línguas africanas, sobretudo as do grupo banto, influíram fortemente na formação do português brasileiro, fazendo com que ele se tornasse o que é hoje, uma língua bem diferente do português europeu.
No Paraguai, como não houve expulsão dos jesuítas, a língua geral empregada por eles, o abanheenga (guarani), permanece até hoje como elemento importante da vida dos paraguaios, que são bilíngues em sua maioria: espanhol e guarani.
Falar errado? Para quem?
Também existe uma ideologia linguística que não é oficializada, mas que ao longo do tempo se instaura na sociedade. Em qualquer tipo de comunidade humana sempre existe um grupo que detém o poder e que considera que seu modo de falar é o mais interessante, o mais bonito, é aquele que deve ser preservado e até imposto aos demais.
Nas sociedades ocidentais as línguas oficiais sempre foram objetos de investimento político. As línguas são codificadas pelas gramáticas, pelos dicionários, elas são objetos de pedagogias, são ensinadas. Claro que essa língua que é normatizada nunca corresponde às formas usuais da língua, sempre há uma distância muito grande entre o que as pessoas realmente falam no seu dia-a-dia, na sua vida íntima e comunitária, e a língua oficializada e padronizada.
A questão da língua é a única que une todo o espectro linguístico, ou seja, a pessoa da mais extrema esquerda e da mais extrema direita geralmente concordam, por exemplo, diante da afirmação de que os brasileiros falam português muito mal. É uma ideologia muito antiga, eu digo que é uma religião mais antiga que o cristianismo, porque surgiu entre os gramáticos gregos 300 anos antes de Cristo e se impregnou na nossa cultura ocidental de maneira muito forte.
Entretanto, ao mesmo tempo em que as classes dominantes diziam que era preciso impor o padrão para todo o mundo, elas não permitiam às classes dominadas o acesso a ele. Havia essa contradição, que na verdade não é uma contradição, mas uma estratégia político-ideológica: “Você tem que se comportar assim, mas não vou te ensinar como”. Isso, para as classes dominantes terem, além de outros instrumentos de controle social, também o controle da língua. É o que Pierre Bourdieu chama de a ‘língua legítima’: as classes dominadas reconhecem a língua legitima, mas não a conhecem. Ou seja, elas sabem que existe um modo de falar que é considerado bonito, importante, mas elas não têm acesso a ele.
O preconceito linguístico nas sociedades ocidentais é derivado principalmente das práticas escolares. A escola sempre foi muito autoritária, muitas vezes as pessoas tinham que esquecer a língua que já sabiam e aprender um modelo de língua. Qualquer manifestação fora desse modelo era considerada erro, e a pessoa era reprimida, censurada, ridicularizada.
Outro grande perpetuador da discriminação linguística são os meio de comunicação. Infelizmente, pois eles poderiam ser instrumentos maravilhosos para a democratização das relações linguísticas da sociedade. No Brasil, por serem estreitamente vinculados às classes dominantes e às oligarquias, assumiram o papel de defensores dessa língua portuguesa que supostamente estaria ameaçada. Não interessa se 190 milhões de brasileiros usam uma determinada forma linguística, eles estão todos errados e o que apregoam como certo é aquela forma que está consolidada há séculos. Isso ficou muito evidente durante todas as campanhas presidenciais de que Lula participou. Uma das principais acusações que seus adversários faziam era essa: como um operário sem curso superior, que não sabe falar, vai saber dirigir o país? Mesmo depois de eleito, não cessaram as acusações de que falava errado. A mídia se portava como a preservadora de um padrão linguístico ameaçado inclusive pelo presidente da República.
Nessas sociedades e nessas culturas muito centradas na escrita, o padrão sempre se inspira na escrita literária. Falar como os grandes escritores escreveram é o objetivo místico que as culturas letradas propõem. Como ninguém fala como os grandes escritores escrevem, a população inteira em teoria fala errado, porque esse ideal é praticamente inalcançável.
Entretanto, isso é muito contraditório, porque os ensinos tradicionais de língua dizem que temos que imitar os clássicos, mas ao mesmo tempo somos proibidos de fazer o que os grandes autores fazem, que é a licença poética. Como aprendemos nas escolas, ela é permitida àquele que em teoria sabe tão bem a língua que pode se dar ao luxo de desrespeitar as normas. A diferença entre a licença poética e o erro gramatical é, basicamente, de classe social. Uma pessoa pela sua própria origem social se dá ao direito e tem esse direito reconhecido de falar como quiser, outra, também por sua origem social não tem esse direito.
Cria-se um padrão linguístico muito irreal, muito distante da realidade vivida da língua. É a partir desse confronto entre a maneira de falar das pessoas e essa língua codificada, que surgem esses conflitos linguísticos. A pessoa, ao comparar seu modo de falar com aquilo que aprende na escola ou com o que é codificado, vê a distância que existe entre essas duas entidades e passa a achar que seu modo de falar é feio, é errado.
Qualquer tipo de imposição linguística acaba gerando um efeito contrário que é a auto-rejeição linguística ou a promoção de um preconceito linguístico por parte das camadas sociais dominantes.
Luta contra o preconceito linguístico
Acabar com o preconceito linguístico é uma coisa difícil. É preciso sempre que façamos a distinção entre preconceito e discriminação. O que nós temos que combater é a discriminação, ou seja, quando esse preconceito deixa de ser apenas uma atitude ou um modo de pensar das pessoas e se transforma em práticas sociais.
Primeiro é preciso reconhecer a existência do preconceito linguístico, conhecer os modos como ele se manifesta concretamente como atitudes e práticas sociais, denunciar isso e criar modos de combatê-lo.
Justamente pelo fato de o preconceito linguístico nas sociedades ocidentais ser derivado das práticas escolares, na minha opinião, o grande mecanismo para começar a desfazer o preconceito linguístico, a discriminação linguística, está também na pratica escolar. É muito importante que a escola, em sociedades letradas como a nossa, permita ao aluno esse processo do acesso ao letramento a partir de práticas pedagógicas democratizadoras, em que as variações linguísticas sejam reconhecidas como prática da cultura nacional, que não sejam ridicularizadas. E é claro que isso tem um funcionamento político muito importante, não só na escola, mas em toda a sociedade.
Por isso que no Brasil, eu e um conjunto de outros linguistas e educadores estamos sempre atacando muito o preconceito linguístico e propondo práticas pedagógicas democratizadoras. Que a criança, ao chegar na escola falando uma variedade regional menos próxima do padrão, não seja discriminada. Nosso trabalho atualmente se centra muito na escola, nos materiais didáticos e na formação dos professores de português, para que não sejam eles mesmos perpetuadores do preconceito linguístico e da discriminação.
Além disso, vale considerar que, em menos de meio século, a proporção mundial entre a população urbana e a rural ficou muito desigual, com a população mundial muito mais urbanizada. A urbanização implica o contato com formas linguísticas de maior prestigio, na televisão, na escola, na leitura etc. Isso vai implicar também uma espécie de nivelamento linguístico. Embora as variedades linguísticas se mantenham, quanto mais pessoas souberem ler e escrever e tiverem ascensão social, é mais provável que haja um nivelamento linguístico maior.
No caso específico do Brasil, nos últimos oito anos, quase 30 milhões de pessoas saíram da linha da pobreza e com isso vão impor também sua maneira de falar. Outro dado muito importante é que a grande maioria das pessoas que se formam professores (de português, principalmente) vem dessas camadas sociais. Portanto, o professor que está indo para sala de aula já é falante dessas variedades linguísticas que antigamente eram estigmatizadas. Isso vai provocar um grande movimento de valorização dessas variedades menos prestigiadas. Estamos assistindo a um momento muito importante da história sociolinguística do Brasil.

*Matéria do Brasil de Fato, reproduzida na Carta Capital

O poder da escrita

Vou reproduzir um texto que escrevi num curso de extensão que estou fazendo online pela UNESP de Marília.  O breve comentário refere-se ao prefácio, capítulos 2 e 3 do livro "História da Escrita", de Steven Roger Fischer. 

Na página 10, o autor Fischer diz que “a escrita se torna a mais moderna máquina do tempo”. Ele está se referindo à possibilidade de podermos reler o que já foi escrito, à possibilidade de sabermos da nossa história com a leitura que os antepassados nos deixaram. Podemos entrar nessa “máquina do tempo” a qualquer momento e saber o que aconteceu no instante em que um texto foi escrito, porque ele é, por si mesmo, a descrição do que procuramos. Entretanto, um texto escrito tem muito das impressões de quem o escreveu, tornando-o pessoal e mostrando um ponto de vista particular. Assim, podemos, muitas vezes, ter acesso a algo da história cujo narrador/escritor pode não mostrar todos os lados da moeda. Na continuação do texto, Fischer diz que “a escrita continua sendo um artifício, um instrumento imperfeito aparentemente modelado, ainda que à primeira vista para reproduzir a fala humana”. Acredito que a escrita não tente reproduzir apenas a fala humana, mas sobretudo o pensamento. Talvez nem a fala consiga reproduzir fielmente o que temos em mente. Falar e escrever são formas distintas de uso da linguagem. Algumas pessoas tem dificuldade em articular a escrita de textos, mas conversam bem.
A escrita é um meio de se comunicar, como a fala. No entanto, o que escrevemos pode ser acessado novamente, ao passo em que a fala acaba no seu instante de produção, a não ser que seja gravada, claro! E é essa característica de reler que faz da escrita uma máquina do tempo: reler é recontar a mesma história várias vezes.
A escrita usando papiro, argila ou pergaminho remonta aos mais antigos registros que conhecemos do seu uso. Atualmente, escrevemos sem tinta e sem papel. Fischer faz uma descrição poética do uso dos computadores: “tinta eletrônica sobre telas de plástico, finas como papel”, e segue dizendo que “a escrita muda à medida que a humanidade se transforma. É uma dimensão da condição humana”. Por isso mesmo, enquanto sociedade que vem se desenvolvendo ao longo de séculos e milênios, a humanidade cria novas tecnologias para suprir novas necessidades. O próprio Fischer reconhece que a escrita era “considerada o caminho para a sabedoria” e que era a “ferramenta perfeita para a ascensão social” por representar a ideologia de um grupo.
Assim como o texto de Fischer cita os diferentes sistemas de escrita, logografia, silabografia e alfabeto, a língua portuguesa, especificamente, teve três períodos de desenvolvimento da escrita: o período fonético (ou arcaico, quando do surgimento da língua portuguesa, do século XIII até metade do século XVI, aproximadamente, em que se escrevia consultando o ouvido, se escrevia como se ouvia, mas sem nenhuma normatização), o pseudo-etimológico (erudição, aproximação da escrita greco-latina, mas também sem nenhuma normatização) e o etimológico (o português normatizado que usamos atualmente, desde 1904, tendo sofrido poucas alterações desde então).
Durante muito tempo a escrita ficou restrita a pequenos grupos, a uma elite de ricos e poderosos. Com o tempo, passou a ser usada por todos, porque era mais fácil uma elite dominar um povo se todos se comunicassem uniformemente. Além disso, com o advento da escrita, o domínio pôde ser mais fácil para além das fronteiras internas, com a imposição da cultura dominante. Pensemos no que os jesuítas portugueses fizeram com os índios no Brasil: alfabetizaram quem não usava a escrita como prova de domínio. Outro exemplo: A cultura literária e científica ficou muito restrita aos clérigos durante um longo período em Portugal, especialmente durante a Idade Média, tendo sido disseminada nos conventos, como o de Alcobaça, a maior livraria medieval portuguesa. Até o século XIII, apenas nesses conventos havia a produção de manuscritos, único meio de reprodução dos livros antes do surgimento da imprensa, e esses documentos eram restritos apenas aos estudiosos desses lugares.
Nesse momento histórico em que o latim era a língua das literaturas, aprendido principalmente pelos clérigos e usado por eles na transmissão de seus ensinamentos e valores religiosos, a formação do reinado português, com todas as mudanças sociais, políticas e culturais instaladas, foi determinante para o surgimento de uma literatura de ambiente citadino, inspirado pelo espírito antifeudal e anticlerical. Diante disso, a Igreja resolveu escrever e divulgar seus textos nas línguas regionais para, a todo custo, custo levar seu conhecimento antes destinado apenas aos clérigos, à população leiga. Foi a massificação do conhecimento religioso que arrebanhou novos fiéis, dando nova dimensão para a Igreja Católica na Idade Média. Livros e mais livros passaram a ser traduzidos, dando trabalho a muitos copistas, que eram responsáveis fazer cópia dos livros, já que naquela época não havia a imprensa. Algo interessante para se observar nessa questão dos copistas é que houve cópia de textos escrita com mudanças na grafia de várias palavras, porque nessa época ainda não existia uma ortografia, uma norma de escrita. A título de curiosidade, o primeiro trabalho organizado que descreve a ortografia da língua portuguesa foi publicado em 1904 por Gonçalves Viana: Ortografia nacional.

O prazer e a culpa

Vou comentar um texto do Contardo Calligaris que foi publicado esta semana na Folha de S. Paulo. Primeiramente, vamos esclarecer quem escreveu o texto abaixo: Contardo Calligaris é um psicanalista. A psicanálise é uma área da psicologia desenvolvida por Freud. Há outras teorias da psicologia além da psicanálise. A psicologia se apresenta como Ciência (tem um objeto de estudo, uma metodologia) embora haja algumas discussões sobre esse objeto, a 'alma', mas isso é outro assunto...
Como psicanalista, acredito que o Contardo queira não discutir se Deus existe ou não, mas ele lida com a questão do prazer e da culpa. Eu não entendo muito de psicanálise, mas vou tentar dizer o que sei sobre prazer (veja, prazer aqui não se refere necessariamente a sexo, mas ao prazer geral, como comer, fazer coisas das quais goste etc.) segundo a teoria de Freud: Todos nós, quando nascemos, buscamos o seio da mãe para nos alimentar, já sabemos o que temos que fazer: mamar. Essa ânsia, esse desejo de mamar e saciar a fome é o prazer inicial, o nosso primeiro prazer, o mamar. O segundo momento de prazer na nossa vida é quando conseguimos ter o controle do esfincter: quando conseguimos controlar nossa vontade de ir ao banheiro, podemos controlar essa necessidade de nos sentirmos aliviados. O mais importante é focarmos no prazer inicial, que é o mamar, o saciar a fome. Ao longo da vida, sempre vamos buscar alguma realização: é a nossa pulsão de vida. Assim que você conquistar algo que almeja, começa outra busca, e assim por diante. O dia em que você não mais desejar nada, será o dia em que você terá uma pulsão de morte, não mais vontade de viver, nenhum prazer mais para realizar.
Todos nós, segundo Freud, buscamos saciar o prazer inicial ao longo da vida, e colocamos nossas energias nessas atividades a que nos propomos fazer. Por outro lado, algumas pessoas buscam esse prazer original de uma forma 'descontrolada', se é que posso dizer assim: perdida, a pessoa come em excesso, se exercita em excesso, ou faz alguma coisa de forma 'incomum'. Inclusive aqueles que só enxergam a igreja, como os evangélicos cegos, ou mesmos católicos, ou mesmo os homens-bomba que matam em nome do Alá (mas no caso dos homens-bomba acho que é diferente, porque eles cresceram aprendendo que aquela é a única verdade, cegos, ignorantes e alienados). Mesmo o beijo, segundo a psicanálise, é uma tentativa de busca do prazer original. Essa busca de 'mamar na mãe' nos persegue para sempre, inconscientemente.
Como mais de 90% das pessoas do planeta não são atéias (acreditam em Deus, em algum Deus, em alguma entidade, força superior etc.), é inevitável tratar da culpa e do prazer sem falar em Deus.
Particularmente, não vejo a contradição que alguns possam enxergar no texto, se quiserem dizer que o autor fala que Deus existe mas que nega que ele possa agir em nossa vida : "No fim do primeiro milênio, cada vila europeia vivia no medo de bandos errantes. Quando eles se aproximavam, o povo se reunia na igrejinha e rezava. Isso não impedia nem saques nem estupros. O que pensar quando os bandidos iam embora? Deus não nos protege porque não existe? Deus existe, mas não dá a menor para a gente? Devia triunfar a versão que conciliava o desastre com a existência de Deus: o próprio Deus mandou os bandidos para nos punir de nossos pecados.". Veja que ele está descrevendo o que faziam as pessoas no primeiro milênio da era cristã: quando se aproximavam esses bandos errantes, as pessoas iam para a igreja e rezavam, e 'mesmo assim' não conseguiam evitar roubos e estupros. Conseqência: "se meus prazeres culpados são a causa dos males, (...) bastará modificar minha conduta de modo que minhas ofensas sejam perdoadas". O próprio autor deixa claro: o homem é que age e que muda sua conduta. A nós, que acreditamos em Deus, sabemos que Ele nos ilumina. Mas, em última instância, não podemos nos esquecer de que temos o Livre Arbítrio: a escolha final do que fazer sempre será nossa, agir ou ficar parado esperando... Por exemplo, se algo bom nos acontece, o que dizemos? "Graças a Deus". Ou não é assim que nos comportamos? E quando uma desgraça acontece, como uma tragédia natural? É importante refletirmos sobre isso, porque dizer que as desgraças acontecem com quem não reza e não crê me parece, isso sim, contraditário: por que tanta gente que reza e crê morre em situações terríveis, sofrem tragédias etc.? Não podemos oferecer respostas simplórias para assuntos tão complexos. Há inúmeras possibilidades sobre o que refletirmos, e essas muitas possibilidades me agradam de um tanto...
Segue o texto do Contardo:

CONTARDO CALLIGARIS (Folha de S. Paulo)
O prazer e a culpa

Os jovens são levados a pensar que é só frustrando seus próprios desejos que ganham o amor dos adultos


ADMIREI A reação dos japoneses diante do desastre -terremoto, tsunami, contaminação nuclear. Nas declarações oficiais e nas palavras das vítimas, a catástrofe é apenas um acidente: pode haver responsáveis por falhas na prevenção, na segurança ou nos socorros, mas a catástrofe em si não tem sentido algum. Será que nós, ocidentais, seríamos capazes da mesma atitude? Não sei.
A peste assolou repetidamente a Europa do século 14 ao 18. A primeira grande epidemia, de 1347 a 1352, matou um quarto da população europeia. Para que o horror não induzisse ninguém a pensar que o universo era sem sentido, duas reações populares: 1) perseguir judeus e bruxas, supostamente responsáveis pelo contágio, 2) juntar-se aos flagelantes, penitentes que erravam pelo continente se fustigando até o sangue.
Para o flagelante, a peste era um castigo pelos pecados do mundo; portanto, punir-se por eles talvez fosse o jeito de tornar a peste desnecessária.
Naqueles quatro séculos, a Europa se cobriu de igrejas que eram construídas como oferendas para que a epidemia se acalmasse; nelas, homens e mulheres faziam promessas, pedindo para serem poupados.
Ainda hoje, na calamidade e no medo, a promessa que acompanha o pedido feito a Deus ou aos santos sempre propõe uma renúncia: o pedinte se engaja a se privar de algo, do sexo ao chocolate. Funciona assim: 1) meu prazer e meu gozo são sempre culpados, 2) portanto, qualquer mal que me assole se explica como punição de minhas culpas, 3) a renúncia aos meus prazeres pode me redimir e estancar a punição.
Como chegamos a fazer esse estranho uso dos prazeres, ou melhor, da renúncia aos nossos prazeres? Três respostas, não excludentes (e insuficientes).
1) Bem ou mal, educar implica conter, impor frustrações e renúncias. Com isso, a aprovação dos educadores sempre parece proporcional à aceitação das renúncias pelos educandos. Ou seja, os jovens podem ser levados a pensar que é só frustrando seus próprios desejos que eles ganham o amor dos adultos.
2) No fim do primeiro milênio, cada vila europeia vivia no medo de bandos errantes. Quando eles se aproximavam, o povo se reunia na igrejinha e rezava. Isso não impedia nem saques nem estupros. O que pensar quando os bandidos iam embora? Deus não nos protege porque não existe? Deus existe, mas não dá a menor para a gente? Devia triunfar a versão que conciliava o desastre com a existência de Deus: o próprio Deus mandou os bandidos para nos punir de nossos pecados.
3) Talvez seja menos angustiante viver num mundo que faz sentido do que num mundo que não teria sentido algum. Por exemplo, como é que você aguentaria o pensamento da morte futura sem o conforto da ideia de que ela está incluída numa ordem cósmica ou num plano divino?
Infelizmente, esse conforto tem um custo alto, pois o jeito mais fácil de garantir a existência de um sentido do mundo consiste em me atribuir a culpa por todos os males. Ou seja, minha culpa e meu esforço para me redimir "provam" que existe uma ordem (justamente, a que eu ofendia quando me entregava a meus prazeres).
Corolário: se meus prazeres culpados são a causa dos males, não preciso responder "adequadamente" às calamidades, bastará modificar minha conduta de modo que minhas ofensas sejam perdoadas.
Além de dar sentido ao meu mundo, a culpa me oferece a ilusão de agir de maneira eficaz: como o flagelante, posso esperar que minha renúncia ao prazer suspenda a punição. De repente, doenças e catástrofes talvez parem diante de minha conduta meritória. Em vez (ou além) de procurar as condições de prevenir um terremoto ou de debelar um câncer resistente, rezarei noite e dia e me fustigarei em penitência. Se, de qualquer forma, o terremoto vier ou o câncer triunfar, será porque não me açoitei o suficiente.
Pois bem, não acredito que, em nossa cultura, esse bizarro uso dos prazeres e da culpa tenha mudado substancialmente nos últimos sete séculos. Continuamos fundamentalmente inimigos do nosso prazer.
Prova disso: há, hoje como no século 14, bandos errantes que denunciam nossos tempos "hedonistas" e nossa voracidade por prazeres e gozos. São os flagelantes verbais: criticam o prazer para fomentar a culpa. É o jeito (custoso) que eles acharam para dar sentido ao mundo.

segunda-feira, 21 de março de 2011

Devaneio de uma noite de outono

Eu estava entorpecido naquela noite gelada. Não era um torpor pelo frio, menos ainda pelas drogas que eu não uso, era reflexo de uma vida toda. Eu estava paralisado, tranquilizado. Acho que eu sonhava naquele momento, porque parecia tudo incrível. Eu estava deitado no colchão, sendo velado, observado quietamente. A conversa parecia distante, longe lá no fundo. Me lembro dos rostos, dos sorrisos nossos. Ficamos conversando, conversando... O tempo não era mais um tigre, era uma estátua no jardim. Fazia Tic e custava a vir o Tac, longamente, para meu prazer e para a manutenção dessa foto que trago na memória. Ficamos juntos tanto tempo, com abraços, beijos - era muito carinho, coisa de cinema! Era uma cena rara: deitados no colchão, eu sendo observado e ouvindo: como você é lindo... Acho que sonhava acordado, um devaneio. Fecho os olhos e revejo aquele momento todo de torpor, de amor, do calor que me aqueceu naquela noite fria...

Trilha sonora: Wish you were here, da Avril Lavigne

sexta-feira, 18 de março de 2011

Histórias pra contar

Há algum mistério nesse olhar. No movimento desses cabelos com o vento. Há algo a descobrir em você. Ou você se esconde, ou resiste... Há uma certa firmeza nos seus riscos, nos seus traços há uma exatidão. Para uma descrição, narração de uma emoção. Há algum mistério nesse olhar, um amor pra conquistar, um abraço pra apertar. Há medo nesse olhar, ou apenas uma incerteza (daquelas que todos nós podemos ter quando acordamos e pensamos: será?) relutante que te faz expressar esse ar de mistério? Há um carinho nessa mão, que traça firme sobre a folha em branco: um toque de amor, de aconchego. Há uma força nesses braços que envolvem: a força da paz, como se oferecesse uma bênção - ou como se a pedisse. Quando abertos, esses braços parecem enormes, mas ao abraçar, fechando-se, ficam pequenos porque juntam os dois corpos num só instante, numa só luz, o mais apertado possível, inseparável e indizível. Há uma suavidade na sua voz, um doce que fala da vida, do dia: 'o bom na vida é ter histórias pra contar'. Quero recomeçar a minha história, quer ser protagonista comigo? A gente pode desvendar esses mistérios juntos, descobrir novas histórias pra contar. A gente pode escrever um livro. Com gravuras, figuras, desenhos. Pintados, em preto e branco, riscados. A gente pode escrever uma história de duas pessoas, ou duas histórias que uma hora se encontram, num daqueles capítulos que lemos ansiosamente esperando o resolver de tudo. Queria descobrir o mistério desse olhar e viver esse capítulo ansioso pra sempre, sem chegar ao fim do livro, a não ser com final feliz.

terça-feira, 15 de março de 2011

EUA e as experiências desumanas

Traduzo abaixo um texto que li hoje no site do jornal espanhol El País e que me deixou muito inconformado com a brutalidade com que os EUA tratam pessoas, ainda que sejam presos por terem cometido algum crime e, pior ainda, se forem pacientes com problemas mentais ou órfãos. É a barbárie - sim, os EUA não governam pessoas, o Governo americano é ele mesmo o bárbaro. Eles governam dinheiro e poder. Deveriam, por isso mesmo, chamar-se Estados Unidos dos Bárbaros.
Segue o texto:

Apresentada uma demanda contra os EUA por experimentos com sífilis na Guatemala

Tradução: William César Ramos Lima
Fonte: El País

Cerca de 700 prisioneiros, soldados, pacientes mentais e órfãos procuram uma compensação financeira pelos problemas de saúde desenvolvidos pela doença

EFE - Washington - 14/03/2011

Centenas de guatemaltecos submetidos a experimentos com sífilis pelos Estados Unidos na Guatemala na década de quarenta do século passado apresentaram hoje uma demanda em Washington contra o Governo à procura de indenização. A ação coletiva, segundo o escritório de advocacia Parker, Waichman e Alonso que os representa, procura uma compensação financeira pelos problemas de saúde desenvolvidos por cerca de 700 prisioneiros, soldados, pacientes mentais e órfãos em razão dos experimentos.
Os representantes legais haviam dado o prazo de até sexta-feira passada para que o Governo norteamericano estabelecesse um processo de compensação fora dos tribunais para as pessoas que “foram adversamente afetadas por este experimento”. Como não obtiveram resposta, apresentaram hoje a demanda. O outro escritório de advocacia envolvido na demanda coletiva é o Conrad and Scherer.
A ação judicial se deu depois que, em outubro de 2010, havia sido divulgada informação sobre os experimentos com sífilis feitos sem a permissão ou o conhecimento das pessoas afetadas. Naquela ocasião, tanto a secretária de Estado, Hillary Clinton, como a da Saúde, Kathleen Sebelius, criticaram tais experimentos e divulgaram uma desculpa pública. O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, também pediu desculpas telefônicas ao seu homólogo guatemalteco, Álvaro Colom, e ordenou a criação de uma comissão especial para estudar os aspectos éticos dos estudos médicos internacionais.
Entre 1946 e 1948, cientistas norteamericanos contaminaram deliberadamente os sujeitos dos experimentos com o vírus da sífilis para provar a eficácia da penicilina contra essa doença. Segundo documentos judiciais, a equipe de médicos norteamericanos persuadiu funcionários em orfanatos e em prisões da Guatemala para que permitissem os experimentos em troca de equipamentos como refrigeradores e remédios para o tratamento da malária e da epilepsia.
Em alguns casos, os médicos ofereceram cigarros a alguns dos sujeitos que aceitaram participar dos experimentos e os presos foram infectados por prostitutas. A demanda compara os experimentos na Guatemala com um estudo feito em Tuskegee (Alabama), que começou em 1932 e durou 40 anos, período no qual os médicos observaram o avanço da sífilis em cerca de 400 homens afroamericanos já infectados por essa doença.
Esses homens nunca foram informados de que haviam contraído a doença venérea e nunca foram tratados, mesmo que tenham sido submetidos a exames médicos gratuitos, tenham recebido alimentos e cobertura de gastos fúnebres. Na ação pelos experimentos em Tuskegee, as vítimas foram indenizadas.

Tradução: William César Ramos Lima
Fonte: El País

terça-feira, 8 de março de 2011

No país das quinquilharias do Leo

Hoje vou dedicar meu post a um novo amigo, também blogueiro e poeta. Vou apresentar-lhes o Leo. No país das quinquilharias é o blog dele. Vale a pena conferir. De cara, eu me senti atraído por esta poesia AQUI:
[...]

É doce seu beijo,
Me desnudo para recebê-lo.
Como é doce seu beijo
Quando deito na cama,
encabeçando os travesseiros.
É doce o beijo que nos transborda
para dentro.
A pele é uma fronteira mais pacífica
Quando seu beijo encontro
Em bocas imprevistas.


Achei linda a imagem da pele como fronteira pacífica da fricção que os corpos provocam. Um esfrega da paz, não da guerra, mas dos gritos. De prazer, não de dor. Um beijo que transborda pra dentro (da boca do outro).  Em meio a tantas guerras, tanta violência presente no nosso cotidiano, ver essa luta pelo amor, pela sensualidade faz relembrar esses momentos sensuais que vivemos. Esses encontros que fazemos na busca do prazer: cada encontro deve nos trazer marcas - boas ou ruins - que, de algum modo, vão nos ajudar na construção de quem somos.

A você, Leo, minha homenagem de hoje!

quinta-feira, 3 de março de 2011

Sonhos e frustrações de uma mocinha

Eu queria ter a sorte de encontrá-lo na rua. Aquele moço bonito que conheci outro dia, assim, sem querer. Nessa andança todo dia na hora do almoço, no caminho para o restaurante. Às vezes vou para uma lanchonete ou para um café. No caminho vejo tantas lojas que chamam a atenção - ou pela cor da vitrine ou pela bagunça que se mostra! Eu queria ter dinheiro para fazer esses móveis planejados. Como os da vitrine. Ficariam perfeitos na minha nova casa. Fui sorteada no programa do governo. Ganhei uma casa. Não ganhei, porque vou pagar, mas ganhei o sorteio. Terei que pagar pela casa! Com prazer. E com meus móveis planejados... Ficará linda...
Passando na frente do laboratório, fiquei com medo de pegar o exame. Transei com o ex várias vezes sem camisinha. Deu até um arrepio agora. Grávida não estou, porque tomo pílula. Pelo menos. Amanhã penso em retirar esses resultados. Não quero ser sorteada nesse exame! Esse não é o tipo de sorteio que nos dá prêmios. Na verdade nem é um sorteio. É uma escolha - não escolhemos a contaminação, mas escolhemos a não prevenção... Caso sério, vive dando na TV, o Ministério da Saúde sempre fala pra usar camisinha... Mas a gente é boba, acha que aqueles homens lindos são imunes a todo mal, inclusive dessas doenças. Eles nos enganam, ou nós nos enganamos, com tanto elogio, tanto amor que nos mostram... Só depois descobrimos que são sem-vergonhas, que querem apenas nos levar pra cama, sem amor, sem roupa, sem nada. Nem com a camisinha. Eles nos ganham com um papo que nos faz sentir deusas, as mais belas, lindas e gostosas. Gostosas. Aí traçam, comem, devoram. Nosso sexo, nosso corpo, nossa alma. Lá se vai toda nossa saúde. Sem camisinha. Lá se vai a esperança de comprar os móveis planejados. Sem dinheiro, sem vontade de viver. Não vou mais procurar as vitrines depois de adoecer. Condenada. Chega com essas ideias. Deixa eu ir almoçar. Amanhã vejo o resultado do exame.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Amor com café

Este post é uma homenagem que presto à minha sempre amiga/companheira de café Daniela Paula. A Dani me ensinou a tomar café acompanhado de um bom papo. Antes disso, me ensinou a ler jornal (como realmente deve ser lido), como nunca antes li. A mocinha de laço de fita na cabeça é linda, tem um coração bondoso, sofredor como o meu, é sincera, rói unhas compulsivamente e é muito inteligente. A você, Dani, todo meu carinho, meu amor e minha amizade.

Amor com café:


Iríamos tomar um café. Se eu tivesse tempo pra você. Recordar aqueles momentos no Café. Reviver aquilo tudo, com o aroma do café. Mas eu não posso mais fazer isso. Não te quero mais. Nem com café. Nem no Café. Do Lado. Do Feirante. As nossas conversas eram longas, eu sei, quase intermináveis. No Café. Eu adorava aquelas conversas. Aqueles olhares cheios de brilho, de interesse pelo assunto. Na verdade o assunto nascia com o café, até sem necessidade, porque o motivo do Café era o café, com você. O café nos levava ao prazer, à paz, alprazolam natural, sem receita, sem tarja preta, só calmaria. Eram os momentos mais ansiosos do dia: estar contigo, e estar contigo no Café, tomando aquele café... O aroma e o sabor do café eram nossa fonte de vida. Até que um dia você quis terminar nosso amor; porque, sim, no dia em que você me disse que não queria mais tomar café comigo, você rompeu de vez com nossa paz. Você destruiu tudo que construímos. Jogou uma bomba nas minhas tardes. Nas noites. Eu bem te amava. Sim, te amava. Mas com o café. No Café. E voce soube como acabar com tudo: com o amor, com o sabor, com o namoro, que se foi com o fim do café. É isso: não quero mais tomar café contigo, disse você. Mas queria dizer algo a mais: não vamos mais namorar. Não me lembro nem do motivo. Nem faço questão. Você disse que não me queria mais. Ponto. Agora, tanto faz. Você é passado, e eu continuo apaixonado pelo café. Tenho um novo amor, que conheci no Café. E tomamos café no Café. E já nem penso mais em você. Prazer em te ver de novo. Iríamos tomar um café. Se eu tivesse tempo pra você. Mas meu novo amor me espera. Lá no Café.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Felicidade. Clandestina. Imensa

Uma imensa felicidade me invade. Daquela clandestina, que ninguém pode saber. Daquela que me faz sorrir sozinho, bobo-alegre... Eu não poderia dizer jamais, jamais poderia dizer o motivo. É clandestina minha felicidade. É só minha. Exclusiva. Daquelas que podem causar inveja, podem pedir a receita, querer saber o segredo, mas eu não posso entregar isso assim tão fácil. Nem difícil, porque não posso dizer o que é. Nenhuma felicidade é maior do que essa que só eu sei, que só eu sinto, ou tenho. Me encheu de alegria, eu ouço música e canto junto, sozinho, na rua. Dizem que me viram na rua falando sozinho. O fone, disse eu. Estava com o fone. Mesmo se não estivesse, posso falar sozinho se quiser, não?! Conversar comigo mesmo, imaginar umas situações, umas alegrias. Que resposta eu daria naquela entrevista, se estivesse lá? Diria isso, com tanta felicidade, hahaha. Tamém acho. Considero, diria nossa nova presidenta. Ela nunca usa "acho". Reparei isso. Deixa pra lá. Que tenho a ver com o jeito que os outros falam?! Tudo. Todos falamos. De algum modo, ou de outro. Posso observar isso. Com a mão. Com a sobrancelha. Com a boca torta. Sorrindo. Com medo. Todo mundo fala. Eu também, sozinho, estou aqui falando. E rindo, né. Tanta coisa pra fazer, um livro que podia ler. Estou aqui escrevendo. Ou falando sozinho. Quem quer saber? Sozinho, ninguém me ouve. Ninguém me lê. E quem garante que eu diga a verdade? Quem disse que eu quero dizer a verdade? Ou a mentira? Apenas converso comigo mesmo... Com uma imensa felicidade.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Único

Hoje me percebo com os cabelos rebeldes. Esses fios emaranhados quando olho no espelho. Terei eu me esquecido de me pentear antes de sair de casa? Ou estarei eu me vendo de algum outro modo hoje? Como um bagunçado, relaxado, barrigudo, feioso? Como um cara pouco desejado, sem sexy appeal? Devo ser eu um cara tão desinteressante assim, nunca paquerado, sem chance alguma de ser amado e de poder amar. O que deveria eu fazer, então? Ir pra academia, fazer parte da massa que busca um corpo sarado, estar na moda do tanquinho. Ou então eu devo cortar o cabelo curtinho, passar gel, com ares de meninão. Acho que devo parecer um idiota em busca desse algo a mais. Mas não sou um idiota. Acredito que devo parar de pensar nisso dessa forma e me aceitar como eu sou, como eu quero ser. Não preciso estar/ser/parecer como querem que eu esteja/seja/pareça. Devo ser eu mesmo, sendo apenas eu mesmo. Ego. Eu. Meu. Não sou fruto da indústria em série, por que então ser igual aos industrializados? Num mundo de tanto consumo, é difícil verificar minha própria identidade, exatamente por ela dizer respeito ao meu ego, ao meu eu, meu. Não o dos outros. Não o que os outros querem. Não sou industrializado, sou como um obra de arte: único!

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Pura covardia...

Não entendo sua covardia. Esse descaso que você parece querer mostrar. Será de verdade? Há algo a mais? Você tem medo? Medo da vida, da morte, do amor, medo da dor da paixão? Você me conquistou, jurou que me queria na sua vida como o personagem daquela música... Você mandou aquela música pra mim. Eu me derreti. Você fugiu... Sumiu! Está fazendo charme? Ou apenas não sabe como dizer que não me quer mais? Não sabe como dizer que foi tudo um engano, que você se confundiu? Não sabe encarar isso? Encarar, cara-a-cara. Não?! Pura covardia...

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Minhas amarras

Nada se resolve. O abandono me persegue. Sou prisioneiro de mim mesmo, das minhas necessidades, da minhas carências, das minhas vontades. Queria poder ser livre, ser solto, mas insisto em querer me prender. Insisto que preciso de amarras. E as procuro. E as espero. Mas não as encontro. O que fazer, então? Essas ideias só batem na minha cabeça, só ecoam dentro de mim. Às vezes menos, às vezes mais. Às vezes até me dói a alma. Mas não tem remédio pra dor da alma, tem?

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Adoraria morrer de beijar...

Com um sorriso lindo, eu diria que você é angelical. Mas diria isso enquanto não o visse despido de sua auréola. O anjo fica com a roupa. Sem ela, impera o fogo sensual que se mostra na ardência de tantos beijos, nas marcas de tantas mordidas e nos gemidos quando suspira. Sentir essa língua passeando pela minha pele, pelo meu corpo, é quase como gozar de prazer. A dor de ter os cabelos puxados não é nada ruim perto da sensação de ter meu corpo possuído pelo seu: eu apenas recebo as ordens da sua libido, que se junta à minha! Seus dentes arranhando minha nuca é um sinal: devo contorcer-me pra você saber que eu estou entregue. Se com os dentes faz meu corpo agir assim, a alma não age diferente: meu pensamento está ali, desligado do mundo e ligado naquele momento. A meia-luz cria um clima sensual, de vontades carnais. Seu perfume marca o encontro, o modo como vou te reconhecer quando estiver se aproximando... Beijos incansáveis, que tiram o fôlego, mas que devem ser logo retomados, porque a distância das nossas línguas não deve durar mais do que uma tomada de ar - mais tempo que isso não posso sobreviver! Melhor que isso seria você sugar de mim todo meu ar, assim não precisaria se distanciar. Adoraria morrer de beijar... Adoraria morrer de beijar...

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Mar de amor dentro de mim

Tudo que me disseres não será verdade até que me proves acontecer. Não verás meu sorriso até que me faças acreditar que o que dizes é realmente merecedor de tal gesto, de tal sentimento - sim, ao sorrir para meu amante, não é porque acho engraçado seu comportamento, mas é porque algo nele me tocou, me arrepiou e me fez querer, desejar e esperar um beijo apaixonado. Tudo que fizeres será recompensado - ainda que com um sorriso. Mas de nada vale tanto esforço teu em me conquistar se não tiveres contigo uma intenção pura e verdadeira, um sentimento maior que o egoísmo que te consome. De nada vale tua recompensa se, depois de tê-la conquistado, esquecer-te de quem sou, de quem me prometeras ser e do amor eterno que estaria por vir, pois nada serei diante de um amor insustentável, fraco, mentiroso e que sucumbe na primeira tormenta. Existe um mar de amor dentro de mim esperando por ti, meu navegador, que podes conhecer tão bem minhas águas, minhas tempestades, que sabes navegar com tua bússola até encontrar a calmaria. Eu sou explosão, e só um navegante de pulso firme, só um amante decidido, como tu te apresentas, poderá conter toda essa fúria marítima que se apresenta em minha alma. Serás tu quem fará resplandecer o sol no horizonte, aquele que trará calma ao meu mar no encontro com o sol, lá no limite? Preciso que entres sem bater, que te aconchegues no meu canto, invadindo tudo como se fosse teu. Preciso desse ímpeto, dessa ousadia tua. Preciso que me digas que és tu que mandas, és tu que ditas as regras, devendo eu me ajoelhar como um submisso apaixonado, envolto de tanto amor quanto tu me darás. Ajoelhado ficarei diante de ti; mas, antes disso tudo, terás que me conquistar e mostrar-me que és tu o merecedor deste imenso coração.

domingo, 16 de janeiro de 2011

Se eu pudesse...

Se eu pudesse, jogaria tudo fora. Atiraria tudo pela janela, pela porta, jogaria no lixo.
Se eu pudesse, não deixaria isso se repetir todos os dias, fugiria dessa rotina horrorosa, dessa (des)esperança de um amanhã lindo... Quanta bobagem acreditar em contos de fadas...
Se eu pudesse, perguntaria pra Deus o porquê dos humanos insistirem nas ilusões de que tudo está bem, ou de que tudo terminará bem. Quem garante isso?
Se eu pudesse, daria um tapa na cara daquele babaca que um dia me disse desaforos na escola, que me deixou pra baixo e me fez ser triste, ainda que por um momento.
Se eu pudesse, socaria aqueles idiotas que gritam tanta mentira na televisão.
Se eu pudesse, pegaria todo o dinheiro que se junta nas poupanças, nos colchões, nas igrejas, nas esquinas dos semáforos, no caixa 2 que existe por aí, e daria tudo pros pobres.
Se eu pudesse, pegaria todo ouro que há nas igrejas do Vaticano e venderia pra fazer a campanha da fraternidade de 2011.
Se eu pudesse, nasceria de novo para não acreditar no que acredito, ou para acreditar no que não acredito.
Se eu pudesse, mas há algo maior que eu, há algo que me impede...
Se eu pudesse, não haveria essa condicional, não seria subjuntivo: eu posso, no indicativo...
Se eu pudesse, mas não posso fazer tudo!

sábado, 15 de janeiro de 2011

Eu não quero voltar sozinho

Eu não quero voltar sozinho é um curta-metragem de Daniel Ribeiro. Rodado em 2010, o curta mostra a mudança na vida de um adolescente cego, Leonardo, após a chegada de um novo aluno, Gabriel, em sua escola. A mudança ocorre porque ele tem que lidar com um novo sentimento - a paixão -, e com o ciúme de Giovana, sua amiga e sempre companheira.
O filme é de uma sensibilidade grande, pois envolve a adolescência, homossexualidade, deficiência visual, tudo ao mesmo tempo. Não é nenhum dramalhão, é algo bem light, mas transmite uma esperança de vitória em meio a tantos preconceitos e dificuldades que a vida pode nos apresentar. O preconceito tem, em si mesmo, toda uma dificuldade, uma segregação, um ambiente hostil por ele proporcionado, mas como o curta é uma ficção, às vezes tudo são flores...
O amor na adolescência é tão lindo, é uma paixão louca, intensa. Depois da adolescência o amor intenso ainda existe, claro, mas nessa fase de descobertas há um ineditismo em experimentar sentimentos, há uma vontade de se encontrar em outra pessoa, de ir e de não querer voltar sozinho...
Na falta da visão, ainda temos o olfato. Na falta da visão, ainda temos o tato. Na falta de algum sentido, ainda há um sentimento para ser vivido... No fim, um olho que não enxerga, mas um olhar apaixonado, vivo e cheio de esperança.



Eu não quero voltar sozinho


> informações e ficha técnica: http://www.lacunafilmes.com.br/sozinho/docs/Info-EuNaoQueroVoltarSozinho.pdf 

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Na beira do rio

Na beira do rio Paraná. É onde passei meu aniversário de 26 anos, no último domingo, dia 9/1. Fomos eu e minha adorada prima Paty.
A cidade é Panorama, que fica na divisa de SP com MS. Lá tem um balneário e uma prainha na beira do rio. Muito gostoso, bom pra relaxar, tomar uma cerveja, comer umas porções nos bares que tem na beira do rio e não pensar em nada mais...
Algumas coisas engraçadas - como sempre - aconteceram: eu, no segundo dia lá, perdi meus óculos de sol no rio. Pois é, podem me chamar de mané, mas ele estava seguro em meu rosto até eu resolver enfiar a cara na água! rs Quando eu me levantei e dei conta que não estava mais com ele, minha prima me olhou e começou a rir; eu fiz cara de paisagem, fiquei passado, e depois ri, com muita raiva,claro... Afinal, disse que quem o encontrasse que fizesse bom proveito. Mas por que eu disse isso??? Mais tarde um pouco, eis que vejo meus estimados óculos enfeitando o rosto de uma feiosa lá. Eu cerquei, olhei, cheguei perto e puxei papo: Moça, você não achou esses óculos aqui não, né?! É que perdi os meus, e são iguais a esses. Não, eu nem sou daqui, sou de Dracena, e este está riscado. Ok, obrigado.
Poxa, gente. O que tem a ver ela ser de outra cidade com ter achado os meus óculos naquele rio? Nada, era migué... Eu também não era de lá... Ela deu um truque básico. Como eu não podia provar que exatamente aquele eram meus óculos, saí de mansinho, com muita raiva. Ok, já passou, até comprei outro essa semana!
Outro bafão, da minha prima, uma pérola, na verdade: Estamos lá no rio, curtindo a água e a Paty me solta: não vamos mais pra frente, não, se não eu me afogo na enxurrada! Gente, riam comigo... Eu lhe respondi: Prima, enxurrada é na chuva, aqui no rio é correnteza rsrsrsrs foi hilário, gente... rsrs
Na noite de sábado, lá no balneário, um grupo de amigos alugou um quiosque, ligaram o som mega potente do carro e se divertiram. A certa altura, eu e a Paty nos sentamos num banquinho em frente a esse quiosque, e eis que dois caras vem em nossa direção, nos chamando para nos juntarmos à turma. Recusamos, e eles insistiram. Aceitamos e fomos até lá. Não tinha nada, só o som. Nada de bebida. A não ser uma garrafa PET com gasolina. Sim, eles beberam gasolina! Até fizeram graça: um deles colocava gasosa na boca e depois cuspia no fogo, fazendo chama, como pirofagia, sei lá. Segurança? Zero. Senti um quente perto de mim e fiquei meio com medo de ser queimado vivo!!!
Um deles, até bonitinho e malhadinho, queria o corpinho da minha prima, mas ele estava sujo, fedido a gasosa - inclusive no bafo - e foi logo despachado...
Foi um fim de semana bem bom, sem preocupações. Mas o lugar é só pra um fim de semana mesmo, porque o balneário é a única coisa que se tem pra fazer naquela cidade. De resto, é mortinha.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Vampiromania

Bom, vou falar um pouquinho - bem pouquinho - sobre filmes de vampiro, já que estão na moda há algum tempo (que moda longa, não?! achei que moda durasse apenas 1 temporada hahahaha).
Para começar, vou colocar de um lado Crepúsculo e de outro lado Entevista com o Vampiro junto com as séries de TV True Blood e Diários do Vampiro.
 Em Entrevista com o Vampiro, Lestat transforma Louis em vampiro. Como seu criador, ensina-o a sobreviver, a viver como vampiro, seduzindo pessoas, sugando o sangue delas e matando-as. Entretanto, Louis, ainda com algo de sua alma humana, com sua piedade incondizente com sua nova natureza, prefere alimentar-se de ratos a matar humanos. Notamos a presença dessa dualidade humano X vampiro, esse paradoxo do ser vampiro e não ser humano X ser humano e não ser vampiro. O filme se passa como uma entrevista mesmo, em que Louis vai descrevendo como tornou-se vampiro e como fora sua vida desde então ao lado de Lestat. Ele não envolve nenhum amor entre vampiros e humanos. Há, isso sim, a presença de uma cena marcante em que Lestat seduz duas mulheres, suga-lhes o sangue e as mata, tudo envolto em muita sensualidade e indicando sexo no ar. Nesse momento, Louis tem uma crise de identidade vampiresca e não consegue consumir suas presas, duas lindas mulheres.

Em True Blood há o mesmo dilema: Bill Compton, um vampiro sedutor, apaixona-se por uma humana - descobre-se, mais tarde, que Sookie Stackhouse não é uma simples huamana, ela é uma fada! - e vive em uma luta intensa e tensa contra os outros vampiros caçados de sangue, caçadores de poder, que brigam, disputam os territórios dos EUA. Nessa série há algo de novo: a criação de um sangue sintético, o Tru Blood, invenção japonesa capaz de tornar possível a convivência entre humanos e vampiros, uma vez que os vampiros teriam outra fonte de consumir seu alimento - o sangue! Uma outra novidade na série é sobre as discussões políticas que envolvem a convivência entre humanos e vampiros: deveriam os vampiros passarem a ter direitos como os humanos?
A série mostra essa discussão tanto como ocorre na TV dos EUA, como os bastidores dos grupos 'a favor' e 'contra'. Fica evidente, ainda, a questão de outro tipo de discriminação: a racial, sempre apresentada pela personagem Tara Thornton, uma garçonete negra que consegue levantar a questão de que a escravidão já acabou, colocando-se, por vezes, como vítima de sua origem africana, não aceitando submissão de forma alguma. True Blood mostra os vampiros como eles são: sugadores de sangue, assassinos, sedutores, sensuais e muito sexualmente ativos.


Já Diários do Vampiro é outra série norte-americana que, como a anterior, trata da dualidade entre os vampiros e os humanos, tendo como mediadora a presença das bruxas, que podem controlar, até certo ponto, os vampiros. Em Diários, Elena Gilbert fica envolvida em um triângulo amoroso com os irmãos vampiros Damon e Stefan Salvatore que, depois de anos, voltam a viver na cidade de Mystic Falls, cheia de tradições e grupos de famílias fundadoras que escondem segredos de extrema importância, que só se revelam ao longo da trama. Aqui, assim como em True Blood e em Entrevista com o Vampiro, há um vampiro que nega sua natureza assassina e prefere caçar pequenos animais para se alimentar. Só que uma hora essa dieta vai pesar, pois ele estará fraco para enfrentar os desafios que surgirão em seu caminho. De um modo geral, nesta série há até algum toque de sedução, algumas mortes e alguns vampiros atacando, mas bem menos que True Blood, e sem praticamente nenhuma cena sensual ou indicando uma relação sexual.

As duas séries, True Blood e Diários do Vampiro tem algo a mais em comum do que apenas a dualidade vampiro X humano, como podemos notar: o amor shakespeareno entre humanos e vampiros, remetendo-nos à célebre tragédia de Romeu e Julieta, jovens de famílias rivais que se apaixonam - e, no fim, morrem por amor (por isso uma tragédia!).

 Por sua vez, Crepúsculo e suas sequências são filmes que apresentam um personagem principal, Edward Cullen, um vampiro bonito, que fala manso e que, assim como nas séries acima, não consome sangue humano, alimentando-se de pequenos animais. Aliás, toda sua família vampiresca é "da paz". Edward também mantém um romance com uma humana, a adolescente Bella Swan. Eles vivem uma tensão entre beijar ou não, transar ou não, porque ela não é vampira e ele tem medo de machucá-la. Uma diferença bem marcante nesta série de filmes é que Bella é muito fogosa, inconsequente, louca para o primeiro beijo, para a primeira vez, enquanto Edward a segura, ele é quem diz "não, só depois do casamento". É um filme em que quase não há mortes, a sedução fica por conta de um lobisomem, Jacob Black, embora não seja tão evidente.
Na minha opinião, a série Crepúsculo é a pior de todas as anteriores, porque mostra um vampiro com uma tensão muito pequena, não tem praticamente nada de sensualidade, quase nada de morte, quase zero de vampiro sugando sangue e um absurdo de um vampiro que resiste a uma humana, cuja primeira vez só aceitará após o casamento - até o primeiro beijo demora para acontecer (acho que no segundo filme).

Essa desconstrução das características de grande peso nos personagens vampiros por parte da série Crepúsculo deve-se, talvez, ao fato da autora dos livros que deram origem aos filmes ser mórmon, pregando a virgindade antes do casamento. Dessa forma, eu consigo entender o porquê de Edward ser um vampiro tão fraco, descaracterizando tudo que se conhece sobre vampiros até então. Crepúsculo é tudo o que um vampiro não quer viver: a virgindade eterna! Seguindo esse mesmo pensamento, a série True Blood é a melhor para mim: a de maior erotização, de mais envolvimentos sexuais, homo e hétero, diga-se de passagem. Vampiro deve ser isso: um sugador de sangue, um assassino, um ser que adora sexo por natureza! O resto, isso é invenção que não tem nada a ver...

Curiosidades:
-Entrevista com o Vampiro tem como atores: Tom Cruise, Brad Pitt, Antonio Banderas, Kirsten Dunst. Filme baseado no livro de Anne Rice.
-True Blood tem como atriz principal Anna Paquim, vencedora do Oscar de melhor atriz coadjuvante quando era criança, por sua participação em O pianista. Série inspirada nos livros de Charlaine Harris, e vencedora de Globo de Ouro como melhor série dramática e como melhor atriz dramática por Anna Paquim.
-Diários do Vampiro é uma série inspirada nos livros de L. J. Smith.
-Crepúsculo é uma série de filmes inspirada nos livros de Stephenie Meyer.

domingo, 2 de janeiro de 2011

Enterrado vivo

O título do filme é "Enterrado vivo" (Buried). Uma produção espanhola com um ator americano (Ryan Reynolds) que narra um período de cerca de 2 horas de um motorista americano que fora trabalhar no Iraque.
Essas duras horas são angustiantes, porque são 2 horas de prisão em um caixão, enterrado vivo!
O suspense do filme só não é maior que a questão política presente ali... Paul Conroy, o personagem de Reynolds é uma vítima de sequestro. Os bandidos pedem resgate de 5 milhões de dólares. Paul tem um celular no caixão, pelo qual se comunica com os bandidos e com o Estado americano.
Os EUA parecem querer ajudar, duvidosamente. Os bandidos não estão de brincadeira. Paul diz que não é militar, que está no Iraque trabalhando na reconstrução do país - aquele que os próprios americanos destruíram, replicou o sequestrador.
O governo dos EUA tenta abafar o sequestro. Deixa claro que não é o único, que há e houve outros, sem exposição midiática. Tentam resolver tudo longe dos holofotes e Paul descobre isso da pior forma: vivendo na pele os desmandos do governo americano.
E não apenas do governo. A empresa para a qual Paul trabalha se exime de qualquer responsabilidade com sua vida, dizendo que naquela manhã haviam rompido o contrato de trabalho dele porque ele supostamente tivera um caso com uma colega de trabalho, ferindo cláusulas contratuais - isso faria com que Paul ficasse sem qualquer auxílio no Iraque, ou sem qualquer indenização, seguro etc... É o capitalismo em seu estado mais selvagem, mais devorador de seres humanos. Foda-se o lance de direitos humanos. Foda-se a questão de direitos de trabalhador.
Os EUA são mostrados no filme como aquele que não se importa com seus cidadãos - tão amantes de sua bandeira, tão patriotas. Eles querem apenas dominar, invadir, mandar, matar. Nem que para isso tenham que morrer os próprios americanos "em nome da nação", como ocorreu com os milhares de mortos no 11 de setembro e nas guerras que os EUA insistem em travar...
Bom, o final do filme é a melhor parte, mas essa eu deixo pra vocês saberem vendo o filme!

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